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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Pra seguir mudando? Que nossos sonhos transcendam as urnas!*


Estamos a alguns dias do segundo turno das eleições parlamentares de 2010, onde nacionalmente o país optará entre a candidata petista Dilma Rousseff e o candidato tucano José Serra para presidi-lo entre os anos de 2011 e 2014. 2014, ano em que novamente ocorrerá uma Copa do Mundo em solo brasileiro após 64 anos, evento certamente bastante comemorado por consórcios de empresas e empreiteiras que lucrarão com as obras e reformas. Quanto será que estas investiram em campanhas de candidatos nessas eleições?

            Ontem à noite, organizado pela Rede Bandeirantes, ocorreu o primeiro debate entre os presidenciáveis que restaram e pretendo traçar algumas linhas que avancem além do trivial e do simplismo com que Serra e Dilma polarizaram. O verbo ‘polarizar’ é totalmente inadequado, já que os programas políticos apresentados por PT e PSDB assim como suas práticas atualmente não divergem.

            Enquanto Serra denunciava a ocorrência de onze arrastões no Rio de Janeiro, Dilma retrucava usando as rebeliões de São Paulo. Parecia até uma disputa bairrista em determinados momentos. Mas vamos comentar sobre a (in)Segurança no país. Já li uma frase aproximadamente assim: “metade da população do mundo não come; outra metade não dorme, com medo da que não come”. Como os candidatos poderiam explicar e comentar as maneiras por meio das quais acabariam com a violência, os homicídios e a criminalidade se os mesmos estão comprometidos exatamente com o alicerce que origina e multiplica esses problemas? É só ladainha e tró-ló-ló! A falsa solução das Unidades de Polícia Pacificadora é alardeada como bem-sucedida no Rio de Janeiro e é apresentada como política de Governo petista Brasil afora, enquanto o tucanato burocraticamente apresenta a criação de um Ministério da Segurança Pública. Enquanto estiverem mantidas as propriedades privadas dos meios de produção nas mãos de poucos, sendo fabricada comida suficiente para alimentar bem mais pessoas do que as existentes na Terra, mas não podendo ser comprada e consequentemente consumida, teremos violência!  

            As miúdas diferenças entre Serra e Dilma era trocadas por meio de farpas e provocações baratas. O tucano dizia que o PT é duas caras; a réplica da fantoche de Lula cutucava ao afirmar que Serra é 1000 caras. Parece até piada, mas Dilma esbravejou que o pré-sal é uma riqueza do povo brasileiro e Serra resgatou seu passado enquanto líder estudantil pela UNE para explicitar que lutou pelo fortalecimento da Petrobrás. E foi além, afirmando que como presidente irá reestatizar os Correios, fortalecer o BNDES e a Petrobrás, diminuindo as terceirizações e os cargos por indicações políticas. No que diz respeito às privatizações, foi uma grande tergiversação! Serra não respondia sobre a Vale do Rio Doce e a Petrobrax; e Dilma ignorava as privatizações de bancos e saneamento básico realizadas em governos petistas, assim como as ações do Banco do Brasil na Bolsa de Nova York. Tergiversar que foi o verbo preferido da ex-ministra chefe da Casa Civil, estando nos TTs do twitter. Apesar da erudição do verbo, por várias vezes a língua portuguesa foi jogada para as calendas, como o “nem tampouco”. A disputa pela medalha de ouro apresentada é: qual deles é mais neoliberal? Qual dos governos apresenta maior serventia para a manutenção da ordem capitalista? Qual dos candidatos melhor representa a gestão do Estado burguês?

            Com a ausência dos demais candidatos que estavam no primeiro turno, o tema da Educação nem apareceu com ênfase, apenas a promessa leviana de que vai se investir da creche à pós-graduação e blá-blá-blá. Por que o veto aos 7% do Produto Interno Bruto (PIB) para a Educação feito por Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi mantido por Luis Inácio Lula da Silva (PT)? Porque ambos estão comprometidos com os setores privatistas! Enquanto Serra atacou os profissionais da Educação em greve em São Paulo, Lula chantageou as Reitorias por todo o país para impor goela abaixo das Instituições Federais de Ensino Superior o REUNI. Nos próximos anos, começaremos a sentir mais claramente os efeitos dessa expansão e interiorização sem os recursos necessários. Vale destacar que Lula e PT usaram força policial e aparato institucional para impor esse modelo de Universidade que não serve à classe trabalhadora!

            Nada mais inusitado que o dia 31 de outubro para escolher entre Dilma Serra e José Rousseff! Dia d@s Brux@s. Ambas as propostas de governo defendem interesses de empresários, banqueiros e latifundiários. PT e PSDB, atualmente, são faces opostas da mesma moeda de um centavo: não valem nada para a classe trabalhadora! Uma tristeza ouvir um ritmo tão bacana quanto o forró ser usado nos jingles neoliberais...

            Depois de ter ajudado a construir, com muita energia, na minha primeira eleição em 2002, a vitória da esperança sobre o medo, acompanhei o Governo Lula/PT aprovar uma Reforma da Previdência prejudicial aos trabalhadores, impor de maneira fatiada uma Reforma Universitária que retrocede as conquistas da Educação Pública, se envolver em escândalos de corrupção, enviar tropas brasileiras em consonância com o imperialismo estadunidense para explorar e oprimir a população trabalhadora haitiana, aliar-se a Collor, Sarney e Renan Calheiros etc. Ao longo desses 8 anos, Lula se transformou no “cara”, roubando a denominação de Romário, que agora estará na base aliada do PT no Congresso Nacional. Em tempos de crescimento da economia brasileira, Lula propiciou lucros exorbitantes para os banqueiros; comprou a classe média com redução de IPI e meia-dúzia de concursos públicos; e amansou os setores mais pauperizados com políticas compensatórias como o Bolsa-Família. Obteve sucesso ao impedir o crescimento de mobilizações, pois possuía como seus sustentáculos de apoio no seio dos Movimentos Sociais a Central Única dos Trabalhadores e a União Nacional dos Estudantes. Cumpriu fielmente o papel de marionete da burguesia internacionalmente e como prêmio trouxe os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo para o Brasil.

            Na minha caracterização, tudo leva à vitória de Dilma, conduzida pela marola de popularidade lulista após mais uma crise cíclica do sistema capitalista, na qual a mídia alardeia que o Brasil saiu-se muito bem. Apenas um escândalo catastrófico tira a vitória da petista como primeira mulher presidente do país, que apóia candidatos como o agressor de mulheres Netinho de Paula e se recusa a defender publicamente a descriminalização do aborto e sua legalização. Pra seguir mudando? Como se os 8 anos de Lula tivessem modificado os rumos dos 8 anos de FHC ou os anos anteriores de Itamar, Collor e Sarney. A concentração de riquezas permanece e a barbárie é sentida pela maioria da população, com péssimas condições de acesso à Saúde e à Educação, sofrendo com a falta de saneamento básico e o excesso de violência. Talvez a única mudança mais profunda tenha sido a troca de um estilista por um palhaço como o mais votado para a Câmara dos Deputados!

            No dia 31 de outubro, nada mais coerente e significativo para a classe trabalhadora do que anular o seu voto, negando as candidaturas de Serra e Dilma, que são exímios representantes da burguesia e que não servem aos nossos interesses. Nossos sonhos não cabem nas urnas e se quisermos uma efetiva mudança, precisamos construir o Partido Revolucionário e operar a transformação sonhada e possível de ser materializada: uma sociedade sem classes; onde não haja mais direitos sem deveres tampouco deveres sem direitos!

*Gabriel Rodrigues Daumas Marques
Militante do Coletivo Marxista e Professor de Educação Física

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Construindo a Unidade Proletária - Tese para o Congresso da Classe Trabalhadora

Segue abaixo uma síntese da tese para o Congresso da Classe Trabalhadora, reivindicada pelo Coletivo Marxista e assinada pelos Movimentos Sindicalismo Militante, Universidade Crítica e Quem Vem Com Tudo Não Cansa.




CONSTRUINDO A UNIDADE PROLETÁRIA

Síntese da Tese para o Congresso da Classe Trabalhadora
Versão completa disponível em
http://coletivomarxista.blogspot.com/2010/04/construindo-unidade-proletaria.html

Assinam:

Movimento Sindicalismo Militante
atuação no SEPE-RJ

Movimento Universidade Crítica
atuação no movimento docente ensino superior

Movimento Quem Vem Com Tudo Não Cansa
minoria DCE-UFRJ

Nos dias 5 e 6 de junho de 2010, ocorrerá em Santos-SP o Congresso da Classe Trabalhadora, parte e conseqüência de um processo de reorganização no movimento social em nosso país e que potencialmente se apresenta enquanto um marco para o avanço de nossas lutas e consolidação de alternativas para a classe trabalhadora brasileira.

Conforme Karl Marx já demonstrara, é inerente ao sistema capitalista a ocorrência de diminuição tendencial dos lucros, queda de salários e miserabilização das massas. Quase oito décadas após a crise de 1929, uma crise econômica mundial e de grandes proporções coloca em xeque o sistema do capital, com os Estados Unidos da América no epicentro, afetando o sistema financeiro mundial e provocando recessões nas grandes economias européias. Enquanto bilhões de dólares são injetados para auxiliar banqueiros e patrões, para os trabalhadores a situação é diferente e contínua: desemprego, diminuição de salários, direitos e pensões, precarização da Saúde e da Educação públicas.

Dos BRICs aos PIIGS, as trocas de siglas são feitas nos noticiários econômicos e políticos, enquanto a crise econômica iniciada em 2007 ameaça converter-se em crise fiscal. De forma dinâmica, o continente asiático emerge como centro econômico mundial, competindo o poder mundial com os EUA, cujo governo Obama prossegue o crescimento por meio do império militar na suposta “guerra contra o terror”.

Situamo-nos numa conjuntura dramática: milhares de trabalhadores dizimados, assassinados impunemente, em toda sorte de catástrofes naturais e políticas, como recentemente observadas no Haiti, no Chile, na Palestina, no Iraque, no Afeganistão, na Colômbia, no Sri Lanka etc. Ao invés de enfrentamento direto e explícita luta de classes, ocorrem showmícios e ajudas pretensamente humanitárias. A última etapa “do breve século XX”, marcada pelo fim do socialismo real com a queda do Muro de Berlim em 1989, faz recuar a esquerda, fertiliza a hegemonia estadunidense e inaugura o pensamento único neoliberal. A América Latina, subjugada, ainda busca sua real independência; todavia, o resultado do receituário econômico do Fundo Monetário Internacional é a crescente miserabilização das massas, escalada desenfreada da violência rumo à barbárie, lucros exorbitantes para o capital financeiro e enorme concentração de renda.

Lula é eleito no país num cenário de ataques às conquistas dos trabalhadores, iniciado por Collor e Fernando Henrique Cardoso. Quando o neoliberalismo começa a apresentar sinais de desgaste, cabe a um líder operário o aprofundamento e institucionalização do projeto neoliberal, conseguindo, com maior eficiência que os governantes anteriores, implantar as reformas necessárias à sobrevida do capital. Tal quadro é favorecido por ancorar-se num líder sindical enquanto presidente e em partido e entidades com significativo poder de representação – PT, CUT e UNE – que dificultam a retomada das lutas. Os escândalos de corrupção são outra faceta do projeto neoliberal; entretanto, a aceitação do governo é mantida alta graças aos programas assistencialistas, apoio do capital financeiro e bom desempenho econômico sob a ótica burguesa.

Considerado “o cara” por Obama, Lula é considerado herói por “salvar o país da crise”, escamoteando-se os ataques aos trabalhadores para sustentar o repasse de quantias do dinheiro público para empresários e banqueiros. Sabemos que a crise não foi superada. Sabemos igualmente que a sociedade capitalista é marcada e movida por conflitos de interesses entre trabalhadores e burgueses. Portanto, tais ataques se tornam mais fáceis diante da fragilidade da contraposição organizada da classe trabalhadora, num contexto de exaltação do individualismo e limitadas denúncias concretas contra Lula/PT.

Equivocadamente, o setor majoritário da esquerda anti-governista – PSTU e PSOL – ignorou nas manifestações e lutas o Governo que concretamente representa ricos e empresários, “unitariamente” esteve com CUT, UNE, CTB e outras entidades pelegas, enquanto Lula conseguiu dirigir uma recuperação parcial da crise e ser poupado da figura de inimigo da classe. É preciso um balanço sério e comprometido desse processo de lutas, pois não é possível depositarmos esperanças de que Lula se colocasse ao lado dos trabalhadores.

PT, Lula, CUT e UNE traem a classe trabalhadora! O PT se transformou em um partido burguês a serviço do capital ao passo que privilegia a via parlamentar; a CUT se converte em aparato governista após a ascensão de Lula, freando mobilizações e legitimando o governo e suas políticas. Hoje, a derrota do governo passa necessariamente pela derrota da CUT. Com isso, o debate sobre a reorganização dos trabalhadores em nosso país passa pela definição do caráter e do conteúdo das lutas que precisamos travar contra o capital e seus agentes.

Em 2004, em grande Encontro Nacional, foi criada a Coordenação Nacional de Lutas – CONLUTAS, que possibilitou em grande parte a reorganização da esquerda brasileira. Situamo-nos num período em que o velho não serve mais e abre espaço para o surgimento do novo, novo este que está para ser criado sobre os escombros do velho. Precisamos erguê-lo a partir de uma caracterização precisa do estágio em que se encontram as lutas de classe a nível mundial e nacional, do nível de organicidade em que a classe trabalhadora se encontra e principalmente por onde passam as possibilidades de avanço. Em 2008, no primeiro Congresso da CONLUTAS, o PSTU – setor majoritário – optou pela agitação esvaziada da construção da “unidade”, esvaziando o papel político da CONLUTAS como instrumento de lutas.

A unidade, que certamente defendemos, só é possível quando o movimento torna-se capaz de identificar objetivos comuns e traça ações unificadas para alcançá-los. Se Lula e seus aliados se encontram do outro lado, não é possível a construção de “unidade” com os que nos traíram e defendem o oposto de nós! É no combate à CUT e ao Governo que poderemos nos consolidar enquanto alternativa e fazer avançar a consciência da classe trabalhadora.

A construção de uma nova central necessita de discussões acerca do conteúdo dos debates, realizando um comprometido balanço das experiências de reorganização e uma análise rigorosa da realidade sobre a qual intervimos. Diante disso, a centralidade passa por um debate de programa e estratégia desse novo instrumento, hierarquizado pelos interesses históricos dos trabalhadores. A construção de uma nova central deve adotar um programa classista, jamais vaga ou abstrato, que coloque o capital como um fantasma, sem cara nem nome. É preciso identificar quem são os responsáveis pela implantação, manutenção e aprofundamento dos interesses capitalistas, construindo, portanto, um programa anti-capitalista e anti-governista. Seria um grande retrocesso a “coexistência pacífica” com a CUT; precisamos abandoná-la e destruí-la como referência para o proletariado.

Precisamos realizar uma análise concreta da realidade concreta. No Brasil, não vivemos atualmente um momento de unificação das lutas de classe. Esse é um desejo dos lutadores e lutadoras. Porém, apenas um desejo não basta! Apontamos a necessidade de uma nova central sindical de trabalhadores e de uma nova entidade de representação estudantil. A herança da unidade operário-estudantil deve ser resgatada, atuando em unidade contra o capital. O movimento sindical deve possuir uma central forte, consolidada, que em seus fóruns discuta conjuntamente com o Movimento Estudantil e/ou com o Movimento Popular. A participação de demais segmentos nos fóruns da central não substitui a construção de organizações de classe e categoria, capazes de atender às necessidades específicas de cada movimento, fazendo avançar os níveis de consciência e rumando a uma real unificação.


Resoluções

Programa e estratégia da nova central
O Congresso Nacional da Classe Trabalhadora resolve:

- Que a nova central deve adotar um programa classista, que coloque em primeiro lugar as lutas dos trabalhadores e sua independência de classe em seu enfrentamento aos ataques do capital.
- Que a nova central deve adotar um programa anti-capitalista e, na atual conjuntura, anti-governista.
- Que o programa da nova central deve ser princípio norteador para a construção da luta concreta, diária, para a construção de mobilizações e pautas de reivindicação.
- Que, programaticamente, a nova central entende a desconstrução do governo Lula e seus aparatos no movimento social como representantes da classe trabalhadora uma condição para avançar no nível de consciência dos trabalhadores e, portanto, eixo constitutivo das lutas a serem construídas.
- Que a nova central deve se pautar pro um marco claro de ruptura com a CUT e demais aparatos do governo no movimento social.
- Que a nova central, programaticamente, defende a unidade da classe trabalhadora tendo como princípio a independência de classe.

Caráter da nova central
O Congresso Nacional da Classe Trabalhadora resolve:

- Que a nova central deve ser uma central sindical de trabalhadores e agregar, em seus fóruns, delegações estudantis e de movimentos populares (organizadas por suas respectivas entidades e centrais) para discussão dos pontos de atuação unitária.

Plano de Lutas
O Congresso Nacional da Classe Trabalhadora resolve:

- Aprovar um plano unificado de lutas pautado pelos seguintes itens:
* contra as reformas neoliberais do governo Lula/PT, defender todos os direitos;
* mais verbas para saúde, educação, políticas de trabalho, moradia e transporte públicos;
* reestatização das empresas privatizadas; reestatização da Petrobrás, petróleo 100% estatal;
* participação ativa nas campanhas salariais das diversas categoriais, defendendo os direitos e salários dos trabalhadores;
* pelo fim do superávit primário e pelo rompimento com o FMI;
* contra a criminalização dos movimentos sociais; entre outros.

Concepção e estrutura sindical: o funcionamento da nova central
O Congresso Nacional da Classe Trabalhadora resolve:

- Que a nova central deve desenvolver mecanismos e instrumentos que assegurem a mais ampla participação e controle dos trabalhadores sobre a entidade, através do fortalecimento dos fóruns de base, da garantia de participação dos trabalhadores em todos os organismos e da valorização das representações diretas dos trabalhadores.
- Eleger uma coordenação para a nova central, composta pelos sindicatos da classe trabalhadora. Os sindicatos devem enviar suas representações diretamente à coordenação, e essas representações devem ser eleitas ou indicadas em fóruns de base de cada uma das entidades. A coordenação da nova central deve realizar amplas reuniões nacionais a cada dois meses e, além de encaminhar as atividades da central, planos de lutas e ações, deve se ocupar da construção do primeiro congresso da nova central, que elegerá sua direção.

domingo, 1 de novembro de 2009

Grêmio Estudantil

Em setembro de 2007, uma amiga, estudante da Universidade Celso Lisboa, me entrevistou para um trabalho sobre Grêmio Estudantil. Trago abaixo um pouco da experiência que tive, participando entre 2000 e 2002 do Grêmio do Colégio Pedro II – Unidade Escolar Engenho Novo II, oportunidade que me propiciou imenso crescimento pessoal, político, acadêmico e intelectual. Ao lado, uma reportagem publicada pelo Jornal EXTRA, em 2001, durante uma das grandes greves dos funcionários públicos federais contra o Governo Fernando Henrique Cardoso/PSDB. Nessa época, fui membro do Comando de Greve do CPII.










1. Como surgiu a idéia ou o interesse de participar de um Grêmio?

Era estudante do Colégio Pedro II, quando tive contato com a entidade Grêmio. Ingressei na instituição em 1996, na 5ª série do Ensino Fundamental. Um ano depois, tivemos uma eleição para a disputa do Grêmio, que era organizada pelo Setor de Orientação Educacional (SOE) do Colégio. Duas meninas que eu conhecia eram de uma das chapas e acabei votando na mesma. A gestão deles acabou realizando umas festinhas e nada mais, com algum tempo depois minguando e desmobilizando, até ficarmos mais um tempo sem diretoria. Como já vinha de uma formação crítica, já que meu pai é professor da rede pública de ensino, conhecia a dinâmica de greves, passeatas e necessidade de organização para reivindicações. Em 2000, o SOE novamente, sob pressão de alguns estudantes, abriu processo eleitoral para a disputa do Grêmio da Unidade onde eu estudava. Foi aí que aconteceram algumas situações interessantes. Uma das chapas, bastante politizada, estava sendo organizada por um colega com quem havia estudado na 6ª série e um outro menino do turno da noite que eu não conhecia, além de outras pessoas bastante inteligentes e dedicadas no Colégio. Durante o recreio, sempre ia conversar com ele sobre as propostas. Não entrei na chapa, mas iria apoiar. O mais atípico foi a inscrição de 8 chapas para a disputa do pleito. A chapa deles (7 – Atitude) foi a vencedora, com cerca de 450 votos. Porém, como a chapa era bastante crítica, na hora da contagem de votos e assinaturas, houve uma diferença de cédulas em relação à quantidade de assinaturas, sendo a eleição anulada pelo SOE, que teve uma atuação bastante complicada. Logo numa atitude oportunista, puxaram novo processo eleitoral, aumentando a quantidade da diretoria de 11 pessoas com a entrada de 6 suplentes. Com isso, as 7 demais chapas se juntaram para poder vencer a Atitude e impossibilitar um Grêmio mais politizado, crítico e atuante. Como durante a campanha anterior, havia inclusive passado em sala, distribuído panfletos e ajudado bastante, me convidaram para entrar como suplente na chapa Atitude. Prontamente, aceitei, até mesmo porque, com 15 anos, achava o máximo passar em sala, conversar com a galera e “ser do Grêmio” seria popular e conhecido. Nossa chapa, mesmo com todas as dificuldades, venceu com quase 800 votos a pouco mais de 500, chegando ao final do ano 2000.

2- Quais foram as idéias propostas por sua chapa? Essas idéias foram realizadas?

Além das questões básicas de representação perante a instituição e externamente, propusemos diversos pontos para integrar o alunado, bem como realizar eventos que pudessem identificar o Grêmio enquanto entidade representativa. Conseguimos, arrecadando dinheiro através de pedágio durante as férias, construir uma rádio com sistema de som, que funcionava durante os horários do recreio; realizamos oito edições do Jornal, informativo e com textos críticos, poesias, além dos torpedos que faziam o maior sucesso entre os estudantes; apoiamos iniciativas de organização dos alunos, como o teatro que acontecia; mobilizamos para as lutas e atividades em defesa da manutenção do passe livre, direito que os empresários de ônibus constantemente ameaçam retirar. Acho que a única coisa que não cumprimos mesmo foi a realização de uma Festa, embora tenhamos feito dois Saraus Culturais. Porém, o ponto alto da gestão Atitude foi durante a Greve dos Servidores Públicos Federais em 2001. Foi ali que demos um salto de qualidade enorme, participando do Comando de Greve e realizando mobilizações e atividades nunca antes vistas e tocadas pelo Grêmio Estudantil do Colégio Pedro II – Engenho Novo. Estivemos presentes em todas as Assembléias do SINDSCOPE (Sindicato que representa os funcionários e professores do Colégio), participamos dos Atos Públicos, falamos em carro de som, bem como organizamos 10 Assembléias dos Estudantes antes, durante e depois da Greve para votarmos qual era nosso posicionamento em relação à greve. Fizemos uma Assembléia que reuniu quase 300 pessoas, em que alguns pais tiveram que se mobilizar para nos enfrentar e retirar o apoio do Grêmio à greve. Teve uma atividade que fui falar em defesa da greve que um pai queria me agredir e outras duas mães gritavam apontando na minha direção; comecei a chorar, fui beber água, mas voltei para terminar minha fala e ser aplaudido por diversas outras pessoas. Acho que conseguimos cumprir o nosso papel, que terminou no início de 2002, com a vitória da chapa que apoiamos para seguir o trabalho, fato que infelizmente não ocorreu.

3- O que você acha dos movimentos estudantis? Você já participou de algum? (Se sim) Isso trouxe alguma mudança para instituição?

Organização é algo fundamental em nossas vidas, principalmente no que tange ao coletivo. Em sala de aula, os estudantes se organizam para um trabalho em grupo, para ir às festas ou passeios... Porém, mais importante ainda é o fato de termos problemas em comum e juntarmos nossas forças para resolvê-los de maneira unificada e organizada. Aí entra a tarefa do Movimento Estudantil e de suas entidades, como Grêmios, no caso dos colégios, e Centros e Diretórios Acadêmicos, no caso das faculdades. Conforme as perguntas iniciais, comecei a participar em 2000, no Grêmio do CPII-EN e tive algum contato com os Grêmios do CEFET e do CPII-Tijuca, onde fiz cursos técnicos. Depois, entrei para o curso de Licenciatura em Educação Física na UFRJ, participando do Centro Acadêmico de Educação Física e Dança entre 2003 e 2007, bem como atuando no Movimento Estudantil de área, participando de diversos eventos regionais e nacionais da Executiva Nacional de Estudantes de Educação Física. Também no Movimento Estudantil Geral, participo da CONLUTE, que falarei mais adiante. Sim, várias mudanças foram geradas a partir dessa organização. Lembro que depois da Greve, no CPII-EN, conseguimos realizar uma manifestação com mais de 300 pessoas na porta do Colégio, aumentar a leitura e a participação dos estudantes etc. Na UFRJ, idem: não tínhamos nem uma sala para o Centro Acadêmico (CA), e hoje temos uma estrutura com freezer, dois micro-ondas, ar condicionado, aparelho de som; realizamos mais de 20 edições de O DARDO (jornalzinho com críticas, textos e informes); fizemos diversas festas e atividades culturais de integração dos estudantes. Enfim, há uma imagem equivocada e estereotipada sobre os estudantes de Educação Física, que pude contrapor logo ao ingressar no curso e perceber a grande capacidade e poder de mobilização que conseguimos ao longo desses anos.

4- Quando surgiram os movimentos estudantis, havia muito preconceito por parte da sociedade, hoje em dia, ainda existe esse tipo de preconceito?

Essa questão é intrigante. É preciso irmos a fundo no significado e na importância dos movimentos de resistência e de luta. Não que seja preconceito, mas temos que entender como os valores ideológicos aos quais estamos submetidos influenciam no pensamento hegemônico da sociedade. Vivenciamos a época de implementação do neoliberalismo, cujos valores ressaltam a individualidade, o egoísmo, o “olhar para o próprio umbigo”, “cada um por si e Deus por todos” etc. Quando surge algo que vai de encontro a esses princípios, necessariamente enfrenta esses valores, e mais ainda, luta contra a ordem social estabelecida. Ou seja, por conta de vivermos em uma sociedade de desigualdades sociais, com uma parcela significativa da sociedade sofrendo mazelas como fome, miséria e desemprego, e uma pequeníssima parcela se esbaldando em ouro e caviar, nitidamente temos um confronto de interesses totalmente antagônicos. Esses problemas não são individuais, mas de toda a estrutura da sociedade. O Movimento Estudantil, ao lutar por mais verbas para a educação (em detrimento de pagamento a empresários, latifundiários e banqueiros), por passe livre, por gratuidade do ensino etc., enfrenta esse modelo. Por conseguinte, como o pensamento vigente defende a manutenção do status quo e tem na mídia um grande alicerce, os movimentos sociais são atacados de diversas maneiras, para que não enxerguemos neles sua grande importância e necessidade para modificarmos a estrutura social vigente.

5- O que você acha dos movimentos estudantis da UNE?

A UNE... Ah, a UNE. Vamos lá: desde a década de 1990, essa entidade que existe há cerca de 70 anos, tocou lutas contra a Ditadura Militar, organizou os estudantes para campanhas como a dO Petróleo é Nosso, ficou clandestina durante alguns anos etc., vem sistematicamente se afastando do dia-a-dia dos estudantes. De uns tempos para cá, a UNE (bem como a União Estadual dos Estudantes, a Associação Muncipal dos Estudantes Secundaristas e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) se transformou em uma fábrica de carteirinhas (tentando inclusive monopolizar o direito da meia entrada) e só aparece nas escolas e faculdades do país durante época de eleições ou quando surge algum tipo de interesse a sua política. Durante o Governo fhc, mesmo distante dos estudantes, ainda tínhamos uma atuação de enfrentamento. Porém, a situação se modifica após a entrada de Lula/PT para governar o país. Apesar de toda a esperança depositada nesse Governo (inclusive fiz campanha em 2002, mesmo nunca sendo do PT ou de qualquer outro partido), diversos ataques neoliberais continuam sendo implementados. E a especificidade de Lula/PT é sua estreita ligação com os Movimentos Sociais, como a UNE, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o próprio MST. Essa ligação facilitou a realização desses ataques aos trabalhadores e à juventude de nosso país, pois a UNE e a CUT têm sido instrumentos de apoio do Governo inseridos na base dos Movimentos Sociais, freando as possíveis lutas que possam surgir e desencadear processos de mobilizações. O grupo que dirige a UNE conseguiu criar uma estrutura para se manter add eternum no poder da entidade, realizando fraudes, diminuindo as discussões etc. Com isso, a situação da UNE hoje é irreversível: ela se tornou uma entidade inclusive contra os estudantes. O Governo Lula tem implementado o processo de Reforma Universitária, com diversos pontos polêmicos. E a UNE, sem discutir com os estudantes, realizou caravanas para passar nas faculdades defendendo essa Reforma. Por isso, em 2004, aconteceu na Ilha do Fundão, um Encontro Nacional Contra a Reforma Universitária, com mais de 1500 estudantes de todo o país, onde foi criada a Coordenação Nacional de Luta dos Estudantes (CONLUTE), que surge enquanto alternativa à falência da UNE, já que a mesma não vem tocando mais as lutas, se tornou um aliado do Estado (do Governo e até da Rede Globo) e se encastelou em sua estrutura burocrática. Em diversas Universidades, que estão em processos de lutas, a UNE tem sido expulsa, como nas recentes ocupações em defesa da Educação Pública, que ocorreram na USP, UniCamp, UFRJ, UFJF, UFRGS etc. Recentemente, temos inclusive a luta na Faculdade Santo André, instituição particular, que conta com uma greve de estudantes e professores por conta da ação truculenta da Reitoria e da polícia perante manifestação pacífica contra o aumento de até 122% das mensalidades! A CONLUTE tem servido como um grande instrumento de luta, mas a necessidade de uma nova entidade nacional se faz presente para que possamos ter uma organicidade maior e uma atuação mais concreta.

6- Mudou algo na sua forma de pensar e ou de agir depois que você começou a participar de um grêmio?

Com certeza. Conforme havia comentado, aceitei entrar na chapa porque seria popular no Colégio. E a participação no Comando de Greve em 2001 foi um salto de qualidade. Principalmente consegui acumular discussões e experiências que me possibilitaram melhorar a leitura, a fala, a escrita e até mesmo reflexões e elaborações.

7- O grêmio trouxe mudanças para os alunos na instituição? Os motivou em algo, trouxe algum ideal?

Sim, na verdade o Grêmio são os alunos da instituição! Às vezes, utilizamos nomenclaturas que parece que nos são alheias. Mas o Grêmio é o conjunto dos estudantes de um colégio, bem como um Centro ou Diretório Acadêmico é o conjunto dos estudantes de uma faculdade. Temos sim a necessidade de uma diretoria para organizar os trabalhos, mas a entidade representa todos. O maior acúmulo que podemos considerar é o avanço do nível de consciência, que se dá através de organização da entidade e de atividades que possibilitem conquistas. Posso dizer que houve motivações, principalmente na defesa do ensino público, gratuito e de qualidade.

8- Depois dessa participação, surgiu algum interesse ou aumentou seu interesse em relação a política?

Aumentou meu interesse, tanto que antes de começar na UFRJ, já imaginava como organizaria o Centro Acadêmico lá na Educação Física, pois achava que não teria nada organizado. Fui surpreendido ao encontrar um CA recém-formado e ajudar a impulsionar diversas atividades e lutas, bem como conhecer e integrar uma família mesmo, família com quem pude construir forças para entender a sociedade em que vivemos, a importância de nos instrumentalizarmos para ir de encontro a essa difícil maré em que estamos e que é preciso organizarmos os trabalhadores e estudantes para modificar essa situação. E o interesse em relação à política não significa disputa por cargos, como vemos acontecer bastante nos ex-militantes, mas estar presente nos sindicatos, nos Grêmios, nos CAs e DAs para garantirmos a defesa de nossos direitos e transformarmos a sociedade desigual em que estamos.

9- Que recado você daria para os jovens que estão lutando por seus ideais através dos grêmios estudantis?

Para finalizar, deixo um recado para o conjunto dos estudantes. Conforme Los Hermanos, é preciso força para sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê. Nascemos numa sociedade que possui um modelo desigual, um modelo de exploração, que nos coloca diversos conceitos como naturais e verdades como universais. Mas é preciso e possível questionarmos e refletirmos sobre transformações. Participar dos Movimentos Sociais é uma tarefa indispensável para solidificarmos mudanças significativas para nossa estrutura. Por isso, finalizo esse recado com os dois seguintes poemas de Bertolt Brecht, teatrólogo e poeta alemão. Por isso, estudantes da Celso Lisboa, Força na Luta, pois a Luta é para Vencermos!


Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há homens que lutam por um ano, e são melhores;
Há homens que lutam por vários anos, e são muito bons;
Há outros que lutam durante toda a vida, esses são imprescindíveis.




Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.