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terça-feira, 13 de março de 2012

Jobson voltou e mulheres junto ao Fogão*

Quarenta e oito horas após o Dia Internacional da Mulher, já estava anotado na agenda o duelo do nosso Botafogo contra o Bangu. Indubitavelmente, a lembrança, a homenagem e a comemoração são merecidas no 8 de março. Contudo, é preciso transcendermos a simples vinculação com uma data e reconhecermos que são necessários novos avanços na sociedade, considerando cada dia um dia de luta contra o machismo e quaisquer formas de subjugar as mulheres, buscando relações humanas que não se construam a partir da exploração ou da opressão de qualquer ser humano sobre outro! O dia 8 de março não pode nem deve ser uma data comercializada, com descontos em salões de beleza ou o estímulo ao uso de produtos cosméticos! NÃO! O dia 8 de março é muito mais do que isso e certamente o Futebol deve se enquadrar nesta lógica de rupturas.

            Algumas iniciativas importantes têm aparecido. Ano passado, em um plebiscito, a ANT passou a se chamar oficialmente Associação Nacional de Torcedores e Torcedoras! Uma das mais animadas e contagiantes torcidas organizadas levou a faixa LoucAs pelo Botafogo! Recomendo inclusive a leitura do bonito texto acerca da temática: “A Mulher e o Botafogo”, publicado no BotafogoNews: http://www.botafogonews.com/sem-categoria/a-mulher-e-o-botafogo/  Apesar da constante presença do público feminino nas arquibancadas, ainda é tímido o avanço que podemos conquistar. Enquanto Marta foi eleita a melhor jogadora do mundo por cinco vezes, acompanhamos calados a inexistência do estímulo ao futebol feminino; em diversos locais como as próprias escolas que deveriam ser o espaço para a formação de um novo olhar e de novas práticas, observamos a hegemonia masculina nas práticas desportivas e muitas vezes um preconceito e uma negação às mulheres que ousam romper a lógica imposta. De nada nos adianta termos a primeira presidente da República mulher, querendo ser designada presidenta e mantendo uma prática política e econômica a favor dos ricos e dominantes ao passo que as mulheres recebem salários mais baixos, sofrem assédios, são constrangidas ao denunciar cônjuges agressores e não podem decidir sobre os rumos do próprio corpo em nome da moral religiosa! Enfim, certo de que dias melhores virão, reafirmo que lugares de mulheres não são o tanque ou a cozinha; e as mulheres alvinegras podem e devem estar ao lado do Fogão, não aquele que toda casa tem, mas este iniciado por letra maiúscula que flameja em preto e branco uma Estrela Solitária!

            Não havia nome melhor de estádio para o jogo após 8 de março: Moça Bonita! Concordo com a crítica de nosso carismático uruguaio acerca do gramado ruim, que estraga o espetáculo. Em contrapartida, o jogo em Bangu possibilita a presença de outros torcedores – moradores da Zona Oeste – e nos obriga a conhecer a estação de trem Guilherme da Silveira... Os próximos quatro jogos voltam a ser em nossa casa, além da semifinal e da final da Taça Rio que disputaremos no Engenhão! Vale registrar a entrevista concedida à BrahmaFogo, falando sobre o livro “Botafogo, uma Paixão Além do Trivial” e sobre a reestreia de Jobson, disponível no youtube:



    
Num dos bairros mais quentes da capital fluminense, o Sol foi escamoteado pelas nuvens que tomaram conta do céu, amenizando o calor, assim como o preto e o branco que invadiram as arquibancadas banguenses e ofuscaram o alvirrubro. Ainda bem que não precisei usar o guarda-chuva nem para me proteger dos raios solares nem da chuva que só ficou na ameaça. Apesar do absurdo preço de R$30, o público foi grande. E se a torcida que quase lotou Moça Bonita não assistia a um futebol vistoso, podia vislumbrar um festival de pipas nos ares da Zona Oeste, muitas delas interrompendo a partida ao cair sobre o gramado. Tarefa para a Federação: além dos gandulas, contratar dois meninos para aparar as pipas... Além do artefato popular que, com simples materiais, alcança magníficas alturas, a torcida teve a oportunidade de ouvir a charanga do Bangu tocar animadas músicas, dentre outros, de Balão Mágico e da minha querida Mocidade Independente de Padre Miguel.

Tantas coisas bacanas para comentar que certamente o jogo em si ficou como coadjuvante. Com um primeiro tempo morníssimo, a inexistência de gols foi óbvia. Enquanto os ex-jogadores do Fogão Almir e Thiago Galhardo mais o lateral Renan Oliveira construíram boas jogadas, o Glorioso sentia muito a ausência de seus principais jogadores da meiúca. Apesar de pouco mais esforçado que em jogos anteriores, Loco Abreu precisava realmente ser substituído; Herrera lutou, lutou e lutou, mas não concluiu as finalizações para o fundo das redes; e Caio, também esforçado, demonstrou novamente que ajuda muito mais a equipe quando entra no segundo tempo. Lucas Zen não entrou bem no lugar de Marcelo Mattos; Marcio Azevedo e Lucas não apoiaram como podem e o lateral-direito ainda errou muitas jogadas; a defesa vacilou em momentos que não comprometeram por conta das limitações do adversário; e Jefferson quase nos deu um baita susto numa bola para ele recuada que quicou em algum montinho de sua área; enquanto isso, Felipe Menezes comprovou que só pode ser novo Kaká se ele for alguma espécie de pastor do elenco, porque em campo está sempre dormindo...

Os destaques ficam por conta do segundo tempo: Jobson voltou e a torcida do Fogão saiu do chão para entoar euforicamente seu retorno! Depois de 6 meses cumprindo suspensão, o garoto será nosso 48º jogador convocado para defender a Seleção Brasileira em Copas do Mundo – Jefferson e ele titulares em 2014! Com seus contagiantes piques, continua afobado nas finalizações, cansou rápido, mas forneceu a assistência para um moleque franzino, com categoria, balançar as redes pela segunda vez como profissional do Botafogo: boa, Cidinho! Para completar, outro Jefferson, formado pela base, postura de gente grande, substituiu o inoperante Felipe Menezes. Com categoria, cobrou uma falta no ângulo esquerdo, mas o arqueiro adversário mandou para escanteio. Lembrando os tempos de “Almir, faz um gol aí!”, infelizmente o meia acertou um belo chute de fora da área e empatou a partida.

Apesar da manutenção da invencibilidade, com o empate permitimos que o Macaé assumisse a liderança do grupo. Quarta é tarefa primordial liquidar o time que tem número como nome, número este sempre bem-vindo na história de superstições alvinegras! Domingo que vem é dia de cozinhar o bacalhau para continuarmos entre os dois melhores e rumarmos à conquista da Taça Rio. Saudações às mulheres de todo o mundo e um bom retorno a Jobson!

*Gabriel Marques
Botafoguense desde 30/05/1985

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sem direito ao aborto*

Trabalhadora de padaria é atacada por ex-companheiro. A matéria poderia ser a mesma, recordada, reescrita, não fosse pela localidade, pelas características dos sujeitos envolvidos, pela data em que foi publicada e pelas conseqüências trágicas. Na padaria ao lado de minha casa, no Engenho de Dentro, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, na última terça-feira, Daiana Alves da Silva, de 24 anos, foi surpreendida pelo ex-marido e pai de suas duas filhas. Enquanto trabalhava, o sujeito chegou por trás, ateou gasolina e riscou o fósforo antes que Daiana conseguisse fugir.(1) Há pouco mais de 2 anos, em Araraquara-SP, uma balconista de padaria de 17 anos levou três tiros de seu ex-namorado, um jovem de 21 anos, que ainda amarrou seu corpo em pedras para que afundasse nas águas do Rio Jacaré.(2) Até onde sabemos, Daiana se encontra em estado grave no Hospital Municipal Salgado Filho, com queimaduras em 45% do corpo.

Infelizmente, o cotidiano é ainda mais cruel, pois não se trata apenas de mulheres que trabalham em padarias. Há menos de um mês, cenas horripilantes não eram ficção: Maria Islaine de Morais, proprietária de um salão de beleza, de 31 anos, levou sete tiros do ex-marido, na Região da Pampulha, em Belo Horizonte-MG.(3) Em outubro de 2008, em Sorocaba-SP, Daniel Pereira de Souza assassinou com um tiro na cabeça sua ex-namorada Camila Silva Araújo, de 16 anos, com quem tinha um filho.(4) Em setembro do ano passado, em São José dos Campos-SP, Marta Batista do Nascimento, de 48 anos, foi baleada no peito pelo pedreiro Jerônimo, que se suicidou e matou outras duas pessoas.(5) Não tenho dúvidas de que esse breve levantamento é miúdo diante de casos que se multiplicam país afora e que possuem características em comum: muitas das vezes há queixas e denúncias por parte das mulheres vítimas de agressões, que são negligenciadas ou não recebem a devida atenção por parte das autoridades. Tal quadro se configura em mais um reflexo da podridão da lógica opressora e machista da sociedade capitalista.

Recentemente, fiquei impressionado ao ler uma chamada para leitura de matéria em um blog, publicada pelo mesmo veículo de comunicação que se alarma – ou se usa da matéria para vender mais? – com o caso de Daiana.(6) O cabalista Shmuel Lemle publicou O papel do homem e da mulher, explicitando que a mulher veio ao mundo para ajudar o marido na sua correção espiritual e no seu processo de desenvolvimento e que sem ela o homem não consegue atingir o máximo de seu potencial. Flávio Alves da Silva pode muito bem ter lido uma baboseira dessas e não aceitou não poder chegar ao máximo de seu potencial, já que Daiana decidira romper o relacionamento! Perdoai-os, será que eles não sabem o que fazem, o que escrevem e o que defendem?

A lição cabalística é mais uma das facetas sobre as quais se ergue a divisão sexual do trabalho. A partir dessa simplista postagem, nota-se um forte argumento, uma legitimação do machismo, que, ao chegar no seu extremo, pode desencadear assassinatos, ameaças e ações truculentas contra as mulheres! Em outros momentos ou em outras culturas, serve para garantir a poligamia ou a existência dos dotes. Elas não podem ter o direito de decidir? Historicamente, tem sido importante para a conservação da ordem vigente a fidelidade da mulher, objeto reprodutor e responsável pelos cuidados com a casa e os(as) filhos(as). O próprio Dia Internacional da Mulher é deturpado pela ideologia burguesa para expansão do consumo.(7) E dia-a-dia acompanhamos nos programas televisivos a exposição exacerbada de bundas, corpos-violões ou capôs de fuscas; em letras de músicas e coreografias que, sutil ou de maneira escrachada dignificam cachorras, galinhas, piranhas, novinhas, popozudas presas em gaiolas ou frutas transgênicas fresquinhas para serem chupadas e/ou comidas! O sentimento de propriedade privada é evidenciado na magnífica criação artística recente, que necessitou de duas pessoas para compor que a mulher é a mulher e melhor que uma mulher só dez mulher!(8)

Não, elas não podem ter o direito de decidir. As ricas até conseguem com maior segurança, de maneira escamoteada! As pobres terão maior dificuldade de enfrentar as avalanches ideológicas, fortalecidas pelas pressões de uma Igreja tirânica, que esteve sempre ao lado dos poderosos em busca de ouro, status e poder. Entretanto, aquela que já mandou para a fogueira e financiou guerras, hoje hipocritamente afirma que as mulheres devem prosseguir com seus instintos maternais e defender a vida!

No texto da Lei 11.340, em vigor desde 22 de setembro de 2006, conhecida como Lei Maria da Penha, encontra-se a criação de mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Poderia aprofundar os pormenores da Lei assim como a infra-estrutura necessária para implementação rígida da mesma, como uma maior existência de delegacias especializadas, proteção irrestrita às vítimas – antes das fatalidades – com apoio psicológico, educacional e de assistência social etc. Pode-se dizer que avanços aconteceram em alguns sentidos, como a participação de mulheres em profissões masculinizadas ou até mesmo a homologação da Lei mencionada. Todavia, os retrocessos possuem muita força, ao pagar salários desiguais para trabalhos iguais; ao não serem construídas creches para atender a real demanda; ao criminalizar o aborto etc.

Se a dominação da mulher pelo homem se origina a partir da necessidade da exploração do ser humano pelo ser humano, devemos radicalizar e fazer nascer novas necessidades e novas relações, sem que essas sejam abortadas.


*Gabriel Rodrigues Daumas Marques
Professor de Educação Física e Mestrando em Educação (UFRJ)


(1) Matérias de 16/02/2010:

(2) Matérias de 20/01/2008:

(3) Matéria de 20/01/2010:

(4) Matéria de 20/10/2008:

(5) Matéria de 15/10/2009:

(6) Matéria de 07/02/2010:

(7) Luta Mulher, de Vivian Machado Dutra:

(8) Mulher, Mulher, Mulher (idéia fixa), de Neguinho da Beija-Flor e Murilo Rayol.