segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Obrigado, E. M. Ministro Orosimbo Nonato

Era o ano de 2010. Após passar por algumas redes de ensino, parecia estabilizar-me nas redes de Rio das Ostras e Macaé. Parecia... Porque com os desmandos do coronelismo riostrense e os 20 tempos semanais cumpridos em dois dias, rodando de bicicleta de uma escola para outra, me forjaram a decisão de me inscrever para aquele que demorara, mas chegara: o concurso para a Prefeitura do Rio. Inscrevi-me para a 3ª CRE para poder trabalhar perto de casa. Veio o concurso e obtive a melhor nota para a referida região, passando em quarto lugar após as provas de títulos e os critérios de desempate. A convocação não demorara e já estava decidido a trocar as 25h semanais de Rio das Ostras pelas 16h semanais na rede do Rio de Janeiro. No dia da escolha da lotação, poucas opções, mas não demorei para optar pela Escola Municipal Ministro Orosimbo Nonato, situada no bairro cujo nome associam ao seu homônimo paulista - Higienópolis. 



Desde outubro de 2010, esta instituição foi uma de minhas casas, principalmente às segundas e terças, trabalhando a cada ano com seis turmas do Ensino Fundamental, usando as salas, os pátios, o auditório, a quadra, a área externa, buscando desenvolver atividades que integrassem os estudantes e diversificassem os conteúdos da Educação Física. Não sei se fui sempre exitoso, mas buscando reviver alguns momentos marcantes tenho certeza de que me esforcei para estabelecer boas relações profissionais, pedagógicas e emocionais com os colegas de trabalho e com os estudantes. 

O cotidiano cruel imposto por uma política pública de Educação meritocrática e elitista dificulta bastante a construção de uma Educação digna para os filhos da classe trabalhadora. As salas pequenas e superlotadas, a pressão para garantir a aprovação maciça, a ausência de apoios de psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais para os estudantes, dentre outras questões, são empecilhos claros para o desenvolvimento pleno de nossas crianças. Contudo, com todas as dificuldades, aos trancos e barrancos, somos desafiados a garantir um trabalho de qualidade.



Em 2011, tive a felicidade de conseguir as gratuidades para subirmos ao Morro do Pão de Açúcar, uma atividade externa que até hoje me recordo: os sorrisos e as brincadeiras, a vivência de aprender conhecimentos fora dos muros da escola, a cantoria no trajeto e o sensacional comportamento dos adolescentes naquela agradável tarde. Naquele mesmo ano, uma das turmas me pregou uma verdadeira pegadinha: só um desce para a aula na quadra; quando chega o segundo, diz que há uma briga física na sala de aula justamente no dia em que o inspetor não estava. Subo os lances de escada pulando de três em três degraus e chego à sala ao som de "Parabéns pra você!", com bolo, salgadinho, docinho e refrigerante. Como é gostoso receber essa sensação de carinho, de afeto, de admiração, por parte desses jovens! 

E foi por causa de alguns deles que usávamos do nosso tempo de almoço para treinar, pegávamos carros emprestados e nos desdobrávamos para sair com grupos de crianças e adolescentes, para outros bairros e participar dos Jogos Estudantis. Infelizmente, a relação de apoio por parte da Prefeitura é inversamente proporcional à alegria da participação nos torneios, mesmo nas situações de derrotas. Foi uma agradabilíssima experiência levar os estudantes da Orosimbo para disputar torneios de futsal e basquetebol, inclusive levando a Escola ao sexto lugar geral da 3ª CRE em 2013.






Falo sobre as flores, mas é preciso denunciar os espinhos! Apesar de ter me ouvido e dialogado até pessoalmente, a Secretária Claudia Costin, com quem discuti asperamente nas redes sociais em 2011, cumpriu um desserviço à Educação Pública. Por isso, aderi a todas as paralisações aprovadas pela categoria desde que entrei na rede!

Eduardo Paes, Adilson Pires, Claudia Costin, Helena Bomeny, Pedro Paulo, Paulo Figueiredo, vereadores representantes dos dominantes e demais asseclas: NÃO PASSARÃO! 2013 foi o ano em que mais me senti efetivamente em uma rede de Educação. Foi o ano em que vesti com orgulho a camisa preta informando à sociedade que fiz parte daquela história. Foi o ano em que colocamos cem mil nas ruas para defender os trabalhadores da Educação após a truculenta ação dos governantes e da Polícia Militar, que sitiou a Câmara de Vereadores para nos bombardear física e moralmente. Foi o ano em que a categoria ousou sonhar, ousou conquistar, ousou ir às ruas e enfrentar um governo tirano e uma secretaria meritocrática. Foi o ano em que não precisávamos abaixar as cabeças, pois tínhamos companheiros ao nosso lado para nos proteger a qualquer momento. Apesar dos pesares, essa energia de luta é incapaz de perecer. Tenho certeza de que devemos e podemos resgatar a chama de luta para a rede, nos juntando aos demais trabalhadores da Educação de outras redes e à sociedade como um todo, para buscar novos horizontes para a Cidade Maravilhosa.






Neste dia 6 de outubro, poderia até considerar meu pedido de exoneração como a carta de alforria por em breve não mais pertencer como professor I - Educação Física ao quadro de servidores municipais do Rio de Janeiro. Todavia, meus laços não serão rompidos, pois a vivência com os colegas lutadores e a alegria de ter deixado alguma marca nas mentes e corações de centenas de crianças e jovens que passaram pelas minhas turmas nesses quase quatro anos me deixarão com saudades e pronto a ajudar com o máximo das forças, a defender com unhas e dentes, as lutas que precisamos travar em defesa da Escola Pública. 

Aos colegas, aos estudantes, pais e responsáveis da Escola Municipal Ministro Orosimbo Nonato, aos ativistas da rede municipal, aos companheiros do Movimento Sindicalismo Militante, obrigado por compartilharem comigo o conjunto desses momentos vividos ao longo dos últimos quatro anos. 

Saudações pedagógicas, Gabriel Marques.

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