domingo, 29 de agosto de 2010

Belezas Maranhenses - 21 a 28 de agosto

Sábado, 21 de agosto, parti do Rio de Janeiro para São Luís, capital do Maranhão. Começaria no dia seguinte o VIII Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação, com a temática “Infância, Juventude e Relações de Gênero na História da Educação”, onde na segunda-feira 23/08 apresentei minha comunicação individual “O Compêndio de Gymnastica Escolar de Arthur Higgins: formulações e concepções pedagógicas para a educação do corpo no início do século XX”(1), primeiro trabalho que apresentei num evento do campo de História da Educação. Mesmo sendo o motivo da viagem, o trabalho passo a coadjuvante diante do que segue abaixo.

Como até a semana anterior meu pedido de apoio pelo Programa de Pós-Graduação da UFRJ não havia nem saído da Faculdade de Educação, por já ter apresentado meu trabalho na segunda e pelo fato do Maranhão reservar diversas belas paisagens, os demais momentos foram de turista. Já tinha reservado quinta e sexta para passeios e acabei ganhando a terça e a quarta!

Antes de discorrer sobre as belezas dessa Unidade da Federação, gostaria de registrar meus agradecimentos pela carona e pela hospitalidade da família da colega Ketruin e também aos combativos e hospitaleiros companheiros do PSTU-Maranhão(2) pelas dicas, pela companhia e por me abrigar durante esse período [principalmente Rielda Alves, a professora Vanda, o professor e ativista do movimento hip hop Hertz (Quilombo Urbano[3]), o candidato a deputado estadual Eloy, o candidato a Governador Marco Silva, Wagner, Felipe e a família da candidata a vice-presidente Claudia Durans].

Na capital maranhense, passei por bairros e localidades como COHATRAC, COHAB, Liberdade [90% da população negra, onde treinaram as malditas tropas brasileiras situadas no Haiti], Ponta d’Areia, Centro Histórico etc. Não consegui conhecer a UFMA nem a UEMA, instituições públicas de ensino superior. Além da capital, estive nas cidades de Alcântara, Raposa, São José de Ribamar e Barreirinhas. Como nem tudo são flores, é perceptível e lastimável a forte influência da oligarquia Sarney no Maranhão.

Como não dá para descrever, postarei algumas fotos para apresentar um pouco das belas localidades por onde passei durante a semana. Infelizmente, o Submarino não colaborou ao atrasar o envio da máquina digital que tive que comprar após a minha mergulhar na Praia do Cumbuco, em Fortaleza, no mês passado. Algumas fotos foram registradas pelo celular e outras por máquinas da galera.


Bar Adventure, na Avenida Litorânea. Noite de 23/08.


No catamarã de São Luís para Alcântara, Cidade Histórica. 22 km de puro balanço. Manhã de 24/08.

Do Mirante. Ao fundo, antigamente funcionava a Câmara no segundo andar e a prisão no primeiro. Hoje a Prefeitura funciona no prédio todo. Miscelânea curiosa da casa dos políticos com a cadeia...


Ruínas. Mar ao fundo. Alcântara já foi capital do Grão-Pará!

Essa parte tivemos de atravessar num barquinho. Até ajudei a remar. Depois de andar durante horas, almoçar, só sobraram cinco minutos para a praia antes de voltar pra São Luís. No trajeto, algumas pessoas viram um golfinho! Eu fui na frente do catamarã, tomando banho a cada sobe e desce nas ondas. Tarde de 24/08.

Município de São José de Ribamar. Essa é a Praia de Araçagy, onde os carros percorrem sobre a areia sem atolar. Nessa aí eu fui sozinho, depois da tentativa frustrada de conhecer Raposa. Quando cheguei, não havia mais passeio porque a maré não estava propícia. Mas valeu demais conhecer Araçagy e almoçar um peixinho frito bem baratinho com uma ventania excelente. Tarde de 25/08.

Belo pôr-do-Sol em São Luís. Entardecer de 25/08.
Uma das mais de 3.000 lagoas dos Grandes Lençóis Maranhenses. Município de Barreirinhas. Para chegar às lagoas, são 10 km de passeio num caminhão que sacode demais. O nosso atolou umas vezes. Além do motorista e do guia, eu era o único brasileiro no grupo, que contava com um português e oito franceses. Tarde de 26/08.

Dunas, lagoas e o Sol.

 
Visitamos cinco lagoas. Apenas a Lagoa dos Peixes era funda, com pontos que chegavam a 2m de profundidade. Entardecer de 26/08.

Passeio de Lancha Voadeira pelo Rio Preguiças, que conta com 120 km de águas navegáveis, média de 9 a 12m de profundidade com pontos que chegam a 35m. Manhã de 27/08.

Fauna presente: o simpático quati. Essa parada foi em Vassouras, onde há os Pequenos Lençóis Maranhenses (estavam secos!)


Os papagaios bacanas e comilões.
Do alto dos 160 degraus do Farol das Preguiças, o visual do local denominado Mandacaru, onde guias-mirins de 5 a 8 anos recitam poemas e contam a história da localidade. Após Mandacaru, a parada mais longe é em Caburé, onde de um lado está o mar e do outro o rio.


(1) Em breve disponibilizo a versão completa virtualmente.


sábado, 28 de agosto de 2010

Um cochilo de sábado à noite*

            Desde que comecei a escrever sobre os jogos do Botafogo nesse Campeonato Brasileiro, é hora de inaugurar reflexões após uma derrota. O ataque que há duas rodadas era o melhor do campeonato, passou em branco. A defesa, que não tomava gol há quatro rodadas, levou apenas um, suficiente para a oferenda de três pontos para o atual Campeão da Libertadores da América. O time adversário conta com ótimos jogadores, boa troca de passes. Contudo, com um pouco mais de ousadia e categoria, poderíamos pelo menos ter mantido a invencibilidade com um empate.

            No último texto, desafiei a superstição. O jogo passado não acompanhei, pois não encontrei nenhum local que transmitisse a vitória contra o Ceará na capital maranhense, onde me localizava. Não foi possível comentar o jogo passado no Engenhão. Apenas pude ver a bela jogada tramada por Herrera, que resultou no bonito gol de Jobson. Não ter comentado a última vitória e ver essa derrota hoje volta a deixar uma pulga atrás da orelha.

            O histórico do confronto entre as duas equipes continua extremamente equilibrado. Em 2009, o Glorioso venceu as duas partidas contra o Internacional, sendo um dos grandes responsáveis pelo vice-campeonato do time gaúcho, que ainda esbarrou na atitude benevolente de seu arquirrival contra os rubro-negros cariocas para os mesmos garantirem a primeira colocação. É interessante percebermos que o Fogão, apesar das duas recentes vitórias em casa, caiu de produção. Vencemos duas por apenas 1 x 0, com dificuldades aparecendo. E hoje veio a quarta derrota no campeonato, custando a queda na tabela, que nos tirará temporariamente do G-4 para a Libertadores 2011.

            No jogo de hoje, tanto o time quanto Joel cochilaram demais, respeitaram uma boa equipe demasiadamente. Os primeiros 35 minutos de jogo foram dominados pelo Colorado, com o alvinegro assistindo às investidas do adversário. E numa bobeada conjunta da zaga, Jefferson não pôde garantir o paredão. Nos últimos 10 minutos do primeiro tempo, cinco oportunidades criadas mostraram que seria possível virarmos o jogo após o intervalo. Logo nos primeiros minutos da segunda etapa, vale destacar o erro crasso do bandeirinha que marcou impedimente inexistente de Jobson, que ficaria cara a cara com o Renan! Já declarei em outras oportunidades não gostar da presença de Fahel no time, mas ele não comprometeu a ponto de ser o primeiro substituído. Édson errou tudo que tentou e a melhor opção seria sacá-lo para entrar logo com o Edno na ala esquerda. Marcelo Mattos fez falta. Maicossuel não rendeu e Somália errou todas as tentativas de dribles e passes. Com a contusão de Jóbson, Joel se equivocou posteriormente ao retirar Herrera, que vinha batalhando e arriscando jogadas, para trocá-lo por El Loco, que também entrou bem. O mais coerente teria sido a saída do Édson, totalmente perdido, que ainda quase entregou de bandeja o segundo gol do Inter numa recuada de peito para o Jefferson com a bola a 10 cm do chão.

            Seria bem mais legal comentar a continuidade da ascensão, interrompida com o cochilo neste sábado, 28 de agosto. Mas valeu retornar de viagem e curtir o tira-gosto em família, sempre uma boa companhia. E aguardar as próximas duas rodadas desse turno, em que podemos retomar a expectativa de 100% de aproveitamento contra os dois Grêmios. O primeiro, paulista e fora de casa. E o segundo, com a torcida transformando o Engenhão num grande caldeirão para apoiar nosso retorno ao G-4 e começar o returno pronto para uma arrancada ainda mais ousada!

*Gabriel Marques
Botafoguense desde 30/05/1985

domingo, 22 de agosto de 2010

Superando a superstição, mais 3 pontos para o Fogão*

Sábado, 21 de agosto. Foi um sábado cuja manhã demonstrou como está coesa e eficaz a política de segurança esbravejada por Sergio Cabral e cia. Ironia à parte, percebemos as conseqüências desastrosas de um sistema organizado para manter poucos na elite e o povão na miséria e na ignorância, trabalhando para garantir as riquezas dos poucos! O Fluminense escapou de estar no hotel em São Conrado... Será este um prenúncio de dias mais complicados para o atual líder ou confirmação de sorte de campeão? Dúvidas à parte, sou mais mandarmos o recado: “Olha o Fogão, que tá chegando!” Inclusive, parabéns aos 112 anos do Vasco. Apesar das péssimas administrações... Como presente, a vitória hoje seria interessante!

Ingresso já comprado antecipadamente para mais um jogo do Fogão. Já declaro que não gostei da decisão da diretoria de aumentar os preços por conta do bom momento do time. Infelizmente, os preços afastam sim parte da torcida e acredito que com os preços anteriores poderíamos ter nos aproximado da lotação do estádio. Mesmo assim, 35.000 botafoguenses fizeram uma bonita festa. Uma bela homenagem a mais um grande ídolo de nossa história para começar: a estátua de Jairzinho, colocada ao lado das homenagens a Nilton Santos e Garrincha. Queria ter acompanhado esse momento, mas não foi possível... Ainda consegui ver a volta olímpica do time de juniores campeão na Bélgica. Dá-lhe, Fogão!

            Sempre fico preocupado quando a torcida comparece em peso. Ano passado contra o Avaí a história não tinha sido muito bacana (tivemos que buscar o empate em 2 gols no segundo tempo). Para piorar a apreensão, levei minha toca (que não costuma dar muita sorte); coloquei a camisa comemorativa dos 46 convocados (azul, cor do time adversário); fiz a barba, que crescia acompanhando a invencibilidade da equipe; lanchei no estádio. Dizem que todo botafoguense é supersticioso e para um marxista como eu fica mais complexo acompanhar essa máxima. Mesmo com diversos riscos e preocupações, os três pontos vieram.

            Uma situação interessante de questionar: teremos de aturar propagandas de candidatos oportunistas chegando ao Engenhão até dias 3 e 17 de outubro? Luiz Paulo, Marcelo Itagiba, Gabeira, Crivella... Haja paciência! Por que no dia-a-dia fora das eleições eles não mandam militantes para panfletar sobre as questões que são debatidas em Brasília? Só aparecem para pegar o teu voto! Para eles e outros representantes da elite burguesa, meu recado: VOTO NULO em 2010! Nossos sonhos não cabem nas urnas! Em homenagem a esse contexto, entrei pela esquerda no estádio!

            Com relação ao jogo, estava marcado o duelo dos velhinhos (os técnicos mais idosos do Brasileirão 2010): de um lado, Antonio Lopes; do outro, nosso Joel Santana! Estava em jogo também o terceiro lugar do Campeonato. Tivemos a ilustre presença do técnico canarinho Mano Menezes e outra disputa poderia aparecer: quem tem mais condições de ser o goleiro titular da Seleção Brasileira? Jefferson ou Renan? Sou mais o primeiro! Apesar das medianas atuações de Jobson e Maicossuel, esse trio (os 2 mais Jefferson) tem tudo para elevar para 49 convocados do Fogão em 2014. E a camisa comemorativa terá de ser: 49 + 1, por conta do Loco na celeste.

            Quando o forte comparecimento da SofáFogo começava a dar sinais de insatisfação e impaciência com o time, numa jogada simples, queimei minha língua. Esbravejei antes da cobrança de falta: “Por que o Botafogo está insistindo em jogadas aéreas com o Loco Abreu no banco?”. Com um toque sutil e categórico, Fabio Ferreira resolveu o que o ataque não conseguira: bola pra dentro das redes do Avaí! 1 x 0 Fogão. Com a torcida fazendo olas e aplaudindo o time no intervalo, anunciava-se um segundo tempo com a ânsia de Mais Um! Infelizmente, foi atípica a atuação do Glorioso no segundo tempo em relação aos últimos jogos. Talvez Antonio Lopes, mesmo com 8 reservas, tenha conseguido dar um nó na criatividade alvinegras. Ou talvez tenha sido culpa minha enfrentar tanto a superstição. Ou talvez os jogadores tenham ficado nervosos com a presença de Mano, principalmente Jobson e Maicossuel, que deixaram a desejar. Mas o certo é que nesse sábado, o terceiro lugar é nosso (Ainda é pouco)! E a equipe catarinense pode pensar à vontade na Sul-Americana ou lembrar de seu maior ídolo e torcedor... No Tênis!

*Gabriel Marques
Botafoguense desde 30/05/1985

sábado, 14 de agosto de 2010

Ainda é pouco*

Pelo nosso caminho, o lanterna do Brasileirão, que já perdera para Vasco, Fluminense e Flamengo. Por sinal, o Rio de Janeiro vive um bom momento no cenário nacional. Fizemos nosso dever, dessa vez fora de casa, mas com uma presença muito maior da torcida alvinegra no Estádio Serra Dourada. Outro adversário com o mando de campo – e rubro-negro – batido pelo Fogão. Terceira vitória consecutiva e já são seis rodadas de invencibilidade. Também é a terceira vitória como visitante, retrospecto importantíssimo para quem aspira as primeiras posições na tabela.

            O primeiro tempo foi extremamente morno. Um ou outro drible, mais por iniciativa de Jobson. Mas ainda faltava seria necessária maior precisão. Teria colocado o Caio no lugar de Herrera, que ainda não está em dia com as finalizações. Mas foi o guerreiro argentino quem, num belo passe de peito, como se jogasse uma partida de futevôlei, entregou a bola também no peito do incansável e batalhador Somália – que já xinguei muito nos primeiros jogos e duvidei de um futebol sequer fraco – para se esticar e fazer 1 x 0 para o Alvinegro. Com o gol, houve um recuo exagerado da equipe, que bateu cabeça em alguns momentos na defesa. Felizmente continuamos contando com a precisa, tranqüila e segura presença do melhor goleiro do Brasil: Jefferson! Em mais uma bobeada do time adversário, em lance rápido do Botafogo, Maicossuel lançou Jobson, que fingiu chutar, driblou o goleiro e marcou seu quarto gol no Campeonato. Tem tudo para ser o artilheiro e em breve estar na Seleção! Os gols forneceram direito às dancinhas, de certa forma desengonçadas e mal ensaiadas, dos rapazes de General Severiano, que prosseguem a ascensão do Glorioso! Vendo os dribles, a correria e os gols de Jobson, lembro apenas do jargão em voga: Ah, Moleque!

            Como nem tudo são flores, a entrada de Fahel após as câimbras de Somália, quando ganhávamos por 1 x 0, me preocupou. É impressionante como em todas as jogadas, dentro ou fora da área, ele se encontra segurando ou agarrando o adversário. Risco alto de pênaltis, principalmente para um clube que tem sofrido com a arbitragem nos últimos anos. A zaga ainda precisa melhorar o entrosamento, mas a formação com Antonio Carlos, Fabio Ferreira e Leandro Guerreiro é a mais prudente com o elenco que temos. Por sinal, parabenizar nosso atual capitão pelo ducentésimo jogo com a Estrela Solitária no peito. Vale o esforço de Alessandro, mas que bobeou ao tomar um cartão amarelo logo no início do jogo e está suspenso do próximo jogo. Edno, apesar do gol perdido cara a cara, entrou muito bem pela esquerda e é um potencial candidato para, no esquema 3-5-2, substituir o limitado Marcelo Cordeiro nessa posição. O tabuleiro-prancheta de Joel se encontra com peças boas e jogadas surpresas para somarmos mais pontos e nos aproximarmos dos líderes e irmos com tudo no segundo turno.

            Sobe para 25 gols o melhor ataque do campeonato. Temos dois jogos no Engenhão, com muitas possibilidades de garantir mais seis pontos. É hora da torcida comparecer, fazer festa e ajudar a empolgar o time para balançar ainda mais as redes dos adversários. Sábado que vem estarei lá contra o Avaí e não podemos vacilar como ano passado (Atenção, diretoria, carga total de ingressos!) que tivemos que buscar um empate no segundo tempo. Depois, encarar o Ceará, que caiu de produção depois da saída de Paulo César Gusmão e já não é mais a sensação. O Botafogo dorme em terceiro lugar na tabela, no G-4 e temos de aguardar resultados desse Domingo para saber a real posição após a 14ª rodada. Entretanto, com o elenco que temos e com as perspectivas apontadas, o terceiro lugar ainda é pouco!


*Gabriel Marques
Botafoguense desde 30/05/1985

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Pra ficar legal? Que os sonhos transcendam as urnas!*

Semana passada prestei atenção em alguns momentos do debate entre os quatro dos nove candidatos à Presidência da República (por que não convidam todos os candidatos e não chamam um defensor do voto nulo?). Hoje novamente me esforcei para ouvir as “propostas” e as “diferenças” entre os candidatos ao Governo do Rio de Janeiro. No todo, um saldo positivo dos debates na rede Bandeirantes! Mais do mesmo. Mais da mesmice. Mais da enrolação. Mais do continuísmo. Mais da conservação. Mais da ilusão. Mais da exploração.

            Conhecido internacionalmente por belas paisagens, excelentes e animados Carnavais e pelo bom futebol, o Rio sofre absurdamente as contradições e conseqüências inerentes à lógica do sistema opressor e desigual em que vivemos. A ordem do capital modifica os personagens: Moreira Franco, Marcello Alencar, Anthony Garotinho, Benedita da Silva, Rosinha Matheus, Sergio Cabral... Todavia, mantém o conjunto da população silenciado, cabisbaixo, com medo e refém das escolhas que privilegiam o continuísmo, obviamente com apoio duma mídia televisiva e impressa lacaia dos dominantes.

            O atual governador afirma orgulhosamente que dirige o “Rio que enxerga a paz, a parceria e a união”, apoiado pela maioria maciça das Prefeituras e pelo Governo de Lula e futuramente Dilma. E continuará dirigindo, pois o circo está montado para Cabral Filho perdurar até 2014. Fernando Gabeira, que se auto-afirmou contundentemente como “o ex-Gabeira”, que não quer fazer a Revolução Socialista, algo do século passado, que não precisa definir uma identidade, pois isso é coisa de adolescente. É “o novo Gabeira que precisa fazer alianças para chegar ao poder”, alianças essas sem escrúpulo algum, com os direitistas PSDB de José Serra e DEM de César Maia. O outro Fernando – Peregrino – não passa de um fantoche na tentativa de defender a família Garotinho e recuperar parte de seu prestígio e influência políticas. O PSOL, apesar de se encontrar no campo anti-governista, esbarra na institucionalidade, na crença no Parlamento por meio do “voto consciente” e não avança na apresentação de uma real alternativa para a classe trabalhadora. Seu candidato à Presidência falara que o PSOL é o PT de antigamente. Hoje eu me pergunto: como pude acreditar nesse projeto em 2002 e 2004?

            Durante a troca de farpas e acusações, problemas cotidianos jamais vivenciados por aqueles senhores são levantados única e exclusivamente para a disputa de votos, já que depois de eleitos governarão para manter o status quo e no máximo apresentarão alguns paliativos para aparecer nos jornais. Antes de finalizar, apenas alguns pontos marcantes:

  • Cabral explicitou que colocou 30.000 professores em sala de aula. Quantos desses já pediram exoneração em virtude das péssimas condições de trabalho e do salário líquido inicial de pouco mais que R$600,00?
  • Quanto custou aos cofres públicos e quem realmente saiu beneficiado com os aluguéis dos aparelhos de ar condicionado para climatização das salas de aula e dos computadores para o corpo docente?
  • Os reajustes das passagens de trem, metrô, barcas e ônibus caminha na mesma proporção que os reajustes salariais da classe trabalhadora?
  • Por que mais uma obra do Maracanã para atender aos interesses da Fifa por conta da Copa do Mundo de 2014, que fará diminuir ainda mais a capacidade do estádio? Ou seja, menos torcedores poderão apreciar um jogo de futebol no espaço.
  • Se a chuva é natural, a catástrofe é social? Certamente! No século XXI, não temos condições de garantir moradias dignas, em áreas sem risco, para o conjunto da população? Mas as tragédias, nas quais vidas foram perdidas, no Morro do Bumba e em Ilha Grande serviram para clamar pela solidariedade da população e continuar sua “pacificação” sob os moldes de “Choque de Gestão”.
  • De onde vêm e virão os milhões de reais para financiar as campanhas de Cabral e Gabeira?
  • Segundo Cabral, o Rio hoje é de paz. Como ele explica a morte de crianças e jovens por balas perdidas e intervenções policiais? Ou sua própria postura “pacífica” ao denominar como “fábricas de marginais” mães moradoras de favelas e periferias; “vagabundos” os médicos; e “otário” um garoto de 17 anos que questiona?
  • Por fim, Gabeira ratifica que abre mão de sua história, jogada no lixo ao aliar-se com o DEMônio e o PSDB. Classifica de trágica a situação de países onde houve tentativas de construção do socialismo. Nosso Rio de Janeiro, sob os marcos capitalistas, conseguirá superar a atual tragédia em que se encontra?
             Pra ficar legal? A gente quer o melhor, Sergio Cabral! E o melhor é um Rio sem você, Gabeiras, Peregrinos, Garotinhos nem Maias ou Paes! No dia 3 de outubro, eu, como militante do Coletivo Marxista, anularei meu voto para Presidente, Governador, Senadores e Deputados Federal e Estadual. Nossos sonhos, de um Rio e um Brasil sem patrões e sem marionetes como os candidatos apresentados, não cabem nas urnas!

*Gabriel Rodrigues Daumas Marques
VOTO NULO EM 2010!

sábado, 7 de agosto de 2010

Braço de Deus entrega presente antecipado de Dia dos Pais*

Voltando de Rio das Ostras, decidi qual presente dar para meu pai: o ingresso para assistir ao confronto contra o Atlético-MG, hoje no Engenhão. Uma pequena fila já antecipava que a presença da torcida seria significativa. Por volta de 18h, quando chegamos ao atualmente denominado Stadium Rio, uma longa e civilizada – excetuando-se poucos oportunistas – fila para passar pelas roletas nos esperava. Torcida do Botafogo comparecendo em peso sempre dá um friozinho na barriga, pois quando a SofáFogo aparece, a impaciência com o time geralmente é grande. Pouco mais de 24.000 pagantes e 27.000 presentes estiveram lá para acompanhar a reestréia de Maicossuel no Engenhão, o retorno de El Loco Abreu (dessa vez, na reserva) e torcer pela continuidade da ascensão do Fogão no Campeonato Brasileiro, marcando o quinto jogo de invencibilidade.

            Enfim, mudanças excelentes aconteceram e a tendência é o time crescer, com opções no banco do mesmo nível que os titulares. Antonio Carlos fez falta, pois a zaga e os laterais ainda contam com muitas falhas e deficiências, mas estão no mesmo nível dos demais times! Jefferson estreou seu uniforme amarelo, cor que poderá vestir durante a semana: o melhor goleiro do Brasil e da Seleção fez três defesas importantes no jogo e garantiu a segurança do nosso gol. Recuar Leandro Guerreiro no lugar de Fahel, lançar o Marcelo Mattos sacando o Lucio Flávio e iniciar com o trio Maicossuel, Jobson e Herrera me fizeram respeitar ainda mais o técnico Joel Santana, que ousou ainda mais com as substituições no segundo tempo, colocando Caio, Edno e o festejado Loco Abreu nos lugares de Marcelo Mattos, Maicossuel e Herrera, respectivamente. Com as opções do Glorioso, Joel mostra cada vez mais ousadia e menos retranca!

Maicossuel enfim estreou de verdade: driblou, correu, dominou, passou bem e com oportunismo fez o primeiro gol do Fogão. E a torcida não titubeou: Maicosuel voltou... Momentos depois, o tatuado Somália arriscou de fora da área e a bola desviou num braço de Deus, que só poderia ser argentino, para balançar pela segunda vez as redes do Galo, freguês assíduo e adimplente nos últimos anos. Tudo bem, jogada polêmica e na minha avaliação gol ilegal validado pela arbitragem. Chorem, Vanderlei Luxemburgo (em decadência), Fábio Costa e Diego Souza! Jobson merecia o dele: com traquinagens, irreverência e indo com tudo sem cansar, na hora do chute, travado por trás pelo adversário. É pênalti! Para afastar a zica, Herrera assumiu a artilharia do time, marcando seu quinto gol no campeonato. 3 x 0 com gostinho de quero mais na véspera do Dia dos Pais. Reconhecendo os limites de jogadores como Alessandro, Fabio Ferreira, Leandro Guerreiro e Somália, é preciso maior paciência dos torcedores, pois a garra e a força de vontade superaram as debilidades. Considerei fracas as atuações de Danny Moraes e do lateral que não sabe cruzar do fundo nem marcar Marcelo Cordeiro.

            Ponto fraco também para a administração do Stadium Rio, deveras desorganizada na entrada e na saída dos torcedores, com vários portões fechados. Assim como o tal legado dos megaeventos esportivos: até hoje não há uma rampa de acesso para cadeirantes passarem de um lado da linha do trem para o outro, na estação Engenho de Dentro. Além disso, as longas filas poderiam ser solucionadas com um mínimo de inteligência e investimento! Mas como não estamos na Copa do Mundo... Vale registrar que mandamos o Galo para alguns lugares esquisitos e ofendemos a arbitragem, enquanto não funcionam os mandamentos aprovados e sancionados do Estatuto do Torcedor (vão à m..., Congresso, Senado e Lula!)

            Retornando ao tema mais relevante, saltaremos algumas posições nessa décima terceira rodada e poderemos terminar como o melhor ataque do campeonato até o momento. Mais gols poderiam ter acontecido se o ímpeto permanecesse, mas o time segurou bem o resultado. Enquanto os meninos da Vila se divorciam e o tricolor carioca não tem crises em sua constelação, nossos rapazes de General Severiano ganham entrosamento e mais três pontos. Prosseguir a ascensão tem que ser a tônica das próximas rodadas.

Enfim, hoje, certamente foi um bom presente antecipado, não foi, pai?

*Gabriel Marques
Botafoguense desde 30/05/1985

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

É hora de debutar*

Acordei nesse domingo 1 de agosto com uma sensação de bons fluidos para a Estrela Solitária no Brasileirão. Tal como antes do jogo contra o São Paulo, antes da Copa do Mundo, eram comentados os tabus do Botafogo no Barradão, estádio do time baiano rubro-negro. E contra rubro-negros... Sou mais o Fogão! Já contabilizavam oito jogos e setenta dias desde a última vitória: 3 x 0 contra o Goiás, no Engenhão (eu estava lá...), em que o hermano e o xodó trocaram farpas e foram expulsos (é, há coisas que só acontecem ao Botafogo!).

Na semana que passou, há situações importantes que fornecem novo gás para iniciar uma ascensão nesse campeonato. O retorno de El Loco Abreu para os treinos; a merecida convocação de Jefferson para a Seleção Brasileira(1); e enfim a estréia de nosso Mago Maicossuel. Diferentemente de outras edições recentes, em que nossa confiança no título ou numa vaga na Libertadores era forte, nas quais o Botafogo disparou e foi caindo na tabela, em 2010 a situação aparenta se inverter. Começamos relativamente bem, caímos drasticamente e ontem certamente começamos a nos reerguer.

Depois de jogar com bastante garra mas desperdiçar diversas oportunidades contra o tricolor carioca, garantindo o terceiro empate em seguida, havia dois caminhos possíveis: de um lado, acumular o jejum sem vitórias e permanecer na zona da degola; do outro, trazer três pontos da Bahia, subir posições e ficar invicto há quatro rodadas. Mais complicado que o time misto do Vitória, fora a péssima condição do gramado, que fez o primeiro tempo parecer uma pelada de péssimo nível sendo transmitida em rede nacional.

Herrera não estava em um bom dia e Lucio Flávio será um bom reserva para as próximas rodadas. Joel demonstrou estrela ao retirá-los e lançar Edno e Caio. Como Maicossuel ainda está fora de ritmo, considerava prudente a entrada de Renato Cajá em seu lugar. Não me recordava da contratação dele, mas considero um acerto e que terá chances de ser titular: discreta, mas precisa foi a atuação de Marcelo Mattos. Tal quadro mudou significativamente a postura do time em campo. Não tenho dúvidas do nome do jogo, que não parou de correr um só minuto e demonstrar ousadia, partindo para cima, tentando driblar, arriscando chutes e cruzamentos com as duas pernas: Jobson!

Cercado por três, segurou a bola até fornecer precioso passe para Edno enfim marcar seu gol (porque contra o Fluminense foi de mentirinha). Esse gol nem deu tempo pra comemorar. Em mais uma bobeada do time, cruzamento pela esquerda para cabeceio e gol de empate do Vitória. À tona vieram filmes de empates e viradas já desse Brasileiro (já que há coisas que só acontecem ao Botafogo!), como contra o Corinthians e o Atlético-PR. Mas o Vitória também não teve tempo para comemorar, porque em mais uma tentativa errada – que deu certo – do limitado Marcelo Cordeiro, lá estava ele, o cara do jogo para empurrar para as redes: Jobson! Antes do apito final, ainda teve tempo para Marcelo Mattos realizar um ótimo lançamento para ele, Jobson, driblar e chutar para as redes novamente. Merecida vitória do Fogão! 3 x 1! Ótima atuação e reviravolta de Jobson Leandro Pereira de Oliveira. Comemorações com direito às dancinhas coreografadas, ao estilo garotos da Vila. Também alvinegros, estão ascendendo os rapazes de General Severiano.

Jobson estivera com tudo acertado para estar no Cruzeiro, mas foi suspenso por problemas de doping no final de 2009. Ironias do destino (há coisas que... rs), a negociação com o clube mineiro foi interrompida e Jobson não pôde jogar até 18 de junho. Enquanto era “leiloado” por seus empresários, reclamou com atitude: “Tem horas que fico muito triste, porque ficam me leiloando e eu não sou vaca!”(2). Tal situação constrangedora relatada pelo atacante é cada vez mais rotineira e lucrativa para poucos nas relações mercantis e de propriedade privada dos passes por parte do empresariado, pois nessa sociedade tudo se desumaniza e se transforma em mercadoria (não só as vacas, Jobson!). Em sua entrevista para a página do Botafogo:

“Meu sentimento agora está assim: o Botafogo tem uma estrela solitária e ela está no meu coração também. Fico muito feliz em retornar. Espero voltar com tudo. Tenho uma história no Botafogo, quero dar continuidade, jogar muito bem e ajudar o clube"

“É o recomeço no Botafogo, finalmente estou de volta, mas tenho muito pela frente".(3)

Sim, o primeiro Domingo de agosto tem tudo para ser um marco, um recomeço e apresentar novos dias para o Fogão nesse Campeonato Brasileiro. Continuando dessa maneira, Jobson terá mesmo muito pela frente e poderá fazer companhia a Jefferson com a amarelinha. E pode avançar ainda mais questionando os leilões de jogadores e o futebol a serviço da ordem ao passo que retoma a alegria dos dribles e belas jogadas.

Por fim... Já que falamos em tabus a ser quebrados, eu escolho o meu: faz 15 anos que comemoramos nosso título nessa competição. É hora de debutar!


*Gabriel Rodrigues Daumas Marques
Botafoguense desde 30/05/1985


(1) Já defendia a convocação dele para a Copa do Mundo na África do Sul, mas o técnico era o Dunga... http://alemdotrivial.blogspot.com/2010/05/dunga-e-selecao-ah-nao-deu-burro.html

(2) “Indefinição irrita Jobson: 'Ficam me leiloando, e não sou vaca'”. 10 de junho de 2010. Disponível em http://globoesporte.globo.com/futebol/brasileirao-serie-a/noticia/2010/06/indefinicao-irrita-jobson-ficam-me-leiloando-e-nao-sou-vaca.html

(3) “Com a Estrela Solitária no coração: Jobson comemora retorno para o Botafogo e agradece à torcida alvinegra”. Por Danilo Santos. Disponível em http://bfr.com.br

sábado, 17 de julho de 2010

Sonhos de infância*

Sob olhares atentos de pais, familiares e amigos, engatinhamos os primeiros centímetros, caminhamos nossos primeiros passos, choramos para dormir ou pedir comida e pronunciamos nossas primeiras palavras. Muitos se divertem com isso, e, para nós, quando crianças, nada é digno de preocupação, apesar de aparecerem os primeiros conflitos, pois nunca queremos comer ou dormir na hora que nossos pais desejam.

Bolas, bonecos e bonecas, velocípede, vídeo-game, bicicleta, quebra-cabeça e diversos outros brinquedos começam a surgir à nossa frente, garantindo entretenimento seja sozinho seja com os(as) novos(as) amiguinhos(as) que crescem conosco. Nossos pais são referências, heróis e heroínas que acompanham as etapas da vida. Aconselham, brigam, chamam atenção e nos amam... Num determinado momento, somos encaminhados pra instituições sociais mais amplas, como a escola. Começam a surgir deveres, provas, ditados, redações... Junto a tudo isso, inevitável defrontar-se com a pergunta que já visa indicar precocemente nossa profissionalização: “O que você vai ser quando crescer?”

É tempo de perguntas, questionamentos, novidades, experiências, machucados, choros, mas também de SONHOS! Certamente o quadro infantil explicitado acima pôde ser vivenciado por mim e por outros que nasceram em famílias que tiveram condições objetivas de fornecer alimentação, lar, estudo e carinho! Mas o que será que acontece com a maioria das crianças e jovens mundo afora? Muitas famílias sobrevivem diariamente sob parcas condições: sem casas para residir tampouco cobertores para proteger do frio ou um leite quentinho com um pão com manteiga para iniciar seus dias! Novamente fui estimulado a escrever essas linhas, diante de mais atrocidades que impedem a materialização de sonhos, sonhos que crianças investem, com sorrisos, gestos e palavras inocentes, mas com a certeza de que teremos um amanhã diferente!

Às vésperas de mais um cenário eleitoral, onde mais do mesmo se apresenta, prometendo e iludindo uma imensidão de seres humanos que mais uma vez acreditam que os votos têm pesos iguais. Depois disso, até a eleição seguinte, multiplicam-se os descasos com a população, os casos de corrupção e os lucros de uma pequena parcela que privadamente se apropria dos sonhos de milhões de crianças e do fruto do trabalho de seus pais, perpetuando a desigualdade que concentra as riquezas e divide as mazelas!

Às vésperas da realização de mais megaeventos esportivos, em que bilhões serão investidos em propagandas e grandes construções de um lado. Do outro, comunidades populares serão removidas de seus batalhados e perversos locais de moradia, a população pobre e trabalhadora será a maior vítima do Choque de Ordem e aceitaremos passivamente a demagogia dos muros de segurança e isolamento acústicos nas vias expressas do Rio de Janeiro(1).

Rio de Janeiro da tríade Lula, Sérgio Cabral e Eduardo Paes, fantoches aliados e necessários à ordem dominante! Rio de Janeiro contra a covardia em defesa dos royalties, majoritariamente privatizados e longe de favorecer o conjunto da população do país, que precisará acompanhar, mesmo pedindo para Galvão calar-se, a imposição do sonho de um hexa cuja Taça jamais tocará! Rio de Janeiro das belas praias e paisagens mostradas nas novelas globais, todavia dos caveirões e incursões policiais nas favelas. Rio de Janeiro das contradições de qualquer cidade grande, que enfrenta a exacerbação da violência, do desemprego e da miséria.

E é justamente essa concreta realidade que extingue sonhos, exatamente nas suas raízes. Crianças e jovens que nascem nesse mundo cruel, mas que necessitam conhecer alternativas para um futuro qualitativamente diferente. Wesley Guilber Rodrigues de Andrade, de 11 anos(2); Luan Victor da Silva Nascimento, de 13(3); Julia Estácio dos Santos, de 12(3), possuem nomes e idades diferentes, não moravam nas mesmas localidades e talvez não pensassem em ter as mesmas profissões. Entretanto, não poderemos ir além das suposições. Em comum, essas crianças brincavam, estudavam e certamente sonhavam, mas tiveram esses verbos interrompidos diante da barbárie cada vez mais presente em nosso cotidiano: serão transformadas em estatísticas já que não estão mais diante de nós! Por pouco não foram incluídos mais nomes na lista acima, já que a bala apenas acertou objetos da creche em Acari(4) e o braço direito de Ana Paula Gomes, de 7 anos(5). Entretanto, tantas outras crianças e jovens permanecerão vítimas da mesma crueldade.

Descobrir o verdadeiro sentido das coisas é querer saber demais, pois nossos conhecimentos devem se limitar à manutenção da engrenagem capitalista, que parece um inimigo invencível e enaltece a lógica de que é fácil ceder em vez de lutar, aprisionando nossos corpos sob a regra de que tudo se vende, se compra e se consome. Apesar das tentativas, nossos sonhos ainda não funcionam como mercadorias. Já que sonhar ainda não custa nada (será?), viajemos nos braços do infinito, onde tudo é mais bonito, nesse mundo de ilusão! Sonhemos com os pés fincados no chão e transformemos o sonho em realidade, pois nossos sonhos não podem continuar impossíveis(6).


*Gabriel Rodrigues Daumas Marques
Professor de Educação Física e Mestrando em Educação (UFRJ)


(1) Linha Vermelha terá muros de segurança e isolamento acústico. Ver http://odia.terra.com.br/rio/htm/linha_vermelha_tera_muros_de_seguranca_e_isolamento_acustico_231338.asp
 

(3) Duas crianças morrem por bala perdida no Rio, diz PM. Ver http://www.expressomt.com.br/noticia.asp?cod=66361&codDep=2

(4) Imagens que causariam espanto e revolta em qualquer país do mundo. Ver  http://www.redecontraviolencia.org/Noticias/659.html



(6) Vale a pena conferir e refletir a partir das músicas “Sonho de uma flauta”, de O Teatro Mágico http://letras.terra.com.br/o-teatro-magico/960864/; “Sonho Impossível”, de Chico Buarque http://www.letras.com.br/chico-buarque/sonho-impossivel; e “Sonhar não custa nada! Ou quase nada”, samba-enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel, de 1992 http://letras.terra.com.br/mocidade-rj/47467/

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Chapa 4 para o DCE Mario Prata

Nos dias 29 e 30 de junho e 01 de julho, vote CHAPA 4 e PROPORCIONALIDADE para o Diretório Central dos Estudantes da UFRJ - o DCE Mario Prata.





Aos que virão depois de nós
Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.

B. Brecht
Caros alunos:

Nos dias 29-30/06 e 01/07 ocorrerá mais uma eleição para o DCE, Diretório Central de Estudantes da UFRJ.

Como todos sabem apóio a Chapa 4, REVIDA MINERVA.

Tenho bons e consolidados motivos e argumentos para esta escolha, referendada numa prática de colaboração conjunta desde 2002.

Mas.... não escrevo para pedir votos e sim reflexão.

Citando Brecht, poeta preferido, não me furto da tarefa de falar “para os que virão depois de nós”, motivo maior do meu exercício do magistério com tanta paixão.

Jamais serei indiferente, especialmente quando se trata de refletir e procurar rumos para a universidade pública e lutar para transformar a dura realidade que nos cerca.

Ao longo de toda minha vida como professora, na área de ciências exatas, especialmente nas aulas de Metodologia Científica tentei, sempre, enfatizar que o futuro se constrói com reflexão crítica e ação transformadora sobre o presente.

Muro da vergonha na Linha Vermelha, HU desabando, salas superlotadas, mega eventos esportivos alienantes, assaltos, medo pairando sobre nossas cabeças nas mais simples ações cotidianas, empilhamentos diários nos nossos transportes coletivos, etc., são faces da mesma moeda: o modelo de sociedade vigente.

A eleição do DCE deveria e deve cumprir o papel de ser um importante momento de debate, reflexão, e participação estudantil na vida da UFRJ.

Momento de questionar a universidade em que estudamos e entender que aqui devemos exercitar nossa potencialidade de intervenção transformadora. Temas que tanto procurei trabalhar com vocês em sala de aula, especialmente de Metodologia Científica!

Assim, lamento que a atual gestão do DCE, Chapa 2, tenha escolhido momento tão impróprio para eleição fazendo uma eleição apressada no final do período, em momento de Provas e COPA do MUNDO.

Por quê? A quem interessa desperdiçar este momento e realizar uma eleição tão importante para este difícil momento da UFRJ, no final de período, entre provas, Copa e esvaziamento das salas de aula? Queremos inibir os debates, questionamentos e reflexão? Apostamos em campanhas de festas, cervejas e que vençam os cartazes mais bonitos, as campanhas mais ricas, as maiores chopadas? Vamos aqui reproduzir os processos eleitorais que tanto criticamos?

Merecemos muito mais do que isto na nossa universidade, a maior universidade federal do Brasil!

Como então escolher a melhor chapa, num processo eleitoral desta natureza? Prevalece o critério de avaliação da prática, que deve sempre referendar modelos em análise e seus postulados teóricos.

Prevalece o questionamento correto e a busca de respostas certas para perguntas certas. O que foi feito na atual gestão? Como foi feito? Que propõem os que querem mudar?

Por que chapas que se dizem de mudança como a chapa 3, ainda estão na UNE, hoje fábrica de carteirinhas e sustentação de políticas educacionais que precarizam a universidade?

As chapas 1 e Chapa 5 nem merecem minha análise, uma vez que claramente não se colocam no campo progressista dos que querem mudanças reais. Ambas estão a serviço do modelo de educação excludente (chapa 5) e de precarização da universidade (chapa 1).

Queremos assistência estudantil? Qual? Queremos cotas? Quais? Quem fez o debate de cotas? Por que não se tem coragem de debater esta questão tão delicada? Poderia aqui enumerar um número infinito de perguntas que precisaram ser formuladas e debatidas neste processo eleitoral.

Uma importante reflexão final:

Interessa-me mostrar que metodologia científica, pensada como um método de busca da verdade numa realidade objetiva deve ser aplicada em todas as situações. Metodologia: um conjunto de leis e procedimentos que nos permite ter um método correto de análise da realidade. O uso de um método correto nos permite chegar com segurança a um modelo de validação da verdade objetiva que sim, deve sempre ser validado e referendado experimentalmente. Processo bem mais difícil, nas ciências sociais do que nas exatas.

Mas aqui ainda cabe a máxima do materialismo dialético; as chapas não são o que elas dizem. As chapas são o que elas fazem.

Assim pensando estaremos aplicando o método materialista que busca no resultado experimental a comprovação do discurso/modelo teórico. Por isto tenho sempre apoiado a Chapa 4, REVIDA MINERVA, uma chapa com uma correta e referendada prática política.

Acreditando que a universidade pública é, ainda, o espaço de realizar uma educação transformadora fica meu pedido: pensem e debatam antes de votar! Fazendo isto vocês estarão usando a reflexão e o potencial transformador a serviço da manutenção e preservação da universidade pública, espaço de produção de saber e reflexão e não fábrica de diplomas e gestores empreendedores.

Pensem antes de votar e votem no melhor!

Carinhosamente,

Profa. Vera Salim
COPPE/UFRJ




Quando a manhã, vestida em seu robe de açafrão, derramava luzes sobre a terra, Zeus convocou os deuses para o conselho no mais alto dos picos das escarpas do Olimpo. Ele falava e todos escutavam com atenção. Ordenou aos deuses, seus comandados, que se mantivessem imparciais perante a contenda que se avizinhava. Que não ajudassem nem gregos nem troianos, que os guerreiros fossem deixados à própria sorte. Lembrou, severamente, que não estava, ali, para brincadeiras e que destruiria sem dó qualquer um que se lhe atravancasse os desejos. Riu dos deuses e para demonstrar sua superioridade, amarrou-se a uma imensa corrente de ouro lançando-a do céu à terra e profetizou: Se todos vocês, deuses e deusas, com todos os seus poderes e juntos e com todas as forças que houverem, puxarem a corrente de ouro, não moverão Zeus dos céus de onde comanda os acontecimentos, mas se eu a puxar, sem muito esforço, moverei terra e mar, lançando-os a todos por sobre algum monte do Olimpo onde permanecerão vagando, deuses e deusas desesperados, perdidos no firmamento. Todos se calaram obedientes, mas Minerva, com a coragem típica das filhas inquietas suplicou-lhe que a deixasse, pelo menos diminuir o sofrimento dos aqueus para que eles não padecessem totalmente. Zeus sorriu terno e virando-se, partiu em sua carruagem de fogos e ouros, embrenhando-se nos emaranhados do infinito.

No calor das inúmeras batalhas, Zeus compadecido pela intervenção da filha rebelde, impertinente, faz vista grossa e permite aos seus deuses e deusas, que se alinhem e ajam conforme suas convicções. Apolo, desviando as flechas dos seteiros contra Heitor, possibilita que este encurrale os guerreiros aqueus de volta as suas naus. O fim das batalhas parecia próximo quando o próprio Zeus, por interferência de Minerva, anoitece, repentinamente, um dia ainda claro, impossibilitando a estocada final, e fazendo recuar, desta maneira, os troianos de volta ao interior de suas muralhas.

As batalhas prosseguirão por muitos e muitos cantos, mas é neste canto oito que muitas verdades da Ilíada são reveladas e que, pela primeira vez, o desfecho, que todos conhecemos, da maneira saborosa como conhecemos os clássicos, sempre a relê-los, mesmo quando não os lemos, é anunciado.

Aqui, de outra maneira, nessas ilhas aterradas e atreladas a um passado sem vitórias, nessa grécia alguma, a justiça dos deuses e a bravura dos guerreiros deram lugar ao patético troca-troca de favores entre os que já nem fingem mais lutar, com suas bravatas e obediência cega aos ditames, sem metáforas ou delicadeza, do mercado financeiro e seus bonecos falantes. Aqui Minerva é uma estampa nos timbrados onde as vergonhas são oficialmente transmitidas. Perdeu sua petulância questionadora e, de filha rebelde, capaz de ponderar os delírios onipotentes de um Zeus enfurecido, passa a carimbo, borrando sem jeito a consagração conspiratória dos que já nem deuses nem honrados.

Revida, Minerva, que se posiciona contrária a UNE e reivindica a necessidade de uma nova organização estudantil.

Revida, Minerva, contra o REUNI e seus silêncios paralisantes e privatizantes.

Revida, Minerva, pelo acesso universal e cotas sociais com criação de vagas e ampliação dos cursos, com bandejão, bolsa e alojamento.

Revida, Minerva, pela participação efetiva dos estudantes em um movimento feito pelas bases.

Revida, Minerva, pelo direito de sonhar um mundo melhor e lutar pelos seus sonhos e romper com os silêncios cansados e atravessar ideias e inventar novos caminhos e experimentar destinos.

Revida, Minerva, que tua memória exige um futuro de luta e sabedoria, longe das odes metálicas e do mundo do petróleo. Afinal, a corrente era de vidro. Céus e terra nunca existiram. O ouro tilintava nos braços dos homens superiores com suas bravatas digitais. E nós, sem armas ou causas, tramando um confronto virtual em vidas supérfluas e desnecessárias ainda fingimos ser nossa essa Minerva universitária que já não mais nos guia. Guardamos sua estampa, perdemos sua rebeldia e contestação. Os decretos se amontoam e os retrocessos avançam. Já não temos planos... Revida, Minerva !!!!!!!

 
Professor Ricardo Kubrusly

sábado, 12 de junho de 2010

Por que Socialismo?

Em tempos de atenções voltadas para a Copa do Mundo, inclusive eu tendo acabado de assistir ao jogo Argentina 1 x 0 Nigéria, às vésperas da estreia da Seleção Brasileira, imaginava escrever sobre o futebol para atualizar o blog já há algum tempo sem postagem. Também poderia escrever sobre mais uma data comemorativa: o Dia dos Namorados! Todavia, enquanto colocava em dia a leitura da caixa de mensagens do correio eletrônico, deparei-me com um texto de Albert Einstein, alemão nascido numa família judaica a 14 de março de 1879.


Conhecido mundialmente pelo desenvolvimento da teoria da relatividade, vencedor do prêmio Nobel de Física em 1921, certamente o texto abaixo apresenta uma visão que poucas pessoas conhecem dessa importante figura da humanidade. Não conhecia o texto e compartilho aqui para leitura e comentários, destacando algumas partes bastante interessantes.



Por que Socialismo?(1)
Albert Einstein
Maio 1949

Primeira Edição: Monthly Review, nº 1, maio 1949.
Origem da presente Transcrição: Monthly Review.


É aconselhável que alguém que não é um especialista em assuntos econômicos e sociais expresse suas opiniões acerca do tema do socialismo? Creio, por uma quantidade de razões, que sim.

Consideramos primeiramente a questão desde o ponto de vista do conhecimento científico. Poderia parecer que não há diferenças metodológicas essenciais entre a astronomia e a economia: os cientistas de ambos os campos tentam descobrir leis de aceitabilidade geral para um grupo circunscrito de fenômenos com o objetivo de fazer a interconexão destes fenômenos tão claro quanto for possível. Mas na realidade tais diferenças existem. O descobrimento de leis gerais em economia se complica pela circunstância de que os fenômenos econômicos observados são freqüentemente influenciados por muitos fatores que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência que se acumulou desde o princípio do chamado período civilizado da história humana tem sido — como é sabido — grandemente influenciada e limitada por causas cuja natureza não são de nenhum modo exclusivamente econômicas. Por exemplo, a maior parte dos Estados na história devem sua existência à conquista. Os povos conquistadores se estabeleceram, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado. Atribuíram-se o monopólio da posse da terra e designaram para o sacerdócio alguém de suas fileiras. Os sacerdotes, com o controle da educação, fizeram da divisão de classes da sociedade uma instituição permanente e criaram um sistema de valores mediante o qual dali em diante o povo foi, em grande medida inconscientemente, guiado em sua conduta social.

Mas a tradição histórica é, por assim dizer, de ontem; em nenhuma parte temos realmente superado o que Thorstein Veblen chamou de “a fase depredadora” do desenvolvimento humano. Os feitos econômicos observáveis pertencem a esta fase e suas leis não são aplicáveis a outras fases. [Primeiro] Dado que o propósito real do socialismo é superar e avançar além da fase depredadora do desenvolvimento humano, a ciência econômica em seu estado atual não pode deixar muita luz sobre a sociedade socialista do futuro.

Segundo, o socialismo está dirigido para um fim social-ético. A ciência, sem embargo, não pode criar fins nem, ao menos, induzí-los nos seres humanos. Mas os fins em si mesmos são concebidos por personalidades com elevados ideais éticos — estes propósitos não são rígidos senão vitais e vigorosos — são adotados e levados adiante por aqueles muitos seres humanos que — quase inconscientemente — determinam a lenta evolução da sociedade.

Por estas razões, deveríamos estar atentos a não sobrestimar a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos, e não deveríamos assumir que os especialistas são os únicos que têm direito e expressar-se sobre as questões da organização da sociedade.

Inumeráveis vozes têm afirmado desde já algum tempo que a sociedade humana está passando por uma crise, que sua estabilidade está gravemente prejudicada. É característico desta situação que alguns indivíduos se sintam indiferentes, ou integrados, ou hostis ao grupo que pertencem, seja ele grande ou pequeno. Para ilustrar este ponto, deixem-me registrar aqui uma experiência pessoal. Recentemente discuti com um homem inteligente e bem disposto a ameaça de outra guerra, a que em minha opinião colocaria seriamente em perigo a existência da humanidade, e comentei que somente uma organização supranacional poderia proteger-nos daquele perigo. Depois, o homem, calmamente e friamente, me disse: “Por que você se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?”

Estou seguro que apenas um século atrás ninguém teria afirmado tão levianamente algo semelhante. É a declaração de um homem que se esforçou em vão para alcançar um equilíbrio interior e basicamente perdeu a esperança de alcançá-lo. É a expressão de uma solidão e isolamento de que muita gente sofre hoje em dia. Qual é a causa? Tem uma saída?

É fácil fazer estas perguntas, mas é difícil respondê-las com alguma segurança. Devo tratar, contudo, da melhor maneira que se pode, mesmo eu sendo consciente da ação de nossos sentimentos e esforços que podem ser contraditórios e obscuros e que não podem ser expressados em fórmulas fáceis e simples.

O homem é, ao mesmo tempo, um ser solitário e um ser social. Como ser solitário, busca proteger sua própria existência e aqueles que são mais próximos, para satisfazer seus desejos pessoais e desenvolver suas habilidades inatas. Como ser social, busca conquistar o reconhecimento e o afeto de seus semelhantes para compartilhar o seu prazer, confortá-los com sua solidariedade e melhorar suas condições de vida. Só a existência destes esforços, freqüentemente em conflito, podem dar conta do caráter especial do homem, e sua combinação específica determina até que ponto um indivíduo pode alcançar o equilíbrio interior e contribuir para o bem estar da sociedade. É bem possível que a força relativa destes dois impulsos diversos esteja, basicamente, fixada pela herança. Mas a personalidade que finalmente emerge está em grande medida formada pelo entorno em que o homem se encontra durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela tradição desta sociedade, e por sua valoração de diversos tipos de condutas. O conceito abstrato “sociedade” significa para o indivíduo a soma de suas relações, diretas e indiretas, desde os seus contemporâneos até as gerações anteriores. O individuo é capaz de pensar, sentir, atuar, e trabalhar por si mesmo, mas sua dependência da sociedade é tanta — em sua existência emocional e intelectual — que é impossível pensar nele, ou compreendê-lo, fora do marco da sociedade. É a “sociedade” quem lhe proporciona comida, roupas, ferramentas de trabalho, linguagem, as formas de pensamento, e a maior parte do conteúdo do pensamento; sua vida se faz possível graças ao trabalho e às conquistas dos muitos milhões, contemporâneos e antepassados, que estão escondidos detrás da pequena palavra “sociedade”.

É evidente então que a dependência do indivíduo pela sociedade é um feito natural que não pode ser abolido — exatamente como no caso das formigas e das abelhas. Sem dúvida, enquanto todas as ações das formigas e das abelhas estão fixadas até o menor detalhe por instintos rígidos e hereditários, os capatazes sociais e as interrelações dos seres humanos são muito variáveis e suscetíveis à mudança. A memória, a capacidade de realizar novas combinações, o dom da comunicação oral têm feito possíveis desenvolvimentos nos seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Estes desenvolvimentos se manifestam nas tradições, nas instituições e nas organizações; na literatura; nos avanços científicos e nos engenhos; nas obras de arte. Isto explica como ocorre que, em certo sentido, o homem possa influir sobre sua vida através de sua própria conduta e que neste processo o pensamento e os desejos conscientes são muito importantes.

O homem adquire ao nascer, por meio de herança, uma continuação biológica que é fixa e inalterável, que inclui os impulsos naturais que são característicos da espécie humana. Ademais, adquire durante sua vida uma constituição cultural que adota da sociedade por meio da comunicação e através de muitas outras formas. É esta constituição cultural que, com o passar do tempo, está sujeita às mudanças e que determina em grande medida a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna nos ensinou, usando o estudo das chamadas culturas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode apresentar grandes diferenças, dependendo dos padrões culturais prevalecentes e dos tipos de organização que predominam na sociedade. É nisto que podem fundar suas esperanças aqueles que se esforçam em melhorar as condições dos homens: os seres humanos não estão condenados, por sua constituição biológica, a aniquilarem- se uns aos outros, ou à mercê de um destino cruel e de castigos.

Se nos perguntamos como deveriam ser transformadas a estrutura da sociedade e a atitude do homem para fazer a vida tão satisfatória como possível, deveríamos estar conscientes de que somos incapazes de modificar certas condições. Como foi mencionado antes, a natureza biológica do homem não está, a todos efeitos práticos, sujeita à mudanças. Ademais, as condições criadas pelos desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos chegaram para ficar. Nos locais com população relativamente densa, com os produtos que são necessários para sua existência, uma profunda divisão do trabalho e um aparato altamente centralizado são absolutamente necessários. Os tempos – que em perspectivas parecem tão idílicos – em que homens ou grupos pequenos podiam ser completamente auto-suficientes se foram para sempre. É apenas um leve exagero dizer que a humanidade já constitui uma comunidade planetária de produção e consumo.

É alcançado agora o ponto aonde posso indicar brevemente o que para mim constitui a essência da crise de nosso tempo. Está relacionado com o individuo e sua relação com a sociedade. O indivíduo está mais consciente do que nunca de sua dependência da sociedade. Mas não sente esta dependência como um traço positivo, como um laço orgânico, como uma força protetora, mas uma ameaça a seus direitos naturais, ou a sua existência econômica. Por outro lado, sua posição na sociedade é tal que os impulsos egocêntricos de sua constituição são constantemente acentuados, enquanto que seus impulsos sociais, naturalmente mais débeis, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, em qualquer posição da sociedade, sofrem este deterioramento progressivo. Involuntários prisioneiros de seu próprio egocentrismo se sentem inseguros e privados do mais inocente e simples desfrute da vida. O homem só pode encontrar o sentido da vida, curta e perigosa como é, consagrando a sociedade.

A anarquia econômica da sociedade capitalista de hoje em dia é, em minha opinião, a verdadeira fonte dos males. Vemos diante de nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros se esforçam incessantemente em privar o outro dos frutos de seu trabalho coletivo — não pela força mas cumprindo inteiramente as regras legalmente estabelecidas. A este respeito é importante dar-se conta de que os meios de produção — isto é: toda a capacidade produtiva necessária para produzir bens de consumo assim como bens de capital adicionais — podem ser — e em sua maioria o são efetivamente — a propriedade privada de alguns indivíduos.

Para simplificar, na discussão que se segue chamarei “trabalhadores” os que participam na propriedade dos meios de produção, apesar de isto não corresponder ao uso corrente do termo. Usando os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que transformam- se em propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que lhe pagam, ambos medidos em termos de valor real. Em quanto o contrato do trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe está determinado não pelo valor real dos bens que produz mas por suas necessidades mais básicas e pela necessidade de força de trabalho por parte dos capitalistas em relação ao número de trabalhadores competindo por empregos. É importante entender que nem sequer na teoria o salário do trabalhador é determinado pelo valor do que produz.

O capital privado tende a se concentrar em poucas mãos, em parte devido à competência entre os capitalistas, e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho alentam a formação de unidades maiores de produção em detrimento das menores. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado cujo enorme poder não pode ser controlado efetivamente nem sequer por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é assim porque os membros dos corpos legislativos são selecionados pelos partidos políticos, em grande medida financiados ou de alguma maneira influenciados por capitalistas privados que, por todos efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A conseqüência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses dos grupos não privilegiados da população. Por outra parte, nas condições atuais os capitalistas privados controlam, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa escrita, rádio, educação). É então extremamente difícil, e por certo impossível na maioria dos casos, que cada cidadão possa chegar às conclusões objetivas e fazer uso inteligente de seus direitos políticos.

A situação prevalecente em uma sociedade baseada na propriedade privada do capital está então caracterizada por dois princípios mestres: primeiro, os meios de produção são propriedade de indivíduos, e estes dispõem deles como melhor lhes parecer; segundo, o contrato de trabalho é livre. Supostamente, não existe sociedade capitalista pura, neste sentido. Em particular, deve-se assinalar que os trabalhadores, por meio de grandes e amargas lutas políticas, tem conseguido uma forma um tanto melhorada do “livre contrato de trabalho” para certas categorias de trabalhadores. Mas, tomada como um todo, a economia atual não difere muito do capitalismo “puro”.

Esta mutilação dos indivíduos é o que considero o pior mal do capitalismo. Nosso sistema educativo como um todo sofre este mal. Uma atitude exageradamente competitiva se inculca no estudante, que é treinado para adorar o êxito da aquisição como uma preparação para sua futura carreira.

Estou convencido de que há somente uma forma de eliminar estes graves malefícios: através do estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educacional que seja orientado para fins sociais. Em tal economia, os meios de produção são propriedade da própria sociedade e utilizados de maneira planejada. Uma economia planejada, que ajuste a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho entre todos aptos a trabalhar e garantiria os meios de vida de todos, homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, além de promover suas próprias habilidades inatas, intentaria desenvolver em um sentido de responsabilidade por seu próximo, em lugar da glorificação do poder e do êxito em nossa sociedade atual.

Sem embargo, é preciso recordar que uma economia planificada não é todavia o socialismo. Uma economia planificada como tal pode ser acompanhada pela completa escravização do indivíduo. A realização do socialismo requer a solução de alguns problemas sócio-políticos extremamente difíceis: “como é possível, considerando a muito abarcadora centralização do poder, conseguir que a burocracia não seja todo poderosa e arrogante? Como podem proteger os direitos do indivíduo e mediante ele assegurar um contrapeso democrático ao poder da burocracia?”

Ter claras as metas e problemas do socialismo é de grande importância nesta época de transição. Dado que, nas circunstâncias atuais, a discussão livre e sem travas destes problemas são um grande tabú, considero a fundação desta revista (2) um importante serviço público.

--------------------------------------------------------------------------------
Notas:

1 - Este texto, originalmente intitulado “Why Socialism?”, foi escrito por Einstein para o primeiro número (1949) da revista marxista estadunidense Monthly Review. O texto, em sua versão na língua inglesa, pode ser consultado pelo http://www.monthlyr eview.org/ 598einst. htm. Também há uma versão em espanhol disponível em http://www.rebelion .org/noticia. php?id=24924. (Nota do Tradutor) 

2 - A revista marxista estadunidense “Monthly Review”.