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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

É hora de debutar*

Acordei nesse domingo 1 de agosto com uma sensação de bons fluidos para a Estrela Solitária no Brasileirão. Tal como antes do jogo contra o São Paulo, antes da Copa do Mundo, eram comentados os tabus do Botafogo no Barradão, estádio do time baiano rubro-negro. E contra rubro-negros... Sou mais o Fogão! Já contabilizavam oito jogos e setenta dias desde a última vitória: 3 x 0 contra o Goiás, no Engenhão (eu estava lá...), em que o hermano e o xodó trocaram farpas e foram expulsos (é, há coisas que só acontecem ao Botafogo!).

Na semana que passou, há situações importantes que fornecem novo gás para iniciar uma ascensão nesse campeonato. O retorno de El Loco Abreu para os treinos; a merecida convocação de Jefferson para a Seleção Brasileira(1); e enfim a estréia de nosso Mago Maicossuel. Diferentemente de outras edições recentes, em que nossa confiança no título ou numa vaga na Libertadores era forte, nas quais o Botafogo disparou e foi caindo na tabela, em 2010 a situação aparenta se inverter. Começamos relativamente bem, caímos drasticamente e ontem certamente começamos a nos reerguer.

Depois de jogar com bastante garra mas desperdiçar diversas oportunidades contra o tricolor carioca, garantindo o terceiro empate em seguida, havia dois caminhos possíveis: de um lado, acumular o jejum sem vitórias e permanecer na zona da degola; do outro, trazer três pontos da Bahia, subir posições e ficar invicto há quatro rodadas. Mais complicado que o time misto do Vitória, fora a péssima condição do gramado, que fez o primeiro tempo parecer uma pelada de péssimo nível sendo transmitida em rede nacional.

Herrera não estava em um bom dia e Lucio Flávio será um bom reserva para as próximas rodadas. Joel demonstrou estrela ao retirá-los e lançar Edno e Caio. Como Maicossuel ainda está fora de ritmo, considerava prudente a entrada de Renato Cajá em seu lugar. Não me recordava da contratação dele, mas considero um acerto e que terá chances de ser titular: discreta, mas precisa foi a atuação de Marcelo Mattos. Tal quadro mudou significativamente a postura do time em campo. Não tenho dúvidas do nome do jogo, que não parou de correr um só minuto e demonstrar ousadia, partindo para cima, tentando driblar, arriscando chutes e cruzamentos com as duas pernas: Jobson!

Cercado por três, segurou a bola até fornecer precioso passe para Edno enfim marcar seu gol (porque contra o Fluminense foi de mentirinha). Esse gol nem deu tempo pra comemorar. Em mais uma bobeada do time, cruzamento pela esquerda para cabeceio e gol de empate do Vitória. À tona vieram filmes de empates e viradas já desse Brasileiro (já que há coisas que só acontecem ao Botafogo!), como contra o Corinthians e o Atlético-PR. Mas o Vitória também não teve tempo para comemorar, porque em mais uma tentativa errada – que deu certo – do limitado Marcelo Cordeiro, lá estava ele, o cara do jogo para empurrar para as redes: Jobson! Antes do apito final, ainda teve tempo para Marcelo Mattos realizar um ótimo lançamento para ele, Jobson, driblar e chutar para as redes novamente. Merecida vitória do Fogão! 3 x 1! Ótima atuação e reviravolta de Jobson Leandro Pereira de Oliveira. Comemorações com direito às dancinhas coreografadas, ao estilo garotos da Vila. Também alvinegros, estão ascendendo os rapazes de General Severiano.

Jobson estivera com tudo acertado para estar no Cruzeiro, mas foi suspenso por problemas de doping no final de 2009. Ironias do destino (há coisas que... rs), a negociação com o clube mineiro foi interrompida e Jobson não pôde jogar até 18 de junho. Enquanto era “leiloado” por seus empresários, reclamou com atitude: “Tem horas que fico muito triste, porque ficam me leiloando e eu não sou vaca!”(2). Tal situação constrangedora relatada pelo atacante é cada vez mais rotineira e lucrativa para poucos nas relações mercantis e de propriedade privada dos passes por parte do empresariado, pois nessa sociedade tudo se desumaniza e se transforma em mercadoria (não só as vacas, Jobson!). Em sua entrevista para a página do Botafogo:

“Meu sentimento agora está assim: o Botafogo tem uma estrela solitária e ela está no meu coração também. Fico muito feliz em retornar. Espero voltar com tudo. Tenho uma história no Botafogo, quero dar continuidade, jogar muito bem e ajudar o clube"

“É o recomeço no Botafogo, finalmente estou de volta, mas tenho muito pela frente".(3)

Sim, o primeiro Domingo de agosto tem tudo para ser um marco, um recomeço e apresentar novos dias para o Fogão nesse Campeonato Brasileiro. Continuando dessa maneira, Jobson terá mesmo muito pela frente e poderá fazer companhia a Jefferson com a amarelinha. E pode avançar ainda mais questionando os leilões de jogadores e o futebol a serviço da ordem ao passo que retoma a alegria dos dribles e belas jogadas.

Por fim... Já que falamos em tabus a ser quebrados, eu escolho o meu: faz 15 anos que comemoramos nosso título nessa competição. É hora de debutar!


*Gabriel Rodrigues Daumas Marques
Botafoguense desde 30/05/1985


(1) Já defendia a convocação dele para a Copa do Mundo na África do Sul, mas o técnico era o Dunga... http://alemdotrivial.blogspot.com/2010/05/dunga-e-selecao-ah-nao-deu-burro.html

(2) “Indefinição irrita Jobson: 'Ficam me leiloando, e não sou vaca'”. 10 de junho de 2010. Disponível em http://globoesporte.globo.com/futebol/brasileirao-serie-a/noticia/2010/06/indefinicao-irrita-jobson-ficam-me-leiloando-e-nao-sou-vaca.html

(3) “Com a Estrela Solitária no coração: Jobson comemora retorno para o Botafogo e agradece à torcida alvinegra”. Por Danilo Santos. Disponível em http://bfr.com.br

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Dunga e a Seleção Ah-NÃO: deu Burro*

No início dos anos 1990, era aluno da Escolinha de Futsal do Sport Club Mackenzie, no Méier, com o Professor Nelsinho. Na hora de escolher as camisas, era sempre uma correria, uma imensa disputa pela 11 do Romário e pela 7 do Bebeto. Por fora ficavam a 10 de Raí e a 1 de Taffarel, para os goleiros. Nesse tempo já começava a questionar algumas coisas e nunca participava dessas disputas; geralmente, era o único camisa 8. Camisa 8 do capitão Dunga.

Creio que a Copa do Mundo que mais acompanhei e torci foi a de 1994, assistindo aos jogos na vila onde morava, batucando, gritando, comendo churrasco e suando frio a cada cobrança de pênalti na final contra a Itália. Fomos tetra. Em 1998, a decepção na Final, “recompensada” pelo pentacampeonato quatro anos depois; este, por sua vez, seguido por nova decepção em 2006. Majoritariamente, a busca pelo resultado vem superando a criatividade, o abuso, a molecagem. Também cada vez mais fica evidenciada a íntima relação entre gigantescos investimentos financeiros de patrocinadores e os resultados do futebol.

Não sou daqueles professores de Educação Física que defendem ser o futebol propriedade privada da nossa área e entendo que a busca pelo conhecimento pode acontecer além da Universidade. Certamente muitos ex-jogadores têm mais condições de ser técnicos de futebol do que eu. Todavia, fiquei surpreso com uma ascensão meteórica do capitão do tetra. Seu primeiro cargo: técnico da Seleção mais vezes campeã do mundo! Pareceu-me mais uma das artimanhas maquiavélicas da Confederação Brasileira de Futebol, sob o comando coronelístico – neologismo? – de Ricardo Teixeira e seus asseclas.

O capitão já não é mais o mesmo, nem ocupa o mesmo papel. Assim como, de minha parte, já não é o mesmo sentimento nacionalista, ufanista de não desistir nunca e ficar na torcida de verde e amarelo pelo hexa. É hoje muito mais perceptível a importância desses mega-eventos esportivos para auxiliar o processo de manutenção da ordem estabelecida. Em diversos momentos acompanhamos comemorações de títulos em que jamais tocaremos a taça, enquanto a ideologia e a repressão dominantes, ah, essas sim nos tocam, nos jogam contra a parede, configurando ditaduras, como na década de 1970; governos neoliberais, como nos anos 1990; e agora governos burgueses mascarados de esquerda.

Já pensava em não torcer para o país sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, que constrói estádios, monumentos e faz empresas e bancos lucrarem, ao passo que o desemprego aumenta, crianças passam fome e se prostituem e a barbárie se dissemina. Na terça-feira, enquanto a lista de Dunga era anunciada, lecionava para o 6º ano em Rio das Ostras. Dois alunos, de idade próxima à minha em 1994, vieram me pedir para deixar o rádio ligado na hora da entrevista coletiva. Recordei-me da época que tinha 9 anos e torcer era divertido e fácil. Mas é preciso irmos além do trivial.

As piadas já estão rolando solta. Dunga encampou a campanha contra as drogas: craque nem pensar! Não deu Ganso, nem Pato: deu Burro! Não bastasse a alcunha do técnico, ratifica-se a Seleção Ah-NÃO. Doni? Ah-não! Gomes? Ah-não! Gilberto Silva? Ah-não! Josué? Felipe Melo? Kleberson? Ramires? Ah-não... Uma convocação repleta de jogadores que hoje são reservas em seus clubes, jogadores que, nos tempos atuais, inclusive, saem das terras tupiniquins rumo aos ares europeus. De positivo, deixar o “Imperador” de fora e colocar a forma alotrópica do diamante foi um grande acerto.

Todos somos sim um pouco de técnicos. Talvez por pensar o futebol não apenas como uma competição, mas como uma arte, uma alegria de jogar, de driblar, de fazer gols, de dançar, de comemorar, defenda a seleção menos pragmática e burocrática, que visa apenas o resultado. Por isso gostaria de ver na seleção de hoje aqueles que têm apresentado esse futebol, como Ronaldinho, Ganso e Neymar. No gol, Jefferson está muito melhor que os dois possíveis reservas e ter alguém do Botafogo na Seleção é bem mais interessante.

Pode até ser que o Brasil alcance o hexa, dependendo da correlação de forças e dos interesses políticos presentes atualmente na FIFA. Mas será difícil essa seleção conquistar significativa simpatia e causar alegrias e risos como boas piadas ao longo dos jogos. E eu, hoje? Não me orgulharia de pedir a camisa 8.


*Gabriel Rodrigues Daumas Marques
Anti-FIFA, Anti-CBF e Anti-Burrice