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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Feliz Dia d@ Professor@

No dia 15 de outubro de 2009, inaugurei este blog para também servir como um espaço de reflexão e socialização de práticas pedagógicas, que preferencialmente caminhem para uma relação entre docentes e estudantes para além do trivial. Hoje, ele completa cinco anos de existência e decidi selecionar algumas imagens desta minha aparentemente curta trajetória como professor de Educação Física de diversas redes públicas. Saudosismos à parte, é muito bacana relembrar nomes, situações, festas, atividades fora da escola, perguntas engraçadas, abraços afetivos, esporros e perceber que a maioria dos estudantes para quem tive a honra de lecionar hoje estão crescid@s e se transformaram em homens e mulheres com potencial para fazer a diferença. 

Após passar como docente pelo Colégio de Aplicação da UFRJ (2008); Colégio Estadual Professor Ubiratan Reis Barbosa (2009/2010) em Nilópolis; Escola Municipal Edilson Vignoli Marins (2009/2010) em Saquarema; Escola Municipal Carlos Magno Legentil de Mattos (2010) em Maricá; Escola Municipal Vereador Pedro Moreira dos Santos e Escola Municipal Maria Teixeira de Paula (2010) em Rio das Ostras; Colégio Municipal Botafogo (2010-2014) em Macaé; Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (2013) na FIOCRUZ; e Escola Municipal Ministro Orosimbo Nonato (2010-2014) na rede do Rio de Janeiro, tenho certeza de que a trajetória possui falhas e sucessos, erros e acertos. Mas vale ressaltar que dedicação e interesse por um melhor futuro para esses estudantes sempre estiveram lado a lado com o planejamento e a intervenção de cada uma das aulas, trabalhando com os conhecimentos da cultura corporal e tentando, apesar de todas as limitações de materiais, de falta de espaço e em alguns casos de apoio institucional, oferecer uma Educação Física diversificada e participar de eventos fora do ambiente escolar e de torneios e campeonatos.

Exatamente neste ano de 2014, rumo para um desafio maior, atuando desde o dia 7 de outubro como professor da Educação Básica, Técnica e Tecnológica no campus Quissamã do Instituto Federal Fluminense e espero que a experiência anterior propicie uma atuação pedagógica cada vez mais consolidada, oferecendo práticas corporais com sentidos e significados positivos para os estudantes. E que, com a abertura do curso de Licenciatura em Educação Física no IFF, eu também possa ajudar a formar futur@s professor@s da nossa área. 

Como não poderia deixar de citar, que nossa categoria caminhe para uma unificação maior, defendendo a Educação Pública e lutando efetivamente para que conquistemos a valorização e a respeitabilidade que merecemos. E isto só conseguiremos garantir com muita mobilização, por meio da ação organizada a partir dos Sindicatos que nos representam, enfrentando patrões e governantes e realizando na práxis o nosso discurso de transformação, demonstrando aos discentes que apenas a Luta muda a Vida! Para mim, para meu pai, minha irmã, minha namorada e demais parentes professor@s, para meus e minhas ex-professor@s e para tod@s meus e minhas colegas da Educação em todo o país, um FELIZ DI@ D@ PROFESSOR@!

Saudações pedagógicas, 
Gabriel Marques.

Estudantes do CAp-UFRJ e Licenciandos da UFRJ (2008)

Turma do 1º ano do Ensino Médio do C. E. Professor Ubiratan Reis Barbosa (2009)

Caminhada até o Morro da Urca com estudantes do 3º ano do Ensino Médio do C. E. P. U. R. B. (2009)

Jogos Cooperativos na turma de 8º ano do Ensino Fundamental da E. M. Edilson Vignoli Marins (2009)

Jogos Cooperativos na turma de 9º ano na E. M. Vereador Pedro Moreira dos Santos (2010)

Turma de 6º ano do Ensino Fundamental da E. M. Vereador Pedro Moreira dos Santos (2010)

Jogos Cooperativos na turma de 9º ano na E. M. Vereador Pedro Moreira dos Santos (2010)

Formatura da turma do 5º ano do Ensino Fundamental do Colégio de Aplicação da UFRJ (2008)

Ida ao Morro do Pão de Açúcar com o C. M. Botafogo (2011)

Festa surpresa no meu aniversário organizada pelos estudantes da E. M. Ministro Orosimbo Nonato (2011)

Festa surpresa no meu aniversário organizada pelos estudantes da E. M. Ministro Orosimbo Nonato (2011)

Visita ao Maracanã com os estudantes do C. M. Botafogo (2011)

Gabriel dos Santos medalhista de ouro no lançamento de disco dos JEEM de Macaé (2011)

Visita guiada ao Morro do Pão de Açúcar com os estudantes da E. M. Ministro Orosimbo Nonato (2011)

Aula de Esportes Radicais com a turma do 7º ano do Ensino Fundamental da E. M. Vereador Pedro Moreira dos Santos (2010)

Apresentação de Jogos Populares de um dos grupos do 8º ano do Ensino Fundamental da E, M. Maria Teixeira de Paula (2010)

Aulão de Forró na E. M. Ministro Orosimbo Nonato durante Festa da Primavera Folclórica (2011)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

22 anos em 37 minutos: eu vou andar de trem... Você também...?

No dia em que completei 22 anos, escrevi o texto abaixo. Como o blog Além do Trivial foi criado em 2009, vou postar alguns textos publicados antes deste espaço virtual existir. O texto é de 30 de maio de 2007, quando eu caminhava para finalizar a Licenciatura em Educação Física na UFRJ. Perdi a minha vaga em Nova Iguaçu; a passagem de trem custava já absurdos R$2,00; o Engenhão está construído... E eu ainda prossigo organizado no COLETIVO MARXISTA visando à construção de uma nova sociedade!


22 anos em 37 minutos
Eu vou andar de trem... Você também...?*

22 era o número de anos que completava na última quarta-feira dia 30 de maio.  Mas 37 foram os minutos que levei sobre os trilhos do Engenho de Dentro até Nova Iguaçu, município onde em breve estarei lecionando Educação Física.  Além de estar comemorando meu aniversário, estava ansioso para resolver as pendências de minha convocação após aprovação no concurso público.

            Apesar de pouco mais de meia hora, esse período fez-me refletir e entender que esse foi um dos aniversários mais interessantes e instigantes de minha vida.  Na estação do Engenho de Dentro, pude “apreciar” as obras sendo feitas às pressas, passarelas sendo montadas, paredes sendo pintadas, guindastes sendo erguidos para que o famoso “Engenhão” fique pronto para os “nossos” Jogos Pan-Americanos.  O nome do estádio? Será João Havelange! Quem o construiu? Centenas de trabalhadores, que não estarão dentro do espaço que construíram durante as festividades e os jogos, pois, além de estarem realizando o trabalho pesado enquanto outros compravam seus ingressos pela internet, dificilmente poderiam usar o suado dinheiro de seu sustento para tal fim.

            Já não faltava pagar a passagem, mas veio o velho trem! E velho mesmo, bem cacareco, apesar dos R$2 que nos cobraram.  Nos 8 vagões, para cada pessoa sentada, havia 2 ou 3 em pé, que também pagaram passagem.  Nesse trem obsoleto, fiquei imaginando quando a SuperVia lucrava às nossas custas duas vezes: através dos impostos revertidos em obras e novos trens (e nós no velho trem...) pagos pelo Governo do Estado do RJ e da passagem que acabamos de pagar.  Parte desse dinheiro é usada para a contratação de capitães do mato, seguranças que expulsam, expropriam, ameaçam e até violentam os que chamarei de mercadores ambulantes.

            O trem caminha... E lá vêm: BANANADA 10 CENTAVOS! 3 AMENDOINS POR 1 REAL! Cotonetes, balas, utensílios domésticos etc. eram vendidos nos diversos vagões! Até os piratas Piratas do Caribe 3 me foram oferecidos! Como o brasileiro é criativo; esse é o povo do futuro.  E tentam nos vender essa idéia, pois nós nos viramos diante das dificuldades.  Esses mercadores ambulantes não entram para as estatísticas do desemprego.  Silêncio!!!!! Próxima estação.  E de vagões eles trocam, prestando atenção e escondendo suas especiarias para que os capitães do mato não realizem a sua repressão.

            Ouço uma música se aproximando, sons advindos de um belo acordeão.  Que agradável e bacana – ingenuamente pensei: os R$2 me reservam o direito de ouvir música!  Um senhor idoso e cego se equilibrava com o trem em movimento tocando o acordeão, solicitando humildemente alguns trocados e invocando a bênção de Deus para quem o ajudasse.  Será que esse Deus de quem falamos nos deixaria chegar à situação calamitosa em que nos encontramos?  Ao mesmo tempo, vejo nos olhos de um pai o amor fluindo, se segurando com uma das mãos e com a outra protegendo o filho de aproximadamente 5 anos de idade, que, de tanto insistir, ganhou um pé-de-moleque.

            Decidi olhar um pouco para fora do trem e me distrair com a paisagem.  Distração?  Boa ou má, deixo que opinem acerca de minha opção: casas, casebres e barracos construídos a poucos metros da linha do trem e junto a um rio que se transformou em puro esgoto!  Não, não tinham peidado no vagão; o cheiro horrível vinha do lado de fora.  Crianças brincavam com as pedrinhas dos trilhos e em ambientes asquerosos e adultos conseguiram ocupar alguns terrenos para criar um lar(?), uma moradia para não ficarem pelas ruas, avenidas ou embaixo de pontes.

            Uma lágrima escorreu.  O trem parou e estava na estação onde devia descer.  Percebi meus 22 anos passarem durante esses 37 minutos e consegui não apenas me solidarizar, mas me identificar na pele dos operários do “Engenhão”, do senhor cego que tocava acordeão, do pai com um brilho nos olhos e o amor lançado ao filho, das dezenas de mercadores ambulantes que conseguem seu mísero sustento vagando de trem em trem durante horas de seus dias, das crianças que brincavam próximas aos trilhos e ao horrível cheiro de esgoto...  

            Nesses 22 anos, pude ratificar o sentido que quero dar à minha vida, que não é individual, mas social.  Eu quero estar ao lado dos que sofrem, das vítimas da fome e da miséria, dos que são oprimidos e explorados, assim como eu e a maior parte de vocês.  É uma escolha de vida, um projeto de sociedade, pois é com essas pessoas que unirei forças para reverter essa situação e modificar os rumos dos trilhos.  É no trem da contramão que eu quero andar.  Vem no vagão comigo?

*Gabriel Rodrigues Daumas Marques
Estudante de Educação Física

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

João Vitor Jabulani e a busca por uma nova Educação Física



Há muito tempo não atualizava o blog. Estava preparando um outro texto quando deparei-me no facebook com o vídeo acima. Durante a reportagem, João Vitor, de 11 anos, se emociona e lacrimeja ao comentar sobre seu professor de Educação Física. 

Desde 2008, leciono em escolas a disciplina referida, passando por turmas do 1º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio. Certamente situações constrangedoras como a relatada por João Vitor podem aparecer em nosso cotidiano e, mesmo com as limitações de nossa formação arcaica e tradicional, por carregar ainda traços marcantes do desportivismo, do militarismo e do higienismo, é necessário que nos desdobremos para enfrentar e superar da melhor maneira possível as diferenças existentes entre nossos alunos, sejam elas físicas, psicológicas, de gênero, de etnia, de orientação sexual etc.

Como docentes, devemos respeitar os estudantes acima de tudo, pois são eles o alvo, a interlocução, o começo e o fim de nossas ações político-pedagógicas!

Sou contrário ao "purismo" do humor. Apelidos podem também servir como estímulos para mudanças e/ou serem designados como forma descontraída/respeitosa de lidar com outro ser humano. Todavia, algo precede a escolha do apelido: o contexto e a forma como ele aparece, ou seja, qual o sentido que ele pretende expressar! Tanto que há um abismo de diferença entre o carinhoso "Jabulani" dado pelo professor para quem ele pega as bolinhas, que o próprio João Vitor entende como uma brincadeira e a prática docente do professor de Educação Física de sua escola, odiado por "desprezar os outros", pois "só quer saber de fazer com as pessoas magras, que sabem correr, que sabem brincar"!

Durante esses quatro anos de docência, atuando com a Educação Física em diversas escolas de diferentes municípios, sempre sofri inicialmente uma resistência grande por parte dos estudantes por apresentar uma perspectiva e uma concepção diferentes da disciplina. Entretanto, apesar das dificuldades de falta de materiais e turmas superlotadas, ao longo dos bimestres, esta concepção que não desrespeita; que não aprisiona o correr e o brincar, pois são práticas que não devem possuir um certo e um errado; que identifica as diferenças e as semelhanças entre os seres humanos como diversidades necessárias; que não dignifica 'vencedores' e humilha 'derrotados'; e principalmente que aponta para um novo modelo de sociedade e um novo ser humano... Paulatinamente ganha corpo e se apresenta como uma alternativa que não forme outros estudantes frustrados, injustiçados e humilhados como o querido João Vitor "Jabulani"!

Certamente esta busca por uma nova Educação Física só terá condições de cessar quando alcançarmos conjuntamente uma nova organização enquanto seres humanos, que possuam os mesmos direitos e os mesmos deveres, que não passem fome, que tenham um teto e que possam ter acesso à Educação e à Saúde dignas! Enquanto permanecermos nesse Estado desigual, a OPRESSÃO gerará OPRESSÃO e casos como  o deste menino de 11 anos - que não deveria inclusive precisar trabalhar pegando bolinhas mas sim ser um dos participantes das aulas de tênis - multiplicar-se-ão e na maioria das vezes ficaremos sem saber, pois só nos "alarmamos" quando aparece nos jornais e telejornais!

Fiquei contagiado com a emoção do estudante! De certa maneira, até aliviado pelas 'reclamações' de meus alunos serem "você dá pouco futebol", "por que esse tempo todo pra discutir e conversar!? Física é pra jogar bola" etc. Temos assim a dimensão de como nossa prática profissional pode marcar - positiva ou negativamente - a vida das crianças. E é preciso lutarmos pelas boas condições de trabalho para oferecer o melhor ensino possível, a mais ampla Educação! Avante, pois temos muito trabalho pela frente!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Educação não é negócio nem Educação Física celeiro de atletas!*


Para esta segunda-feira 7 de fevereiro estava marcada a abertura da Semana de Capacitação no município do Rio de Janeiro para o corpo docente da rede. O professorado de Educação Física1 teria especificamente palestras realizadas pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) abordando temas como os valores olímpicos. Diretora cultural do COB, Christiane Paquelet falaria sobre um suposto “legado cultural dos Jogos Olímpicos para a educação na cidade do Rio de Janeiro” enquanto o presidente da Academia Olímpica Brasileira (??????!!!!!), Jorge Steinhilber palestraria sobre “a importância da Educação Física para o desenvolvimento integral do aluno”. O local escolhido para receber o professorado foi a Universidade Livre do Circo (UniCirco), na Quinta da Boa Vista.
            Pelo twitter2, tomei a liberdade de me manifestar quanto às concepções de Educação Física e de Educação como um todo materializadas pela gestão de Eduardo Paes/Claudia Costin. Com o objetivo de “rir para não chorar”, os traços de humor encontravam-se presentes nos 140 caracteres de cada publicação. Eis as duas primeiras:

            Prefeitura do Rio convoca p/ hj tds os profs. de Ed. Física p/ palestras no circo! Pior que devem achar que os palhaços estão na plateia...
            Minha participação daqui a pouco será: vaia p/ Eduardo Paes, vaia p/ @ClaudiaCostin e vaia para a múmia do Jorge Steinhilber! #ForaTODOS

            Como professor, estimo o uso de elementos do Circo compondo a diversidade da cultura corporal bem como respeito e admiro o trabalho artístico e criativo dos profissionais circenses. O uso de “palhaços na platéia” refere-se às condições salariais e de trabalho fornecidas nas escolas públicas de nossa cidade e tenho certeza de que não podemos ser marionetes para aplaudir e elogiar os atuais rumos da Educação Pública em nosso município. Portanto, vaiaria o prefeito, a secretária e o presidente do Conselho Federal de Educação Física, um dos principais responsáveis pela filiação compulsória ao sistema CONFEF/CREFs para podermos tomar posse após sermos aprovados em concursos públicos3!
            Adepta frequente do twitter, a secretária Claudia Costin sempre publica os elogios a ela direcionados e em outros momentos não respondeu a perguntas que fiz. Para minha surpresa, ela me citou com a seguinte resposta:

            “@grdmarques Sim, pela 1ª vez teremos capacitação para professores de Educ Física.

            Discordando dela, retruquei:
            Ouvir vcs e Steinhilber ñ é capacitação, é ALIENAÇÃO!
            Hora de ir pro circo, mas preferia ver palhaços, mágicos, malabaristas... Em vez de ouvir Eduardo Paes, @ClaudiaCostin e Jorge Steinhilber!

            Já estava no ônibus rumo à Quinta da Boa Vista quando recebo um telefonema da direção da escola onde leciono, perguntando se tinha sido eu o responsável por publicar tais postagens. Ou seja, procuraram meu nome, onde trabalho, quando entrei no município, percebendo inclusive que estou na situação de ESTÁGIO PROBATÓRIO! Como se pudéssemos escolher, a Secretária de Educação me responde:

            “@grdmarques A capacitação será ao longo da semana. Mas, se preferir não ir, não o faça.”

            Enfim, o evento não ocorreu por conta do excessivo calor das 15h num picadeiro fechado sem qualquer sistema de refrigeração. A maioria dos presentes estava totalmente descontente com a tal “capacitação” e sobraram vaias até para o apresentador e dono da UniCirco Marcos Frota. Após um leve pisão no meu pé, a Secretária, caminhando e conversando de grupo a grupo de professores, nos dirigiu a palavra pedindo desculpas e informando que sua intenção era a melhor possível para reunir os professores de Educação Física todos juntos principalmente nesse ano olímpico e informando que se quiséssemos poderíamos ir embora.

            Publicizo o relato acima pois não podem nos calar. Temos a liberdade de nos expressar e apontar os equívocos, os retrocessos e os problemas que se multiplicam pela lógica que toma conta da Educação Pública em nosso município! Não tolerarei quaisquer relações entre a minha situação de estágio probatório e a minha liberdade de criticar e me organizar para a defesa da Educação Pública e de melhores condições para os profissionais da Educação. Se a Secretária de Educação pede “respeito dos educadores” após ser vaiada, nós exigimos: NÃO TRATE A EDUCAÇÃO COMO NEGÓCIO NEM A EDUCAÇÃO FÍSICA COMO CELEIRO DE ATLETAS!
            Pra não dizer que não falei das flores... O lanchinho preparado pra gente estava muito bom!
E viva o Circo!
           

2) Funcionando como um microblog, o twitter tem sido uma ferramenta virtual importante para diálogos, informes e também manifestações políticas de descontentamento. Algumas destas, denominadas “twittaço”, usam expressões para que apareçam nos “Trending Topics”, tópicos mais citados, de uma cidade, um país ou do mundo.
3) Nos editais de concursos públicos, tem sido absurdamente exigida a filiação dos professores ao Conselho Federal de Educação Física e respectivo Conselho Regional de Educação Física, tendo o professor que pagar anualmente uma taxa, situação que acontece apenas com nossa disciplina.

*Gabriel Marques
Professor de Educação Física

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

VI Pelada da Esquerda




Na última quinta-feira, 23 de dezembro, ocorreu a VI Edição da Pelada da Esquerda, o maior evento esportivo do semestre. Historicamente, o evento reúne a constelação de professores e estudantes de Educação Física da Cidade Maravilhosa e demais municípios “adjacentes”, como Niterói, São Gonçalo, Duque de Caxias e Juiz de Fora, além do longínquo bairro de Santa Cruz.
Apesar de sua abertura para demais áreas de conhecimento, como História e Geografia, o professorado e a estudantada de fora da Educação Física, temendo o vigor físico, a sutil categoria e a refinada habilidade apresentadas nas edições anteriores, desfalcaram a sexta edição. Milhares de torcedores ficaram envergonhados de acompanhar evento de tamanha importância de maneira gratuita e preferiram ficar em suas casas assistindo pelo sistema de pay per view, gerador de royalties para a administração do evento, financiadora das críticas e enfrentamentos à ordem vigente.
Pela primeira vez acompanhando o evento, o jornalista Karl Leirbag avaliou a atuação de cada um dos vinte e quatro jogadores, destacando os aspectos positivos e negativos e lançando sua nota. Vale destacar o respeito e a admiração dos trabalhadores aeroviários, que optaram por adiar sua justíssima greve para garantir que o revolucionário alemão acompanhasse, durante a agradável manhã de quinta, as duas horas de partida no campo do Abaeté, no bairro de Vila Isabel.
Karl Leirbag ficou bastante satisfeito em acompanhar a Pelada da Esquerda, solicitou um espaço aqui no blog para expor suas avaliações e apontou seu desejo em participar da sétima edição deste requisitado evento esportivo. Além disso, afirmou não querer substituir ninguém e prometeu buscar contato para realizar uma dobradinha com o cubano judeu Breno Strozemberg, cujas especulações apontam para a possibilidade de desaparecimento político e/ou alguma enfermidade.

Bruno Gawryszewski: fora dos gramados, precisa de maior auto-confiança como a vanguarda da Pelada de Esquerda, apesar da necessidade de maior assessoria para a organicidade do evento, principalmente no quesito das finanças. Com a região patelar visivelmente debilitada por conta do excesso de patoladas, seu rendimento esteve comprometido, saindo sem deixar sua marca de oportunista. Nota 5.

Murilo Vilaça: com o faro de artilheiro limitado e poupando-se para o Jogo das Estrelas no Engenhão, deixou com estilo um gol, obviamente em condições adiantadas – na popularmente conhecida banheira – tirando com classe as chances de defesa do goleiro Marcelo Melo. Nota 5,5.

Gabriel: na primeira partida, dois incríveis chutes, um para defesa do goleiro e outro golaço de fora da área, no cantinho, garantindo a primeira vitória da equipe. Após esse jogo, nenhuma finalização na direção do gol. Todavia, as assistências açucaradas e sua visão de jogo garantiram o entrosamento e as finalizações para gol de seus companheiros, que, com cinco vitórias, foi a maior vencedora da VI Pelada. Nota 9,5.

Ian Fino: com as desculpas esfarrapadas do deslocamento em peladas anteriores, ora por conta da ausência ora do atraso, dessa vez, mesmo motorizado, foi um dos últimos a chegar. Deveria estar ocupado com o aquecimento antes do jogo, fazendo jus ao apelido. Nitidamente precisa de uma sequência de jogos para emplacar o seu bom futebol. Nota 5.

Marcelo Forró: seu estilo mineirinho não impediu que aparecesse demasiadamente ao ser driblado pelo alcoolizado protagonista do drible elástico. Nota 4,5.

Marcelo Melo: o alto teor alcoólico, devido aos destilados ingeridos durante a festa de sua sobrinha em noite anterior comprometeram seu reflexo apurado como goleiro, perdendo o posto de melhor goleiro da esquerda do Brasil. Na linha, incorporou Roberto Rivelino ao aplicar um fantástico elástico pra cima de seu xará do forró. Perdeu pontos por não levar sua sobrinha de 15 anos para o evento. A propósito, felizmente não foi sorteado para o exame anti-doping. Nota 6.

Marcelo Pagodinho: a idade começa a pesar no desempenho. No jogo, apareceu pouco; deveria estar preocupado com os preparativos para a presença de Exalta Samba no show do Rei em Copacabana. Nota 5.

Estevão: o elemento-surpresa da Pelada. Artilheiro da edição, com aproximadamente cinco gols. Com suas artimanhas espírito-revolucionárias, incorporou os fluidos de Bebeto na Copa de 1994 na torcida para o primogênito que há de vir. Nota 7,5.

Vinícius Conca: animado pela conquista do tricampeonato brasileiro pelo tricolor carioca, lançou-se à linha e não teve seu destaque como goleiro. Tentou jogadas, arrancadas e dribles ao estilo do baixinho argentino, todas sem sucesso, deixando claro que deve dar mais valor à carreira musical, talvez no coral da terra de macaba doce. Nota 4,5.

Magrinho do Fonca: sem suas granadas de homenagens ao 15 de outubro, sucumbiu diante da força revolucionária dos docentes em campo, ratificando que até no futebol a PM é a vergonha do Brasil. Parecia muito preocupado também, talvez recordando um dos términos de namoro anos atrás... Nota 3,5.

Renato Sarti: ocupado como vice-coordenador e novo tumultuador de Congregações, suas esvoaçantes bicicletas se destacaram em diversos momentos. Bastante disposto, foi um elemento importante para garantir a sequência de bons jogos de sua equipe, fechando bem a retaguarda e avançando em alguns momentos. Nota 7.

Bruno Rodolfo: sua promessa de carrinhos não intimidou os demais participantes. Participação decisiva em boas jogadas da equipe mais entrosada. Desencantou com oportunismo depois de perfeita assistência de Gabriel. Com uma dieta baseada em carnes de peixe, porco e boi, pode melhorar seu desempenho. Nota 6,5.

Marretovski: novamente presente no maior evento esportivo do semestre, deixou seu golzinho pra história. Nota 6.

Gustavo: a correria são-gonçalense de sempre somada à disposição historicamente construída nas longínquas várzeas de Columbandê. Popularmente conhecido como Braço, armou diversas jogadas de contra-ataque, mas faltava olhar menos para a bola e mais para o restante do campo para ser mais eficaz. Nota 6,5.

Leonardo: inaugurou a isenção para a história do evento. Com seus reluzentes meiões, mais parecia o personagem Kiko, do “Chaves”, no gol. Ao ganhar ritmo de jogo, o goleiro, folcloricamente conhecido como Panda, oscilou golpes de vista mesmo sendo míope, com defesas inacreditáveis. Numa das partidas, impossibilitou o gol adversário com defesas miraculosas, forjando a animação da torcida, que quase subiu o alambrado do campo. Provisoriamente garantiu o posto de melhor goleiro da esquerda do Brasil. Nota 8,5.

Luiz Carlos: sofrendo da síndrome neymariana e com algumas rabanadas acima do peso, esteve totalmente vedete, com uma atuação incrivelmente abaixo do esperado. O único a ser vaiado pela coerente e animada torcida. René Simões explicitou: “estamos criando um Monstro na Pelada da Esquerda!” Nota 2.

Bruno Patrício: reviveu a dupla Gardenal com a presença de Formoso no jogo. A fim de honrar seu nobre sobrenome, os recentes investimentos à indústria do tabaco como fiel consumidor deixaram-no esgotado. Nota 4.

Dari: definitivamente incorporado à Pelada, sente-se cada vez mais à vontade, arriscando boas jogadas. Nota 6.

Juliano: adotando o “estilo Murilo”, posicionou-se na banheira durante boa parte do tempo, mas foi solenemente esquecido pelos companheiros, com pouca visão de jogo. Quando acertou belo cabeceio, tirando do melhor goleiro, a zaga salvou em cima da linha. Nota 5.

Felipe Formoso: vivenciou sua estréia no maior evento esportivo do semestre. Fez boas tabelinhas com o companheiro de período Bruninho. Foi embora antes da foto oficial para não sofrer a revanche do trote aplicado ao Gabriel em 2003. Nota 5.

Marcello Bernardo: conseguiu uma folga para prestigiar o evento. Apareceu muito mais como vendedor de agendas 2011 do que atuando nas partidas. Nota 5.

Bruno Adriano: destacou-se novamente pela lábia polêmica. Apesar das reclamações alegando serem burocráticas as corretíssimas propostas de organização da pelada, em campo, apresentou futebol notadamente burocrático. Nota 3,5.

Cláudio “O Xeroqueiro”: O Motoqueiro Fantasma merece uma nota alta por ter se libertado das amarras de sua pequena empresa de grandes negócios no bairro mais Glorioso da Cidade Maravilhosa para participar da Pelada de Esquerda. Esquivou-se de seu destacado passado como arqueiro para arriscar jogadas na linha, desempenhando uma ótima função na defesa e se tornando o zagueiro-revelação. Infelizmente, saiu contundido. Nota 8.

Alex: apesar do estilo fanfarrão e faladeiro, foi peça importante para armar atabalhoadas jogadas de contra-ataque junto ao companheiro Braço. Nem balançou as redes com estilo. Todavia, a camisa pesou por jogar ao lado de seu irmão. Nota 6.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

XIII Encontro Fluminense de Educação Física Escolar - ENFEFE

Entre os dias 25 e 27 de novembro, ocorrerá a XIII edição do Encontro Fluminense de Educação Física Escolar, no campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense, em Niterói-RJ. O evento discute importantes temáticas relacionadas à Educação Física enquanto componente curricular da Educação Básica.

Tive a oportunidade de participar das edições de 2005, 2006 e 2008 e considero o espaço como um dos mais importantes eventos nacionais que discutem a Educação Física a partir de sua concepção pedagógica.

Após sua última edição, em 2008, o ENFEFE passou a ter sua periodicidade bienal.
Realizado pelo Instituto de Educação Física, o evento é gratuito e de bastante qualidade. Em 2010, o tema será "Orientações Curriculares do Ensino da Educação Física Escolar na Educação Básica".

As regras para envio de trabalhos, sob os formatos de Comunicação Oral ou Pôster, já estão disponíveis na página do evento. O prazo limite é 17 de outubro. Uma novidade esse ano é a inclusão de mais um espaço de diálogo e troca de experiências: as oficinas.

As inscrições serão feitas pela própria página e há limite para 600 inscritos(as). Mesmo que não consiga se inscrever, vale a pena aparecer em Niterói, curtir a bela paisagem do campus e participar dos espaços que podem contribuir para nossa formação enquanto educadores(as).

Confira as informações no seguinte endereço: http://www.enfefes.uff.br/

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

1 de setembro - NÃO COMEMORO!

Nessa quarta-feira, 1 de setembro, não havia muito o quê comemorar, pois, enquanto profissional da Educação – professor de Educação Física – entendo essa data como a que marca a efetivação de um processo de privatização da cultura corporal, de tentativa de reserva de mercado e uma tática para jogar trabalhadores contra outros trabalhadores em vez de defendermos a regulamentação do Trabalho.

Explicito essa posição porque considero que há excelentes profissionais no Futebol e nas demais modalidades Esportivas, na Capoeira, na Yoga, no Karatê, na Dança e em outras diversas manifestações corporais que possuem plenas capacidade e experiência para lidar com essas atividades. Há 12 anos, sob o governo neoliberal de FHC/PSDB, foi aprovada a regulamentação da profissão de Educação Física, com míseros 6 artigos, que inclusive tem forçado por meio de acordos políticos com prefeituras e governos estaduais o professorado do campo escolar a pagar anuidades compulsoriamente(1).

            O vendido da vez foi um branco travestido de negro, sempre ao lado dos dominantes. Um quadro como jogador de futebol e exemplo como atleta – o Pelé – mas um burguês como ex-jogador, ex-ministro, empresário e principalmente garoto-propaganda(2) – o Edson Arantes do Nascimento.

            O profissional de Educação Física é uma invenção do sistema CONFEF/CREFs, sistema esse totalmente explorador e autoritário, que precisa ser derrubado.

            Meu dia é 15 de Outubro. Sou Professor... E de Educação Física!

Gabriel Marques
Professor de Educação Física das redes municipais de Rio das Ostras e Macaé;
Ex-militante do Movimento Estudantil de Educação Física (2003-2007);
Ex-coordenador do Movimento Nacional Contra a Regulamentação do Profissional de Educação Física;
e forçado a se registrar no CONFEF/CREFs.


(1) Lei 9696/98, de 1 de setembro de 1998.

(2) Até propaganda para a Aracruz Celulose já foi feita. Em 2010, a farsa abaixo:

Vale a pena conferir:

NOZAKI, Hajime Takeuchi. Educação Física e reordenamento no mundo do trabalho: mediações da regulamentação da profissão. 2004. 399 f. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2004. Disponível em http://www.boletimef.org/biblioteca/768/Educacao-Fisica-e-reordenamento-no-mundo-do-trabalho-mediacoes-da-regulamentacao-da-profissao

PENNA, Adriana Machado. Sistema CONFEF/CREFS: a expressão do projeto dominante de formação humana na Educação Física. 2006. 170 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2006. Disponível em http://www.boletimef.org/biblioteca/1469/Sistema-CONFEF-CREFS-a-expressao-do-projeto-dominante-de-formacao-humana-na-Educacao-Fisica

GAWRYSZEWSKI, Bruno. CONFEF: organizador da mercantilização do campo da Educação Física. 2008. 223 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008. Disponível em http://www.boletimef.org/biblioteca/1739/CONFEF-organizador-da-mercantilizacao-do-campo-da-Educacao-Fisica

NASCIMENTO, Ian Anderson de Andrade. Sistema CONFEF/CREFs: difusão da empregabilidade e adequação dos profissionais de educação física ao precário mundo do trabalho. 2007. 68 f. Monografia (Licenciado em Educação Física) - Escola de Educação Física e Desportos, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007. Disponível em http://www.boletimef.org/biblioteca/1643/CONFEF-CREFs-adequacao-dos-profissionais-de-educacao-fisica-ao-precario-mundo-do-trabalho

GAWRYSZEWSKI, Bruno; MARQUES, Gabriel Rodrigues Daumas. Ataques e contra-ataques: um histórico das batalhas jurídicas contra o sistema CONFEF/CREFs. In: CONGRESSO NACIONAL DE HISTÓRIA DO ESPORTE, LAZER, EDUCAÇÃO FÍSICA E DANÇA E CONGRESO LATINOAMERICANO DE HISTÓRIA DE LA EDUCACIÓN FÍSICA, 10., 2., 2006, Curitiba. Balanços e perspectivas da pesquisa histórica na Educação Física latinoamericana. Anais... Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2006. Disponível em http://www.boletimef.org/biblioteca/1296/Ataques-e-contra-ataques-um-historico-das-batalhas-juridicas-contra-o-sistema-CONFEF-CREFs  

GAWRYSZEWSKI, Bruno; MARQUES, Gabriel Rodrigues Daumas. Sobre moluscos e tentáculos: o projeto de poder do CONFEF sobre o corpo discente. In: SEMINÁRIO DO TRABALHO, 6., 2008, Marília. Trabalho, economia e educação no século XXI. Anais... Marília: UNESP, 2008. Disponível em http://www.boletimef.org/biblioteca/1727/O-projeto-de-poder-do-CONFEF-sobre-o-corpo-discente

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Dunga e a Seleção Ah-NÃO: deu Burro*

No início dos anos 1990, era aluno da Escolinha de Futsal do Sport Club Mackenzie, no Méier, com o Professor Nelsinho. Na hora de escolher as camisas, era sempre uma correria, uma imensa disputa pela 11 do Romário e pela 7 do Bebeto. Por fora ficavam a 10 de Raí e a 1 de Taffarel, para os goleiros. Nesse tempo já começava a questionar algumas coisas e nunca participava dessas disputas; geralmente, era o único camisa 8. Camisa 8 do capitão Dunga.

Creio que a Copa do Mundo que mais acompanhei e torci foi a de 1994, assistindo aos jogos na vila onde morava, batucando, gritando, comendo churrasco e suando frio a cada cobrança de pênalti na final contra a Itália. Fomos tetra. Em 1998, a decepção na Final, “recompensada” pelo pentacampeonato quatro anos depois; este, por sua vez, seguido por nova decepção em 2006. Majoritariamente, a busca pelo resultado vem superando a criatividade, o abuso, a molecagem. Também cada vez mais fica evidenciada a íntima relação entre gigantescos investimentos financeiros de patrocinadores e os resultados do futebol.

Não sou daqueles professores de Educação Física que defendem ser o futebol propriedade privada da nossa área e entendo que a busca pelo conhecimento pode acontecer além da Universidade. Certamente muitos ex-jogadores têm mais condições de ser técnicos de futebol do que eu. Todavia, fiquei surpreso com uma ascensão meteórica do capitão do tetra. Seu primeiro cargo: técnico da Seleção mais vezes campeã do mundo! Pareceu-me mais uma das artimanhas maquiavélicas da Confederação Brasileira de Futebol, sob o comando coronelístico – neologismo? – de Ricardo Teixeira e seus asseclas.

O capitão já não é mais o mesmo, nem ocupa o mesmo papel. Assim como, de minha parte, já não é o mesmo sentimento nacionalista, ufanista de não desistir nunca e ficar na torcida de verde e amarelo pelo hexa. É hoje muito mais perceptível a importância desses mega-eventos esportivos para auxiliar o processo de manutenção da ordem estabelecida. Em diversos momentos acompanhamos comemorações de títulos em que jamais tocaremos a taça, enquanto a ideologia e a repressão dominantes, ah, essas sim nos tocam, nos jogam contra a parede, configurando ditaduras, como na década de 1970; governos neoliberais, como nos anos 1990; e agora governos burgueses mascarados de esquerda.

Já pensava em não torcer para o país sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, que constrói estádios, monumentos e faz empresas e bancos lucrarem, ao passo que o desemprego aumenta, crianças passam fome e se prostituem e a barbárie se dissemina. Na terça-feira, enquanto a lista de Dunga era anunciada, lecionava para o 6º ano em Rio das Ostras. Dois alunos, de idade próxima à minha em 1994, vieram me pedir para deixar o rádio ligado na hora da entrevista coletiva. Recordei-me da época que tinha 9 anos e torcer era divertido e fácil. Mas é preciso irmos além do trivial.

As piadas já estão rolando solta. Dunga encampou a campanha contra as drogas: craque nem pensar! Não deu Ganso, nem Pato: deu Burro! Não bastasse a alcunha do técnico, ratifica-se a Seleção Ah-NÃO. Doni? Ah-não! Gomes? Ah-não! Gilberto Silva? Ah-não! Josué? Felipe Melo? Kleberson? Ramires? Ah-não... Uma convocação repleta de jogadores que hoje são reservas em seus clubes, jogadores que, nos tempos atuais, inclusive, saem das terras tupiniquins rumo aos ares europeus. De positivo, deixar o “Imperador” de fora e colocar a forma alotrópica do diamante foi um grande acerto.

Todos somos sim um pouco de técnicos. Talvez por pensar o futebol não apenas como uma competição, mas como uma arte, uma alegria de jogar, de driblar, de fazer gols, de dançar, de comemorar, defenda a seleção menos pragmática e burocrática, que visa apenas o resultado. Por isso gostaria de ver na seleção de hoje aqueles que têm apresentado esse futebol, como Ronaldinho, Ganso e Neymar. No gol, Jefferson está muito melhor que os dois possíveis reservas e ter alguém do Botafogo na Seleção é bem mais interessante.

Pode até ser que o Brasil alcance o hexa, dependendo da correlação de forças e dos interesses políticos presentes atualmente na FIFA. Mas será difícil essa seleção conquistar significativa simpatia e causar alegrias e risos como boas piadas ao longo dos jogos. E eu, hoje? Não me orgulharia de pedir a camisa 8.


*Gabriel Rodrigues Daumas Marques
Anti-FIFA, Anti-CBF e Anti-Burrice

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Foi lá...*

Ao longo desses quase 25 anos de idade, já participei de alguns concursos públicos, principalmente nos últimos anos após concluir o curso de Licenciatura em Educação Física. Em muitos deles, fiquei dentro das vagas; noutros, atingi o necessário para obter aprovação; em apenas um, fiquei reprovado. Independentemente dos resultados, retorno ao ano de 1995, período em que pela única vez efetivamente me preparei para encarar um concurso.

Foram diversos meses, deslocando-me do Méier para a Rua Alzira Brandão, na Tijuca, onde passava três tardes inicialmente e todas as tardes durante o período de férias, com apenas 10 anos de idade. Um intensivo de lições de Português e Matemática: exercícios, contas, expressões, pontuações, redações, leituras... Nunca é demais agradecer a oportunidade oferecida pela querida Dona Hanid, que me recebeu de braços abertos, sabendo das limitações financeiras, e apostou que seria possível concretizar o sonho paulatinamente construído: ser estudante do Colégio Pedro II. Vale destacar também o maciço apoio dos familiares mais próximos – Vó Dulce, além de preparar meu papá, me levava todas as tardes e meu pai me buscava – que chegavam a afirmar que no ano seguinte eu estaria estudando no Engenho Novo. Após obter 7,25 em Matemática – que era meu forte – Português foi mais uma superação: 8,25. Média de 7,75, garantindo o posicionamento entre os 25 primeiros para um total de aproximadamente 70 vagas.

Chegou o ano de 1996. Depois de sair duma escola pequena e privada, era tempo de encarar muros mais altos, professores variados e alunos de diferentes faixas etárias. Estava no segundo ciclo do Ensino Fundamental, na 5ª série. Acostumado com banheiros individuais, após perder corrida para os recém-colegas de sala, entrei subitamente na porta ao lado: era o banheiro feminino! Um micaço logo no primeiro dia de aula. Sapato preto, meias pretas, camisa branca com botões e emblema do CPII para dentro da calça de brim azul marinho: devidamente uniformizado, carregando a caderneta que continha uma breve história da instituição e marcações de carimbos com assiduidade e espaço para as notas. Foram 7 anos da minha vida lá dentro, sem nenhuma advertência e com apenas 2 provas finais em Física.

Saudosismo à parte, posso recordar que...

Foi lá que pela primeira vez votei, para escolher representantes de turma e professores conselheiros.

Foi lá que pela primeira vez escolhi uma chapa para representar o corpo discente – o Grêmio Estudantil.

Foi lá que pela primeira vez participei de uma equipe representativa – o time de basquete do CPII – sim, por pouco tempo, mas fui do time de basquete dirigido pelo Professor Mauro Raso.

Foi lá que terminei um curso técnico em Processamento de Dados – pasmem!

Foi lá que pela primeira vez representei uma turma – gostei tanto que fui pelo menos outras três vezes.

Foi lá que comecei a andar sozinho, de ônibus, pelas ruas cariocas.

Foi lá que tive minhas paqueras e paixões mais inocentes.

Foi lá que decidi participar do Movimento Estudantil, compondo a chapa vencedora do pleito para o Grêmio Estudantil num processo extremamente politizado.

Foi lá que fiz meu primeiro discurso em público.

Foi lá que escrevi meu primeiro texto para um jornal discente.

Foi lá que pela primeira vez fiz parte de um Comando de Greve.

Foi lá que pela primeira vez atuei numa peça de teatro – fantasiado de Chapolin Colorado, incentivado pelo Professor Mauro Veras.

Foi lá que consegui ler quase 100 livros em apenas um ano – excelente projeto da Professora Marília.

Foi lá que pela primeira vez ganhei um Concurso Literário – grande incentivo da Professora Isabel Vega.

Foi lá que vi minha mãe – trêmula – fazer um discurso em público, diante de centenas de pessoas, para me defender.

Foi lá que participei de minha primeira passeata – em defesa do Passe Livre.

Foi lá que aprendi a tocar flauta doce.

Foi lá que dancei quadrilha, organizei eventos artísticos e coordenei Assembléias Estudantis.

Foi lá que descobri que os alunos poderiam entoar hinos e tabuadas com orgulho e vigor.

Enfim, foi lá que cresci politicamente e comecei a entender e praticar o exercício da crítica, protagonizar lutas e perceber que é preciso nos organizarmos para modificar a situação ao nosso redor. Mas foi lá também que descobri que gostaria de ser professor, de lecionar, de ensinar. E foi lá que escolhi a disciplina de Educação Física, principalmente a partir das aulas do Professor Marco Santoro, diante de dúvidas de cursos como Medicina, Direito, História, Química, Biologia e Informática. Hoje tenho certeza da correta opção. E voltei ao CPII para realizar metade da carga horária de minha Prática de Ensino, sendo bem recepcionado pelas Professoras Ana Julia e Kátia Regina. Ironias do destino? No campo da História da Educação, atualmente chego ao Colégio Pedro II como objeto de minha dissertação de Mestrado na UFRJ. Como ex-aluno, há três anos freqüento a Feijoada de dezembro. Um caminho percorrido para um novo sonho: retornar ao CPII como docente.

Abril de 2010: aparece o edital para três vagas de professor de Educação Física. Imediatamente agi, fui o terceiro inscrito! Concomitante à empolgação pelo concurso, gestou-se a decepção ao ver a bibliografia assim como ao visualizar a prova do concurso de 2002. O embate não seria com os demais 635 inscritos no Concurso, mas com a banca e uma concepção de Educação Física senão antagônica, totalmente distinta da que pude construir na Graduação, no Movimento Estudantil e na pós-Graduação. No dia 2 de maio, o balde jorrou granizo. Foi um cumprimento burocrático comparecer na Unidade de São Cristóvão, local onde em 2001 acompanhava Assembléias lotadas por centenas de professores e técnico-administrativos enfrentando a implementação do neoliberalismo e defendendo a Educação Pública. Em 1h 15min, apressado, sem tesão e acompanhando meu desejo escapar, marquei as 40 questões da prova, sabendo que estaria satisfeito se conseguisse acertar 50%, o que seria insuficiente, já que o edital exigia 70% e ficar entre as 24 maiores notas.

Nesse dia, a banca atuou como fogo-amigo, atacando soldados da ciência, que não sucumbiram e continuarão resistindo, acumulando forças para construir uma visão de Educação Física atrelada à necessária transformação radical da sociedade desigual e opressora, inerente às relações capitalistas. Pode ser que o sonho de voltar ao CPII como docente tenha sido adiado ou até mesmo não seja possível se concretizar, mas permanece a chama de lutar em defesa de que todas as crianças possam ser soldados da ciência, tendo acesso a uma Educação de Qualidade tal como eu pude ter e continuarei persistindo para socializar nas escolas em que trabalho e trabalharei.

Foi lá que saí entristecido no último Domingo. Porém, foi lá que me propiciou começar a semana mais rejuvenescido, ciente das tarefas árduas que nos esperam enquanto sujeitos da história, visando melhorar, aperfeiçoar e enriquecer minha Práxis Pedagógica, que busque superações, subversões, transformações, revoluções...


*Gabriel Rodrigues Daumas Marques
Ex-aluno do CPII – U. E. Engenho Novo II (1996 a 2002)

sábado, 3 de abril de 2010

X Encontro Regional de Estudantes de Educação Física

Na seqüência dos feriados de 21 e 23 de abril, lugar dos estudantes de Educação Física do Rio de Janeiro, do Espírito Santo e de Minas Gerais é na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, em Seropédica. Entre os dias 21 e 24 desse mês, ocorrerá o X Encontro Regional de Estudantes de Educação Física da Regional II (RJ, ES e MG): o EREEF RURAL 2010. Participe enviando trabalhos até o dia 16 para apresentar oralmente ou por meio de pôster! Converse com seus colegas de sala e procure o Centro ou Diretório Acadêmico para ajudar na divulgação e organizar os/as estudantes da faculdade para vivenciar o Encontro!

Entre 2003 e 2007, enquanto estudante de Educação Física da UFRJ, participei do Movimento Estudantil de Educação Física. Nos EREEFs da Regional II, desde então, estive em Viçosa (UFV-2004), apresentei trabalho em Seropédica (UFRRJ-2005), fui palestrante em Juiz de Fora (UFJF-2006), compus a Comissão Organizadora no Rio de Janeiro (UFRJ-2007). Já Licenciado em Educação Física, também estive como mediador do filme "A UNE somos nós?" em Minas Gerais (UFMG-2008) e dei uma espiadinha rápida em Niterói (UFF-2009). Esse ano, participarei como mediador do filme "Roger e eu", repetindo o evento na receptiva cidade de Seropédica.

Vamos nos encontrar lá!
Prof. Gabriel.



Seguem abaixo algumas informações contidas no panfleto de divulgação do EREEF 2010.


SEJAM BEM VINDOS/AS

O Encontro Regional de Estudantes de Educação Física ocorre anualmente, sendo um evento construído exclusivamente por estudantes e para os/as estudantes e trabalhadores/as da área. Realizado pela Executiva Nacional de Estudantes de Educação Física (ExNEEF). A ExNEEF é a entidade representativa dos estudantes de graduação do curso de Educação Física de nosso país, responsável por organizar e executar as ações do Movimento Estudantil de Educação Física – MEEF.

Os Encontros Regionais de Estudantes de Educação Física (EREEFs) surgiram como forma de preparação para os Encontros Nacionais (ENEEFs), onde ocorre a maior instância deliberativa do MEEF – a Plenária Final.

A formação acadêmica dos universitários acompanha o cenário político, econômico e social em que vivemos, refletindo-se em nossas salas de aula e espaços de atuação. Por conta da influência do pensamento e da política de implantação do neoliberalismo, é perceptível a ampliação gradual de individualismo e competitividade e a diminuição da participação política no dia-a-dia da Universidade. O Movimento Estudantil se configura como um importante instrumento de organização e formação dos estudantes, possibilitando discussões pertinentes e propositivas que visem criticar e superar a realidade em que estamos inseridos. Através dos seus espaços, o EREEF enquadra-se nessa perspectiva, possibilitando aos participantes reflexões acerca de temas que muitas vezes encontram-se como coadjuvantes em nossos currículos escolares, fundamentando e instrumentalizando.

INSCRIÇÕES EM

OBS: Enviar seu nome e instituição que faz parte;
Valor da inscrição R$20,00 incluindo alimentação e alojamento (trazer colchonete).
Pagar no ato do credenciamento.

MAIORES INFORMAÇÕES

Tels: Amanda 8823-2355, Leandro 9475-4026

NORMAS para APRESENTAÇÃO de TRABALHOS

-> Os trabalhos devem ser inscritos até o dia 16 de abril de 2010 e enviados para o e-mail: calef-rural@hotmail.com [campo “assunto”: inscrição de trabalho];
-> Os trabalhos poderão ter os seguintes formatos: apresentação oral ou painéis (pôster).
-> Cada autor poderá inscrever mais de um trabalho para apresentar no evento, contudo, os trabalhos de um mesmo autor devem ser em formatos diferentes. Poderá existir mais de 1 (um) autor por trabalho;
-> Os trabalhos podem estar conclusos ou em andamento. A Comissão Científica analisará seu trabalho e retornará o aceite, desde que o trabalho contemple as seguintes normas
-> Resumo - apresentação oral: até 4 laudas (introdução, metodologia, desenvolvimento, conclusão e referências);
Resumo - painéis: até 2000 caracteres e 3 palavras-chaves;
Critérios avaliados: consistência argumentativa; diálogo com a literatura; qualidade da escrita; relevância do tema.

Todos os tipos de trabalho deverão contemplar os seguintes requisitos quando enviados à análise: Word 6.0 for Windows ou superior; Titulo: caixa alta, centralizado e em negrito, á dois espaços abaixo do titulo; nome(s) do autor (es) seguido(s) do órgão ou entidade e e-mails alinhados à direita; A dois espaços abaixo segue o desenvolvimento do texto; Bibliografia segundo normas da ABNT; formato da página: tamanho A4 e margem com recuo 2,5 cm superior, inferior e à direita e 3,0 cm à esquerda; fonte arial, tamanho da fonte 11, espaçamento entre linhas 1,5;

PROGRAMAÇÃO

Quarta - feira / 21 de Abril
8:00 – 10:00 -> Credenciamento
10:00 – 11:00 -> Mesa de abertura
11:00 – 12:00 -> Almoço
13:30 – 17:00 -> Mesa Práxis – Artes Circenses, Jogos Populares e Lutas
18:00 - 20:00 -> Lanche
20:00 - 22:00 -> 1º COREEF
22:00 -> Cultural

Quinta - feira / 22 de Abril
6:30 – 8:00 -> Café da Manhã
08:30 – 11:30 -> Mesa I “A Universidade em Crise! A Copa do Mundo é Nossa?”
11:30 - 12:00 -> Almoço
14:00 – 17:00 -> Grupos de Discussão
18:00 – 20:00 -> Lanche
20:00 - 22:00 -> Grupo de Discussão – FILME: Roger e Eu.
22:00 -> Cultural

Sexta - feira / 23 e Abril
6:30 – 8:00 -> Café da Manhã
08:30 – 11:30 -> Mesa II “A copa do Mundo é Nossa. Solução ou Ilusão?
11:30 - 12:00 -> Almoço
13:30 - 17:00 -> Grupos de Trabalhos Temáticos: Universidade, Opressões, Esporte, Saúde e Licenciatura Ampliada
18:00 – 20:00 -> Lanche
20:00 –> 2º COREEF
22:00 -> Cultural

Sábado / 24 de Abril
6:30 – 8:00 -> Café da Manhã
08:30 – 11:30 -> Plenária
11:30 - 12:00 -> Almoço
14:00 – 17:00 -> Plenária
17:00 – 18:00 -> Avaliação do Evento
18:00 -> Encerramento / Confraternização

quinta-feira, 4 de março de 2010

Proposta Curricular para o Ensino de Educação Física - Saquarema

Em 2008, fiz a prova para professor de Educação Física do município de Saquarema-RJ: 10 vagas divulgadas pelo edital. Como sempre, pelo critério de desempate, mesmo com número de pontos iguais ao do 6º colocado, fiquei na 11ª colocação. A primeira convocação veio apenas no início de 2009. No mesmo ano, mais professsores foram chamados numa segunda convocação e eu tomei posse no município em agosto, atuando na Educação de Jovens e Adultos da Escola Municipal Edilson Vignoli Marins.

Por conta da elaboração de um projeto e planejamento na referida escola para lecionar Educação Física no turno da noite e de ter o trabalho comentado e elogiado, a Coordenação do 2º Segmento do Ensino Fundamental entrou em contato comigo no final do ano, solicitando a formulação de uma proposta curricular para a rede municipal. Em breve o documento estará disponível em .doc e .pdf. Por enquanto, compartilho aqui no blog. Tal documento certamente necessita de amplos debates a partir de sua gradativa materialização para que novas formulações possam ser feitas no município e compartilhadas com as demais locaidades.

Gabriel.

PROPOSTA CURRICULAR PARA O ENSINO
DE EDUCAÇÃO FÍSICA

TERCEIRO E QUARTO CICLOS
DO ENSINO FUNDAMENTAL - 6º AO 9º ANOS

SAQUAREMA, 2010



Contextualização


A Educação Física é considerada componente curricular obrigatório da Educação Básica(1) e sua proposta pedagógica deve encontrar-se integrada à proposta da instituição escolar, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9396/96), que também apresenta a necessidade da educação escolar vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social. Diante desse quadro, apresentamos esse documento ao corpo docente de Educação Física do município de Saquarema a fim de retomar algumas importantes discussões da área e emitir suporte e orientações curriculares para a elaboração dos planos de trabalho, que zelem pela aprendizagem dos alunos e auxiliem na articulação com as famílias e a comunidade (BRASIL, 1996).

Longe de querer moldar as práticas pedagógicas e/ou ferir a autonomia do profissional no que tange à elaboração de seus planos curriculares, consideramos esta uma iniciativa, um pontapé inicial em Saquarema para que nos aproximemos de um eixo comum que sistematize os conteúdos da disciplina ao longo dos quatro anos do terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental. Estamos certos de que nossa presença na escola pode contribuir de maneira significativa para a formação básica do cidadão, que desenvolva a capacidade de aprender; que compreenda a fundamentação da sociedade em seus valores e aspectos tecnológicos, artísticos, políticos e sociais; e que adquira conhecimentos e habilidades, formando atitudes e valores (BRASIL, 1996).

Importantes iniciativas já foram apresentadas em outras localidades, tanto para a formulação de uma proposta curricular (MINAS GERAIS, 2005a; ARACAJU, 2007; SÃO PAULO, 2008) quanto para elaboração de materiais e livro didático de Educação Física (MINAS GERAIS, 2005b; CURITIBA, 2006; RIO DE JANEIRO, 2006).

A compreensão da cidadania como participação social e política; o posicionamento de maneira crítica, responsável e construtiva nas diferentes situações sociais; o conhecimento de características fundamentais do Brasil nas dimensões sociais, materiais e culturais; a valorização da pluralidade sociocultural brasileira; a percepção enquanto integrante e agente transformador do ambiente; o desenvolvimento do conhecimento ajustado sobre si próprio e do sentimento de confiança; o conhecimento do próprio corpo e sua devida valorização; a utilização de diversas linguagens para expressão e comunicação; a sapiência para utilização de diferentes fontes de informação e recursos tecnológicos; e o questionamento à realidade configuram o escopo de objetivos para os alunos do Ensino Fundamental, objetivos estes orientados por três aspectos fundamentais, a saber: a) princípio da inclusão, realizado por meio da participação e reflexão e no qual se busca a superação do quadro histórico de seleção entre indivíduos aptos e inaptos para as práticas corporais; b) princípio da diversidade, aplicado na construção do processo de ensino aprendizagem e no qual se busca a legitimação de variadas possibilidades de aprendizagem nas dimensões afetivas, cognitivas, motoras e socioculturais dos alunos; c) categorias de conteúdos, apresentados sob as formas conceitual (fatos, conceitos e princípios), procedimentos (ligados ao fazer) e atitudinal (normas, valores e atitudes) (BRASIL, 1998).

Os objetivos acima explicitados e os aspectos fundamentais contidos nos PCNs estarão imersos no currículo escolar, onde nenhuma disciplina se legitima de maneira isolada, ou seja, cada matéria ou disciplina é considerada como um componente curricular ao passo que seu objeto está articulado aos diversos objetos dos demais componentes do currículo. É necessário que ocorra um

Tratamento articulado do conhecimento sistematizado nas diferentes áreas que permite[a] ao aluno constatar, interpretar, compreender e explicar a realidade social complexa, formulando uma síntese no seu pensamento à medida que vai se apropriando do conhecimento científico universal sistematizado pelas diferentes ciências ou áreas do conhecimento. (...)
A relação entre as matérias enquanto partes e o currículo enquanto todo é uma das referências do conceito de currículo ampliado que propomos. (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 28-29)

Diante desse panorama, fica explícita a importância de construção coletiva de projetos político-pedagógicos nas escolas, com a participação da comunidade escolar, alicerçados sobre uma base material que congregue o trato com o conhecimento, a organização escolar e a normatização escolar. Qualquer proposta curricular feita de forma separada está desafiada por consideráveis limites.

Para consubstanciar a proposta curricular abaixo apresentada, elencamos inicialmente quatro diferentes grupos, contendo cada um deles quatro propostas de conteúdos, que foram divididas entre os quatro anos dos terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental. Vilaça & Marques (2006) criticam o quadrado mágico formado por futsal, basquetebol, voleibol e handebol enquanto a hegemonia da educação física na escola atualmente vigente, explicitando duas características fundamentais que o desporto acarreta: a pronta e acrítica obediência e internalização de regras estabelecidas por entidades regulamentadoras; e a exclusão e discriminação diante dos aspectos relacionados ao talento e à competição exacerbada. Ademais, pautamo-nos pelo entendimento de que as atividades físicas tematizadas pela Educação Física—Jogo, Ginástica, Lutas, Dança, Capoeira—são mecanismos de linguagem, de comunicação, que carregam sentidos, significados e constituem um acervo, um patrimônio da humanidade. Podem ser observados, compreendidos, executados e aprimorados a partir de dimensões técnicas sem que sejam reduzidos à performance ou a uma abordagem tecnicista (SOARES, 2006). Os objetivos dos conteúdos na escola não devem se basear nos objetivos do esporte, da dança ou da luta profissionais; devem, portanto, oportunizar à totalidade dos estudantes o desenvolvimento de suas potencialidades e seu aperfeiçoamento enquanto seres humanos (BRASIL, 1998). Optamos, portanto, diversificar as propostas curriculares, caminhando ao encontro do que Marques (2009) defende

Não rebaixar a Educação Física ao desportivismo hegemônico que segrega, exclui e ressalta valores individualistas é um desafio, que deve ser complementado pela apresentação de inovações, incorporando elementos da cultura corporal como a Dança, o Folclore, a Capoeira, as Brincadeiras Populares e contextualizando nossas práticas à realidade cruel da sociedade em que vivemos, para que possamos questionar e acumular forças rumo à construção de novas relações. Para construir o diferente, a obtenção e a conquista de respeitabilidade e a participação discente são essenciais, que, somados ao prazer, à alegria, à satisfação, podem facilitar o alcance de objetivos que hoje nos aparentam ser árduos (p. 1)

Os grupos foram os seguintes: a) Jogos – Jogos Populares; Grandes Jogos; Jogos cooperativos; e Jogos de rebater e de tabuleiro; b) Esportes – Esportes coletivos com bola (duplicado); Esportes de aventura; Esportes aquáticos/de praia; c) Lutas, Atletismo e Ginásticas – Ginástica; Capoeira; Atletismo; e Lutas; d) Atividades rítmicas e expressivas e conhecimentos sobre o corpo – Corpo e Sociedade; Folcore; Dança, ritmo e movimento; e Expressão e Comunicação Corporal. Sugerimos também que o conjunto das aulas garanta as discussões sobre aspectos sociais, históricos e culturais de cada um dos conteúdos assim como outras atividades possam ser concomitantemente praticadas, como piques, alongamentos, utilização de filmes e até mesmo confecção coletiva dos materiais necessários a partir de recicláveis e/ou outras matérias-primas.

Em relação à avaliação, consideramos interessante que a mesma seja composta por instrumentos diversos, como trabalhos em grupo, provas, relatórios, fichas de observação etc., que se relacionem aos objetivos indicados, se distanciem de mecanismos de pressão ou castigo e possam fornecer um panorama sobre os caminhos da proposta curricular realizada, ou seja, que gere elementos para aprimorarmos nossas práticas pedagógicas e contribuir de maneira significativa para o crescimento dos estudantes. Darido & Rangel (2005) apresentam interessantes e breves questões sobre o processo de avaliação bem como os conteúdos sob as dimensões conceitual, atitudinal e procedimental. A própria LDB apresenta a necessidade de que a avaliação seja contínua e cumulativa, prevalecendo os aspectos qualitativos sobre os quantitativos e os resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais (BRASIL, 1996). Os estudantes devem estar cientes de como serão avaliados e podem participar da elaboração de alguns dos instrumentos, algo que pode fazer parte do próprio processo contínuo de diagnóstico da situação.



Proposta Curricular(2)


6º ano / Fase VI

Temas transversais prioritários: Ética e Meio Ambiente

6.1 → Jogos Populares

• Amarelinha

• Pique-bandeira

• Queimado

• Bola de gude

• Pipa

• Pião

• Boliche


6.2 → Esportes com bola

• Futsal

• Voleibol

• Basquetebol

• Handebol

• Futebol

• Rugby

• Corfebol

• Hóquei


6.3 → Ginástica

• Rolamentos

• Avião

• Vela

• Ponte

• Equilíbrio

• Pirâmide humana

• Paradas com apoio

• Estrela


6.4 → Expressão e Comunicação Corporal

• Reflexo

• Mímica

• Memória

• Criatividade

• Coordenação motora

• Elementos do circo e do teatro

• Raciocínio

• Lógica

• Yoga



7º ano / Fase VII


Temas transversais prioritários: Pluralidade Cultural e Orientação Sexual


7.1 → Grandes Jogos

• Totó Humano

• Jogo dos cones

• Arremessobol

• Goleirobol


7.2 → Esportes de aventura

• Skate

• Patins

• Ciclismo

• Surfe

• Escalada

• Parkour


7.3 → Atletismo

• Saltos

• Corridas de curta e longa distância

• Arremessos

• Corrida de orientação


7.4 → Folclore

• Danças e personagens folclóricos

• Carnaval

• Tradições



8º ano / Fase VIII


Tema transversal prioritário: Saúde


8.1 → Jogos de rebater e de tabuleiro

• Tênis

• Tênis de mesa

• Peteca

• Badminton

• Basebol

• Taco

• Xadrez

• Damas

• Peteleco


8.2 → Esportes com bola

• Futsal

• Voleibol

• Basquetebol

• Handebol

• Futebol

• Rugby

• Corfebol

• Hóquei


8.3 → Lutas

• Esgrima

• Judô

• Karatê

• Boxe

• Taekwondo


8.4 → Dança, ritmo e movimento

• Coreografias

• Alongamentos

• Samba

• Forró

• Frevo

• Bambolês

• Dança da laranja


9º ano / Fase VIII


Tema transversal prioritário: Trabalho e Consumo


9.1 → Jogos cooperativos

• Passeio do bambolê

• Nó humano

• Lápis na garrafa

• Engrenagem humana

• João confiança


9.2 → Esportes aquáticos/de praia

• Natação

• Pólo aquático

• Nado sincronizado

• Vela

• Canoagem

• Remo

• Surfe

• Mergulho

• Voleibol de praia

• Futebol de areia

• Handebol de praia


9.3 → Capoeira

• Movimentos de ataque e defesa

• Roda

• Ladainha

• Instrumentos

• Maculelê


9.4 → Corpo e Sociedade

• Competição X cooperação

• Inclusão X exclusão

• Gênero e sexualidade

• Massagem e relaxamento

• Sentidos do corpo

• Lazer


(1) Vale mencionar seu aspecto facultativo ao aluno que cumpra jornada de trabalho igual ou superior a seis horas; maior de trinta anos de idade; que estiver prestando serviço militar inicial ou que, em situação similar, estiver obrigado à prática da educação física; portador de afecções congênitas ou adquiridas, infecções, traumatismo ou outras condições mórbidas, determinando distúrbios agudos ou agudizados; que tenha prole.

(2) A proposta curricular é também direcionada para a modalidade de Ensino de Jovens e Adultos, ou seja, consideramos as fases equivalentes aos respectivos períodos do Ensino Fundamental. Em cada um dos períodos, estão contidas sugestões gerais de conteúdos, que podem ser divididos nos bimestres, de acordo com a realidade da turma. Os temas transversais devem ser trabalhados de maneira correlata aos conteúdos da disciplina, buscando um diálogo com as demais disciplinas para articulação de projetos e atividades conjuntas.

REFERÊNCIAS

ARACAJU. Proposta Curricular de Educação Física. Departamento de Educação Física. Aracaju: Secretaria de Estado da Educação: 2007.

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei 9394, de 20 de dezembro de 1996.

______. Parâmetros Curriculares Nacionais. Terceiro e Quarto Ciclos do Ensino Fundamental. Educação Física. 1998a.

______. Parâmetros Curriculares Nacionais. Terceiro e Quarto Ciclos do Ensino Fundamental. Temas Transversais. 1998b.

COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do Ensino da Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.

CORREIA, Marcos Miranda. Trabalhando com jogos cooperativos. Campinas, SP: Papirus, 2006.

CURITIBA. Educação Física. 2 ed. Curitiba, Secretaria de Estado de Educação, 2006.

DARIDO, Suraya Cristina & RANGEL, Irene Conceição Andrade. Educação Física na Escola: implicações para a prática pedagógica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.

MARQUES, Gabriel Rodrigues Daumas. Educação Física na escola pública: entre os ditames da ordem vigente e as possibilidades de resistência. Lecturas, Buenos Aires, v. 14, n. 138, nov. 2009.

MINAS GERAIS. Proposta Curricular: Educação Física. Ensinos Fundamental e Médio. CBC. Minas Gerais: Secretaria de Estado de Educação, 2005a.

______. Roteiro de Atividades. Educação Física. Ensino Fundamental. Minas Gerais: Secretaria de Estado de Educação, 2005b.

RIO DE JANEIRO. Reorientação Curricular: Educação Física. Materiais didáticos. Rio de Janeiro: Secretaria de Estado de Educação, 2006.

SÃO PAULO. Proposta Curricular do Estado de São Paulo: Educação Física. São Paulo: Secretaria de Estado de Educação, 2008.

SOARES, Carmen Lúcia. Educação Física Escolar: conhecimento e especificidade. Revista Paulista de Ed. Física, supl. 2, p. 6-12, 1996.

VILAÇA, Murilo Mariano; MARQUES, Gabriel Rodrigues Daumas. Educação Física desportivista: considerações críticas à prática, predominantemente vigente, de Educação Física escolar. In: ENCONTRO FLUMINENSE DE EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR, 10., 2006, Niterói. Lazer e Educação Física escolar. Anais... Niterói: Departamento de Educação Física e Desportos, Universidade Federal Fluminense, 2006.