quinta-feira, 4 de março de 2010

Proposta Curricular para o Ensino de Educação Física - Saquarema

Em 2008, fiz a prova para professor de Educação Física do município de Saquarema-RJ: 10 vagas divulgadas pelo edital. Como sempre, pelo critério de desempate, mesmo com número de pontos iguais ao do 6º colocado, fiquei na 11ª colocação. A primeira convocação veio apenas no início de 2009. No mesmo ano, mais professsores foram chamados numa segunda convocação e eu tomei posse no município em agosto, atuando na Educação de Jovens e Adultos da Escola Municipal Edilson Vignoli Marins.

Por conta da elaboração de um projeto e planejamento na referida escola para lecionar Educação Física no turno da noite e de ter o trabalho comentado e elogiado, a Coordenação do 2º Segmento do Ensino Fundamental entrou em contato comigo no final do ano, solicitando a formulação de uma proposta curricular para a rede municipal. Em breve o documento estará disponível em .doc e .pdf. Por enquanto, compartilho aqui no blog. Tal documento certamente necessita de amplos debates a partir de sua gradativa materialização para que novas formulações possam ser feitas no município e compartilhadas com as demais locaidades.

Gabriel.

PROPOSTA CURRICULAR PARA O ENSINO
DE EDUCAÇÃO FÍSICA

TERCEIRO E QUARTO CICLOS
DO ENSINO FUNDAMENTAL - 6º AO 9º ANOS

SAQUAREMA, 2010



Contextualização


A Educação Física é considerada componente curricular obrigatório da Educação Básica(1) e sua proposta pedagógica deve encontrar-se integrada à proposta da instituição escolar, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9396/96), que também apresenta a necessidade da educação escolar vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social. Diante desse quadro, apresentamos esse documento ao corpo docente de Educação Física do município de Saquarema a fim de retomar algumas importantes discussões da área e emitir suporte e orientações curriculares para a elaboração dos planos de trabalho, que zelem pela aprendizagem dos alunos e auxiliem na articulação com as famílias e a comunidade (BRASIL, 1996).

Longe de querer moldar as práticas pedagógicas e/ou ferir a autonomia do profissional no que tange à elaboração de seus planos curriculares, consideramos esta uma iniciativa, um pontapé inicial em Saquarema para que nos aproximemos de um eixo comum que sistematize os conteúdos da disciplina ao longo dos quatro anos do terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental. Estamos certos de que nossa presença na escola pode contribuir de maneira significativa para a formação básica do cidadão, que desenvolva a capacidade de aprender; que compreenda a fundamentação da sociedade em seus valores e aspectos tecnológicos, artísticos, políticos e sociais; e que adquira conhecimentos e habilidades, formando atitudes e valores (BRASIL, 1996).

Importantes iniciativas já foram apresentadas em outras localidades, tanto para a formulação de uma proposta curricular (MINAS GERAIS, 2005a; ARACAJU, 2007; SÃO PAULO, 2008) quanto para elaboração de materiais e livro didático de Educação Física (MINAS GERAIS, 2005b; CURITIBA, 2006; RIO DE JANEIRO, 2006).

A compreensão da cidadania como participação social e política; o posicionamento de maneira crítica, responsável e construtiva nas diferentes situações sociais; o conhecimento de características fundamentais do Brasil nas dimensões sociais, materiais e culturais; a valorização da pluralidade sociocultural brasileira; a percepção enquanto integrante e agente transformador do ambiente; o desenvolvimento do conhecimento ajustado sobre si próprio e do sentimento de confiança; o conhecimento do próprio corpo e sua devida valorização; a utilização de diversas linguagens para expressão e comunicação; a sapiência para utilização de diferentes fontes de informação e recursos tecnológicos; e o questionamento à realidade configuram o escopo de objetivos para os alunos do Ensino Fundamental, objetivos estes orientados por três aspectos fundamentais, a saber: a) princípio da inclusão, realizado por meio da participação e reflexão e no qual se busca a superação do quadro histórico de seleção entre indivíduos aptos e inaptos para as práticas corporais; b) princípio da diversidade, aplicado na construção do processo de ensino aprendizagem e no qual se busca a legitimação de variadas possibilidades de aprendizagem nas dimensões afetivas, cognitivas, motoras e socioculturais dos alunos; c) categorias de conteúdos, apresentados sob as formas conceitual (fatos, conceitos e princípios), procedimentos (ligados ao fazer) e atitudinal (normas, valores e atitudes) (BRASIL, 1998).

Os objetivos acima explicitados e os aspectos fundamentais contidos nos PCNs estarão imersos no currículo escolar, onde nenhuma disciplina se legitima de maneira isolada, ou seja, cada matéria ou disciplina é considerada como um componente curricular ao passo que seu objeto está articulado aos diversos objetos dos demais componentes do currículo. É necessário que ocorra um

Tratamento articulado do conhecimento sistematizado nas diferentes áreas que permite[a] ao aluno constatar, interpretar, compreender e explicar a realidade social complexa, formulando uma síntese no seu pensamento à medida que vai se apropriando do conhecimento científico universal sistematizado pelas diferentes ciências ou áreas do conhecimento. (...)
A relação entre as matérias enquanto partes e o currículo enquanto todo é uma das referências do conceito de currículo ampliado que propomos. (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 28-29)

Diante desse panorama, fica explícita a importância de construção coletiva de projetos político-pedagógicos nas escolas, com a participação da comunidade escolar, alicerçados sobre uma base material que congregue o trato com o conhecimento, a organização escolar e a normatização escolar. Qualquer proposta curricular feita de forma separada está desafiada por consideráveis limites.

Para consubstanciar a proposta curricular abaixo apresentada, elencamos inicialmente quatro diferentes grupos, contendo cada um deles quatro propostas de conteúdos, que foram divididas entre os quatro anos dos terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental. Vilaça & Marques (2006) criticam o quadrado mágico formado por futsal, basquetebol, voleibol e handebol enquanto a hegemonia da educação física na escola atualmente vigente, explicitando duas características fundamentais que o desporto acarreta: a pronta e acrítica obediência e internalização de regras estabelecidas por entidades regulamentadoras; e a exclusão e discriminação diante dos aspectos relacionados ao talento e à competição exacerbada. Ademais, pautamo-nos pelo entendimento de que as atividades físicas tematizadas pela Educação Física—Jogo, Ginástica, Lutas, Dança, Capoeira—são mecanismos de linguagem, de comunicação, que carregam sentidos, significados e constituem um acervo, um patrimônio da humanidade. Podem ser observados, compreendidos, executados e aprimorados a partir de dimensões técnicas sem que sejam reduzidos à performance ou a uma abordagem tecnicista (SOARES, 2006). Os objetivos dos conteúdos na escola não devem se basear nos objetivos do esporte, da dança ou da luta profissionais; devem, portanto, oportunizar à totalidade dos estudantes o desenvolvimento de suas potencialidades e seu aperfeiçoamento enquanto seres humanos (BRASIL, 1998). Optamos, portanto, diversificar as propostas curriculares, caminhando ao encontro do que Marques (2009) defende

Não rebaixar a Educação Física ao desportivismo hegemônico que segrega, exclui e ressalta valores individualistas é um desafio, que deve ser complementado pela apresentação de inovações, incorporando elementos da cultura corporal como a Dança, o Folclore, a Capoeira, as Brincadeiras Populares e contextualizando nossas práticas à realidade cruel da sociedade em que vivemos, para que possamos questionar e acumular forças rumo à construção de novas relações. Para construir o diferente, a obtenção e a conquista de respeitabilidade e a participação discente são essenciais, que, somados ao prazer, à alegria, à satisfação, podem facilitar o alcance de objetivos que hoje nos aparentam ser árduos (p. 1)

Os grupos foram os seguintes: a) Jogos – Jogos Populares; Grandes Jogos; Jogos cooperativos; e Jogos de rebater e de tabuleiro; b) Esportes – Esportes coletivos com bola (duplicado); Esportes de aventura; Esportes aquáticos/de praia; c) Lutas, Atletismo e Ginásticas – Ginástica; Capoeira; Atletismo; e Lutas; d) Atividades rítmicas e expressivas e conhecimentos sobre o corpo – Corpo e Sociedade; Folcore; Dança, ritmo e movimento; e Expressão e Comunicação Corporal. Sugerimos também que o conjunto das aulas garanta as discussões sobre aspectos sociais, históricos e culturais de cada um dos conteúdos assim como outras atividades possam ser concomitantemente praticadas, como piques, alongamentos, utilização de filmes e até mesmo confecção coletiva dos materiais necessários a partir de recicláveis e/ou outras matérias-primas.

Em relação à avaliação, consideramos interessante que a mesma seja composta por instrumentos diversos, como trabalhos em grupo, provas, relatórios, fichas de observação etc., que se relacionem aos objetivos indicados, se distanciem de mecanismos de pressão ou castigo e possam fornecer um panorama sobre os caminhos da proposta curricular realizada, ou seja, que gere elementos para aprimorarmos nossas práticas pedagógicas e contribuir de maneira significativa para o crescimento dos estudantes. Darido & Rangel (2005) apresentam interessantes e breves questões sobre o processo de avaliação bem como os conteúdos sob as dimensões conceitual, atitudinal e procedimental. A própria LDB apresenta a necessidade de que a avaliação seja contínua e cumulativa, prevalecendo os aspectos qualitativos sobre os quantitativos e os resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais (BRASIL, 1996). Os estudantes devem estar cientes de como serão avaliados e podem participar da elaboração de alguns dos instrumentos, algo que pode fazer parte do próprio processo contínuo de diagnóstico da situação.



Proposta Curricular(2)


6º ano / Fase VI

Temas transversais prioritários: Ética e Meio Ambiente

6.1 → Jogos Populares

• Amarelinha

• Pique-bandeira

• Queimado

• Bola de gude

• Pipa

• Pião

• Boliche


6.2 → Esportes com bola

• Futsal

• Voleibol

• Basquetebol

• Handebol

• Futebol

• Rugby

• Corfebol

• Hóquei


6.3 → Ginástica

• Rolamentos

• Avião

• Vela

• Ponte

• Equilíbrio

• Pirâmide humana

• Paradas com apoio

• Estrela


6.4 → Expressão e Comunicação Corporal

• Reflexo

• Mímica

• Memória

• Criatividade

• Coordenação motora

• Elementos do circo e do teatro

• Raciocínio

• Lógica

• Yoga



7º ano / Fase VII


Temas transversais prioritários: Pluralidade Cultural e Orientação Sexual


7.1 → Grandes Jogos

• Totó Humano

• Jogo dos cones

• Arremessobol

• Goleirobol


7.2 → Esportes de aventura

• Skate

• Patins

• Ciclismo

• Surfe

• Escalada

• Parkour


7.3 → Atletismo

• Saltos

• Corridas de curta e longa distância

• Arremessos

• Corrida de orientação


7.4 → Folclore

• Danças e personagens folclóricos

• Carnaval

• Tradições



8º ano / Fase VIII


Tema transversal prioritário: Saúde


8.1 → Jogos de rebater e de tabuleiro

• Tênis

• Tênis de mesa

• Peteca

• Badminton

• Basebol

• Taco

• Xadrez

• Damas

• Peteleco


8.2 → Esportes com bola

• Futsal

• Voleibol

• Basquetebol

• Handebol

• Futebol

• Rugby

• Corfebol

• Hóquei


8.3 → Lutas

• Esgrima

• Judô

• Karatê

• Boxe

• Taekwondo


8.4 → Dança, ritmo e movimento

• Coreografias

• Alongamentos

• Samba

• Forró

• Frevo

• Bambolês

• Dança da laranja


9º ano / Fase VIII


Tema transversal prioritário: Trabalho e Consumo


9.1 → Jogos cooperativos

• Passeio do bambolê

• Nó humano

• Lápis na garrafa

• Engrenagem humana

• João confiança


9.2 → Esportes aquáticos/de praia

• Natação

• Pólo aquático

• Nado sincronizado

• Vela

• Canoagem

• Remo

• Surfe

• Mergulho

• Voleibol de praia

• Futebol de areia

• Handebol de praia


9.3 → Capoeira

• Movimentos de ataque e defesa

• Roda

• Ladainha

• Instrumentos

• Maculelê


9.4 → Corpo e Sociedade

• Competição X cooperação

• Inclusão X exclusão

• Gênero e sexualidade

• Massagem e relaxamento

• Sentidos do corpo

• Lazer


(1) Vale mencionar seu aspecto facultativo ao aluno que cumpra jornada de trabalho igual ou superior a seis horas; maior de trinta anos de idade; que estiver prestando serviço militar inicial ou que, em situação similar, estiver obrigado à prática da educação física; portador de afecções congênitas ou adquiridas, infecções, traumatismo ou outras condições mórbidas, determinando distúrbios agudos ou agudizados; que tenha prole.

(2) A proposta curricular é também direcionada para a modalidade de Ensino de Jovens e Adultos, ou seja, consideramos as fases equivalentes aos respectivos períodos do Ensino Fundamental. Em cada um dos períodos, estão contidas sugestões gerais de conteúdos, que podem ser divididos nos bimestres, de acordo com a realidade da turma. Os temas transversais devem ser trabalhados de maneira correlata aos conteúdos da disciplina, buscando um diálogo com as demais disciplinas para articulação de projetos e atividades conjuntas.

REFERÊNCIAS

ARACAJU. Proposta Curricular de Educação Física. Departamento de Educação Física. Aracaju: Secretaria de Estado da Educação: 2007.

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei 9394, de 20 de dezembro de 1996.

______. Parâmetros Curriculares Nacionais. Terceiro e Quarto Ciclos do Ensino Fundamental. Educação Física. 1998a.

______. Parâmetros Curriculares Nacionais. Terceiro e Quarto Ciclos do Ensino Fundamental. Temas Transversais. 1998b.

COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do Ensino da Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.

CORREIA, Marcos Miranda. Trabalhando com jogos cooperativos. Campinas, SP: Papirus, 2006.

CURITIBA. Educação Física. 2 ed. Curitiba, Secretaria de Estado de Educação, 2006.

DARIDO, Suraya Cristina & RANGEL, Irene Conceição Andrade. Educação Física na Escola: implicações para a prática pedagógica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.

MARQUES, Gabriel Rodrigues Daumas. Educação Física na escola pública: entre os ditames da ordem vigente e as possibilidades de resistência. Lecturas, Buenos Aires, v. 14, n. 138, nov. 2009.

MINAS GERAIS. Proposta Curricular: Educação Física. Ensinos Fundamental e Médio. CBC. Minas Gerais: Secretaria de Estado de Educação, 2005a.

______. Roteiro de Atividades. Educação Física. Ensino Fundamental. Minas Gerais: Secretaria de Estado de Educação, 2005b.

RIO DE JANEIRO. Reorientação Curricular: Educação Física. Materiais didáticos. Rio de Janeiro: Secretaria de Estado de Educação, 2006.

SÃO PAULO. Proposta Curricular do Estado de São Paulo: Educação Física. São Paulo: Secretaria de Estado de Educação, 2008.

SOARES, Carmen Lúcia. Educação Física Escolar: conhecimento e especificidade. Revista Paulista de Ed. Física, supl. 2, p. 6-12, 1996.

VILAÇA, Murilo Mariano; MARQUES, Gabriel Rodrigues Daumas. Educação Física desportivista: considerações críticas à prática, predominantemente vigente, de Educação Física escolar. In: ENCONTRO FLUMINENSE DE EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR, 10., 2006, Niterói. Lazer e Educação Física escolar. Anais... Niterói: Departamento de Educação Física e Desportos, Universidade Federal Fluminense, 2006.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Uma categórica vitória*

Desde a final da Taça Guanabara do ano passado, quando o Botafogo venceu a equipe do Resende por 3 x 0, não comparecia ao Maracanã, já que os jogos do clube têm sido no Engenhão. Estive nas finais da Taça Guanabara de 2006, 2009 e 2010 e na da Taça Rio em 2007 e saí comemorando título nas quatro ocasiões.

Alguns fantasmas acompanhavam fortemente o Glorioso: uma goleada de 6 x 0 semanas antes para o suposto time da virada em pleno Engenhão; dois anos depois, o retorno do árbitro Marcelo de Lima Henrique no sorteio para a arbitragem da final (o mesmo da decisão da Taça Guanabara de 2008, que garfou escandalosamente o alvinegro); e o binômio desconfiança-impaciência da oscilante torcida do Botafogo, boa parte acostumada a acompanhar o Fogão apelas pelo sofá!



Mas o domingo de 21 de fevereiro foi dos caça-fantasmas! O árbitro do chororô quase influenciou negativamente no primeiro tempo ao não marcar pênalti claríssimo em cima de El Loco Abreu, mas acertou ao expulsar o gângster Nilton – que merece uma severa punição após a falta criminosa – e marcar o pênalti de Titi e expulsá-lo. A Sofá-Fogo não compareceu em muito peso; estava em menor número que os vascaínos, mas apoiou o Fogão durante toda a partida, cantando, incentivando e vibrando com mais uma conquista, fazendo muito mais barulho que a torcida da Colina. Ainda há muitos daqueles que insistem em ir ao Maraca para assistir ao jogo sentadinho, vício dos dias que ficam sentados nos sofás! E certamente o Ghostbuster Joel Santana mostrou sua Estrela, referendando sua campanha em finais de turno.



Confesso que não sou muito fã de Joel, mas preciso destacar que nosso novo técnico conseguiu acertar a defesa do time e criar um estilo de jogo com o cartel – fraco para a história gloriosa do Botafogo, diga-se de passagem – que já demonstrara garra e dedicação para eliminar a urubuzada na semifinal e fazer uma boa campanha nos jogos restantes da primeira fase. Algumas contratações, como já se anunciam, são necessárias. Assim como um patrocinador, pois o Botafogo tem sido divulgado internacionalmente com seu ataque Mercosul e tem uma história a contar e ainda em curso para ser construída. Todavia, o que o Botafogo deve investir com seriedade é no aproveitamento da garotada. O goleiro Renan, o lateral-esquerdo Gabriel, o meia Wellington Junior e o agora xodó Caio devem receber chances para crescer profissionalmente e a torcida precisa apoiar e ter paciência com as pratas da casa!

Retornando ao jogo de domingo, dia de Maracanã, tivemos a certeza de que os 6 x 0 foram bem retribuídos. Phelipe Coutinho e Carlos Alberto firularam e não produziram nada. Dodô novamente sentiu a pressão de enfrentar a torcida alvinegra e viu que está no clube certo para ser vice-campeão! Aos vascaínos, portanto: Uh, aceita! Porque Vice é o Vasco! E no Maracanã o Bacalhau virou Sardinha! Infelizmente há ainda muitas pessoas que insistem em levar resultados e gozações para a porrada! Precisamos aprender e entender que o futebol deve ser um espetáculo harmônico. Entre as torcidas, precisa-se de paz. A guerra que precisamos é em outra instância: contra a fome, a miséria e as mazelas que se multiplicam pela base opressora e cruel em que vivemos.

Ao conjunto do time do Botafogo falta habilidade, qualidade no passe e criação de jogadas, dentre outros fatores. Talvez o atual quartel seja o pior dentre os quatro grandes do Rio. Mas não faltou determinação, garra e atitude para que em menos de uma semana derrotássemos os campeões brasileiros das Séries A e B e nos tornássemos com categoria bicampeões da Taça Guanabara. Ao finalizar o Estadual, teremos estado em pelo menos 12 das 15 finais, vencendo por enquanto 1 Estadual, 2 Taças Rio e 3 Taças Guanabara. Uma regularidade bastante relevante, que pode avançar com mais conquistas e servir como exemplo para as competições nacionais.


*Gabriel Marques, botafoguense desde 30/05/1985.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sem direito ao aborto*

Trabalhadora de padaria é atacada por ex-companheiro. A matéria poderia ser a mesma, recordada, reescrita, não fosse pela localidade, pelas características dos sujeitos envolvidos, pela data em que foi publicada e pelas conseqüências trágicas. Na padaria ao lado de minha casa, no Engenho de Dentro, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, na última terça-feira, Daiana Alves da Silva, de 24 anos, foi surpreendida pelo ex-marido e pai de suas duas filhas. Enquanto trabalhava, o sujeito chegou por trás, ateou gasolina e riscou o fósforo antes que Daiana conseguisse fugir.(1) Há pouco mais de 2 anos, em Araraquara-SP, uma balconista de padaria de 17 anos levou três tiros de seu ex-namorado, um jovem de 21 anos, que ainda amarrou seu corpo em pedras para que afundasse nas águas do Rio Jacaré.(2) Até onde sabemos, Daiana se encontra em estado grave no Hospital Municipal Salgado Filho, com queimaduras em 45% do corpo.

Infelizmente, o cotidiano é ainda mais cruel, pois não se trata apenas de mulheres que trabalham em padarias. Há menos de um mês, cenas horripilantes não eram ficção: Maria Islaine de Morais, proprietária de um salão de beleza, de 31 anos, levou sete tiros do ex-marido, na Região da Pampulha, em Belo Horizonte-MG.(3) Em outubro de 2008, em Sorocaba-SP, Daniel Pereira de Souza assassinou com um tiro na cabeça sua ex-namorada Camila Silva Araújo, de 16 anos, com quem tinha um filho.(4) Em setembro do ano passado, em São José dos Campos-SP, Marta Batista do Nascimento, de 48 anos, foi baleada no peito pelo pedreiro Jerônimo, que se suicidou e matou outras duas pessoas.(5) Não tenho dúvidas de que esse breve levantamento é miúdo diante de casos que se multiplicam país afora e que possuem características em comum: muitas das vezes há queixas e denúncias por parte das mulheres vítimas de agressões, que são negligenciadas ou não recebem a devida atenção por parte das autoridades. Tal quadro se configura em mais um reflexo da podridão da lógica opressora e machista da sociedade capitalista.

Recentemente, fiquei impressionado ao ler uma chamada para leitura de matéria em um blog, publicada pelo mesmo veículo de comunicação que se alarma – ou se usa da matéria para vender mais? – com o caso de Daiana.(6) O cabalista Shmuel Lemle publicou O papel do homem e da mulher, explicitando que a mulher veio ao mundo para ajudar o marido na sua correção espiritual e no seu processo de desenvolvimento e que sem ela o homem não consegue atingir o máximo de seu potencial. Flávio Alves da Silva pode muito bem ter lido uma baboseira dessas e não aceitou não poder chegar ao máximo de seu potencial, já que Daiana decidira romper o relacionamento! Perdoai-os, será que eles não sabem o que fazem, o que escrevem e o que defendem?

A lição cabalística é mais uma das facetas sobre as quais se ergue a divisão sexual do trabalho. A partir dessa simplista postagem, nota-se um forte argumento, uma legitimação do machismo, que, ao chegar no seu extremo, pode desencadear assassinatos, ameaças e ações truculentas contra as mulheres! Em outros momentos ou em outras culturas, serve para garantir a poligamia ou a existência dos dotes. Elas não podem ter o direito de decidir? Historicamente, tem sido importante para a conservação da ordem vigente a fidelidade da mulher, objeto reprodutor e responsável pelos cuidados com a casa e os(as) filhos(as). O próprio Dia Internacional da Mulher é deturpado pela ideologia burguesa para expansão do consumo.(7) E dia-a-dia acompanhamos nos programas televisivos a exposição exacerbada de bundas, corpos-violões ou capôs de fuscas; em letras de músicas e coreografias que, sutil ou de maneira escrachada dignificam cachorras, galinhas, piranhas, novinhas, popozudas presas em gaiolas ou frutas transgênicas fresquinhas para serem chupadas e/ou comidas! O sentimento de propriedade privada é evidenciado na magnífica criação artística recente, que necessitou de duas pessoas para compor que a mulher é a mulher e melhor que uma mulher só dez mulher!(8)

Não, elas não podem ter o direito de decidir. As ricas até conseguem com maior segurança, de maneira escamoteada! As pobres terão maior dificuldade de enfrentar as avalanches ideológicas, fortalecidas pelas pressões de uma Igreja tirânica, que esteve sempre ao lado dos poderosos em busca de ouro, status e poder. Entretanto, aquela que já mandou para a fogueira e financiou guerras, hoje hipocritamente afirma que as mulheres devem prosseguir com seus instintos maternais e defender a vida!

No texto da Lei 11.340, em vigor desde 22 de setembro de 2006, conhecida como Lei Maria da Penha, encontra-se a criação de mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Poderia aprofundar os pormenores da Lei assim como a infra-estrutura necessária para implementação rígida da mesma, como uma maior existência de delegacias especializadas, proteção irrestrita às vítimas – antes das fatalidades – com apoio psicológico, educacional e de assistência social etc. Pode-se dizer que avanços aconteceram em alguns sentidos, como a participação de mulheres em profissões masculinizadas ou até mesmo a homologação da Lei mencionada. Todavia, os retrocessos possuem muita força, ao pagar salários desiguais para trabalhos iguais; ao não serem construídas creches para atender a real demanda; ao criminalizar o aborto etc.

Se a dominação da mulher pelo homem se origina a partir da necessidade da exploração do ser humano pelo ser humano, devemos radicalizar e fazer nascer novas necessidades e novas relações, sem que essas sejam abortadas.


*Gabriel Rodrigues Daumas Marques
Professor de Educação Física e Mestrando em Educação (UFRJ)


(1) Matérias de 16/02/2010:

(2) Matérias de 20/01/2008:

(3) Matéria de 20/01/2010:

(4) Matéria de 20/10/2008:

(5) Matéria de 15/10/2009:

(6) Matéria de 07/02/2010:

(7) Luta Mulher, de Vivian Machado Dutra:

(8) Mulher, Mulher, Mulher (idéia fixa), de Neguinho da Beija-Flor e Murilo Rayol.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Quanto riso, oh! Quanta alegria!

Em ritmo de festa, milhões de foliões já preparam seus apetrechos e fantasias, programam suas viagens e entoam refrões para se esbaldar nas ruas de diversas localidades de nosso extenso país.  Por diversos motivos, sempre gostei do Carnaval: quando criança, ia ver com meus pais os carros alegóricos e acompanhava os desfiles das escolas de samba e anotava as notas de cada quesito durante a apuração; já adolescente, usava fantasias, viajava, conhecia novas pessoas, beijava na boca etc. Planejo o terceiro ano consecutivo na simpaticíssima Cidade Maravilhosa, curtindo os blocos, as praias, cachoeiras e demais belezas. Porém, para fazer valer o nome do blog, tentarei compartilhar um pouco da angústia que tem me acompanhado freqüentemente.

Muitos esbravejam por aí que o ano oficialmente se inicia apenas após o Carnaval, que é tempo de afogar as mágoas, esquecer os problemas, se embebedar e por aí vai. É aí que reside algo bastante perigoso e conservador, visto que pretende preservar a realidade concreta ao nosso redor. Com auxílio da mídia, a criação, a irreverência, a ironia que poderiam ser mecanismos de crítica e superação são transformados em mercadorias a serem consumidas pragmaticamente a fim de gerar lucros para grandes corporações. 

Dois mil e dez já teve seu início há muito tempo, bem antes dos pirotécnicos foguetórios que iluminaram a virada para o dia primeiro de janeiro. Não nos esqueçamos de que em outubro teremos novamente o processo eleitoral, renovando, sucedendo, modificando presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais. Renovando, sucedendo, modificando o quê, cara pálida!? Mais falsas polarizações entre os tucanos e petistas serão apresentadas, ludibriando a população, que precisará digerir novas propagandas do sempre mesmo projeto vigente, com apenas trocas de máscaras e embalagens, mantendo o conteúdo: opressor, corrupto, burguês! Tal como a escolha da sede dos Jogos Olímpicos de 2016, é um novo jogo de cartas marcadas, dessa vez com uma dama de estrela vermelha que hoje tem sua combatividade apagada.

E como vamos nos esquecer? Tivemos gripe suína e crise do capital no ano passado tomando conta dos noticiários! O mensalão DEMocrata e a permanência de Arruda no Distrito Federal tal como ocorre com o presidente Lula: caem-se as laranjas mas não derrubam a laranjeira (todas podres, diga-se de passagem). No início do ano, desastres em Angra dos Reis e no Haiti que ratificaram a hipocrisia dos poderosos ao apelar para a solidariedade enquanto suas contas bancárias possuem apenas uma direção: superávit! Logo essas capas de jornais serão trocadas por outras, com semelhantes desgraças, tristezas, choros e agonias, usando Joões e Marias como fantoches de um espetáculo com desfechos imprevisíveis, enquanto não mudamos o rumo da atual história. Tá com calor aí? Não esquenta! Pegue uma gelada, coloque a amarelinha, pois acompanharemos a nossa Seleção rumo ao Hexa! Será que as mãos que constroem o país levantam a taça?

É isso. Já estamos rumando às ruas para curtir o Carnaval, tempo de festas, mas também período no qual aumentam-se os índices de violência, conseqüência corriqueira informada de maneira trivial por aqueles que querem nos vender, nos comprar, nos matar de rir e nos cegar! São assaltos, roubos, furtos, estupros, acidentes de carro etc. que se multiplicam nesse período, que também consegue jogar a sujeira para debaixo do tapete, fingindo que não há miséria, fome ou desemprego. E é também num Carnaval que podemos vislumbrar lampejos e afirmar com confiança que há uma luz no fim do túnel. Em 2008, durante um bloco na Praia de Ipanema lotada, um daqueles ambulantes - sim, daqueles que muitas vezes atrapalha, empurra e vende caro - teve seu isopor repleto de bebidas caído ao chão, varando gelo, latinhas e garrafas pela rua e calçadas. De repente, homens e mulheres caminham, se abaixam, pegam os itens e... Colocam dentro do isopor do trabalhador!

Aprendamos a ir para as ruas com o Carnaval, para fazer com que os risos e as alegrias possam ser acessíveis e compartilhados com toda a humanidade.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Retrospectiva 2009




Que venha 2010!


Dois mil e nove se foi e é tempo de revigorarmos as energias para iniciar 2010, vislumbrando mudanças e superações que possibilitem melhorias em relação aos anos anteriores, principalmente no que tange à ordem social. Pessoalmente, tentarei resgatar um pouco do que se passou e apresentar uma ligeira retrospectiva desse ano de 2009, no qual...

... profissionalmente, houve dificuldades, superação e novidades. Depois de quatro anos atuando como professor da Colônia de Férias do Sport Club Mackenzie, assumi a coordenação das atividades de janeiro. Após ser aprovado em alguns concursos públicos, enfim chegaram duas convocações: para a rede estadual do Rio de Janeiro e para a rede municipal de Saquarema-RJ, tirando um professor do rol de desempregados. Como ponto negativo, fui obrigado a me registrar no famigerado sistema CONFEF/CREFs! Em contrapartida, as aulas de Educação Física nas duas instituições em que trabalho certamente configuram algo positivo: modificaram impressões e entendimentos sobre o significado e os objetivos da disciplina e os estudantes me ajudaram a crescer ainda mais.

... academicamente, foi vitorioso. Foram os primeiros meses do curto período do Mestrado em Educação na UFRJ, meses durante os quais pude trilhar um caminho para o projeto de dissertação e iniciar as pesquisas de campo no Núcleo de Documentação e Memória do Colégio Pedro II. Tive que trancar o curso de Pedagogia e obtive o título de especialista em Educação Física Escolar após defender a monografia em dezembro. A participação na Comissão Organizadora do IX Congresso Ibero-Americano de História da Educação Latino-Americana e na Jornada do Curso de Especialização Saberes e Práticas na Educação Básica garantiu a presença em eventos acadêmicos e científicos.

... arrumei algum tempo para visitar, conversar e comemorar aniversários com amigos e parentes; dançar forró; participar de blocos carnavalescos na Cidade Maravilhosa; escutar música ao vivo; jogar algumas peladas de futebol e futsal; conhecer e revisitar alguns barzinhos e restaurantes; comer além do normal em rodízios de pizzas ou petiscos; mergulhar em praias e cachoeiras; criar e manter o blog Além do Trivial; realizar mais fotografias após comprar uma máquina digital etc. Pude acompanhar o Botafogo em um ano delicado, sendo campeão da Taça Guanabara, sendo eliminado da Copa do Brasil, perdendo a final do Campeonato Estadual e escapando na última rodada do rebaixamento para a Série B do Campeonato Brasileiro: estive lá para apoiar, por diversas vezes no Engenhão, no Maracanã e até mesmo no Estádio dos Aflitos, em Recife.

... culturalmente, vários novos livros, artigos e trabalhos foram lidos e estudados, aumentando o cabedal de conhecimento nos campos do Marxismo, da Educação, da Educação Física e da História da Educação. Filmes excelentes no cinema e em casa. Mesmo aos que já tinha assistido, novos olhares ocorreram ao revê-los. Cito e indico alguns deles: A Culpa é do Fidel; Cidadão Boilesen; Entre os Muros da Escola; O Caçador de pipa;, Ensaio sobre a cegueira; O Corte; Cronicamente inviável; Quem quer ser um milionário?; 12 homens e uma sentença; A vila; Capitães de Abril; Os gritos do silêncio; Vida de inseto; Fahrenheit 11/09; O pianista; O Jardineiro Fiel; FormiguinhaZ; Patch Adams; O curioso caso de Benjamin Button; e Em busca da Terra do Nunca. As comédias dominaram as idas ao teatro, com Os Deznecessários; Z.É. Zenas Emprovisadas; e Musicomédia! Vale ressaltar também a entrevista para o encarte Trabalho e Cidadania da Folha Dirigida e a participação ao vivo no programa da TV Brasil ATITUDE.COM para debater o trote nas Universidades.

... consegui realizar algumas viagens, revisitando Pentagna, Teresópolis, Piraí, Recife-PE, Maceió-AL, Macaé, Rio das Ostras, Campo Grande-MS e passando pela primeira vez em Engenheiro Paulo de Frontin, Penedo, Gaibu-PE, Porto de Galinhas-PE, Quissamã e Bonito-MS.

... a militância do Movimento Quem Vem Com Tudo Não Cansa prosseguiu firme e forte. Estive diretamente envolvido na Recepção da Calourada da UFRJ; na Calourada do DA de Farmácia da UFF; na Calourada do DCE Mario Prata; na Campanha Estágio Já do CA de Pedagogia da UFRJ; na barraquinha no Furdunço de Educação Física e Dança; nas últimas sessões como representante estudantil do Conselho Universitário; no Encontro Nacional de Estudantes de Pedagogia, na UFPE; no Luau na Praia Vermelha e no Arraiá com bingo em Piedade. Defendi a tese Para enfrentar a crise, organizar a juventude e consolidar o novo Movimento Estudantil no Congresso Nacional de Estudantes e novamente levei a voz do Movimento Estudantil para os estudantes secundaristas durante o Conhecendo a UFRJ. Perdemos as eleições para o CA de Pedagogia, mas obtivemos expressivos 1.436 votos nas eleições para o DCE da UFRJ, sendo a segunda maior força na maior Universidade Federal do país.

... conjunturalmente, prosseguiu a crise da economia capitalista, onerando os trabalhadores com desemprego, retirada de direitos e outros ataques, enquanto o presidente Lula mantém sua política de conciliação de classes, acima do bem e do mal, privilegiando a manutenção da ordem opressora, corrupta e exploradora no país, obtendo como premiação máxima a escolha do Rio de Janeiro como sede para os Jogos Olímpicos de 2016. Percebemos a importância de potencializar a reorganização da classe trabalhadora de maneira independente e oposta à burguesia. As atividades “Introdução ao Marxismo” e “Análise da crise numa perspectiva marxista” mais a publicação da 2ª edição de Marxismo Militante foram importantes instrumentos organizados e realizados pelo Coletivo Marxista.

... o Governo Sérgio Cabral/PMDB atacou os profissionais da Educação do Rio de Janeiro moral, econômica e politicamente. Teve de recuar por conta da mobilização crescente, que, por meio de reuniões e assembléias, deflagrou paralisações, greve e manifestações, uma delas duramente reprimida com gás de pimenta, bombas e cassetetes!

... foi ano de perda, choro e saudade! Moacyr Marques, vô ou Císar nos deixou, fechando em 5 de dezembro o ciclo da vida para o qual todos caminhamos. Meu avô fazia questão de estar em todos os momentos importantes; levava-me para a pracinha para dar pequenas voltas nas charretes, soltar bolas de sabão e comer salgadinho enquanto ele tomava o quente ou a cervejinha; acompanhava as peladas de futebol, perguntava sempre se jogaria de back, posição que ele jogara, e elogiava as atuações, mesmo quando eram complicadas; volta e meia, de maneira disfarçada, repassava-me dinheiro com desculpas de que era para eu comprar um refrigerante, piscando os olhos. Lembro-me dele em seu fusquinha quando ia nos visitar na vila duas vezes por semana, nas viagens para Praia Seca, Rio das Ostras, Pentagna ou nos churrascos e tira-gostos lá em casa. Seu carinho, seu apoio, sua presença estarão vivos em nossos corações e mentes, eternamente. Dedico o balanço e as conquistas de 2009 à memória de meu avô.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Turma 3001 do CEPURB na Trilha da Urca

Depois de dois meses de perturbação e insistência, conseguimos viabilizar o transporte para a atividade de Educação Física da turma 3001 do C. E. Professor Ubiratan Reis Barbosa, que ocorreu nesta quinta-feira, 17 de dezembro, na Trilha da Urca, no Rio de Janeiro. Dez alunos e a Professora Daisy participaram.


A Trilha da Urca faz parte da Mata Atlântica conservada na Zona Sul da cidade carioca. Seu acesso ocorre pela Pista Claudio Coutinho e sua duração de aproximadamente 40 minutos em ritmo lento leva até os 220 metros de altitude do Morro da Urca, de onde podemos visualizar belas paisagens, como a Enseada de Botafogo, o Aterro do Flamengo, a Praia Vermelha, a Ponte Rio-Niterói, o Morro do Pão de Açúcar, dentre outras. Podemos encontrar diferentes espécies da flaura e da fauna, respirar um ar purificado e vivenciar uma agradável caminhada nesse interessante ponto geográfico. Importante dica é que após às 19h, pode-se descer gratuitamente por meio do teleférico (Bondinho)!







Mesmo exaustos(as) e desgastados(as), essa atividade pedagógica foi bastante prazerosa e valeu a manhã de quinta-feira, que terminou com cachorro-quente e água de coco antes de voltarmos para Nilópolis. Uma pena não termos contado com todos(as) os(as) alunos(as) da turma, mas outras oportunidades virão. E certamente finalizamos o ano letivo com chave de ouro depois desses 6 meses de convivência. Boa sorte na continuidade dos estudos para a turma que em breve finaliza o Ensino Médio e ruma para novas etapas da vida! Que floresçam as chamas de indignação perante as injustiças e estejam sempre vivos e ativos em suas mentes, corações, transitando pelo sangue o poder da transformação!





Compartilho abaixo o Pré-Projeto enviado para a Direção do Colégio.


Colégio Estadual Professor Ubiratan Reis Barbosa
Nilópolis, 12 de novembro de 2009
Educação Física. Professor Gabriel Marques
Pré-Projeto para atividade externa. Turma 3001


Os estudantes da turma 3001 têm trabalhado a temática Corpo e Sociedade na disciplina Educação Física desde o mês de julho. Diversos assuntos e práticas corporais têm sido desenvolvidos ao longo de nossas aulas. Consideramos que o processo de ensino-aprendizagem pode ser assegurado não apenas em qualquer espaço da instituição educacional, como também podemos transportar seus sujeitos para outras localidades, em atividades externas que coadunem com a proposta político-pedagógica. Além disso, alguns dos alunos estão às vésperas de terminar o Ensino Médio e participarão de processos avaliativos como o Exame Nacional do Ensino Médio e concursos de seleção para o Ensino Superior em instituições públicas e particulares, sendo pertinente que desenvolvam e assimilem aspectos históricos, culturais, políticos e sociais para sua formação, integrando os conhecimentos de maneira interdisciplinar.

A partir dessa caracterização, vimos por meio deste pré-projeto solicitar à Direção do Colégio a disponibilização de recursos financeiros e materiais(1) que viabilizem a ida e o retorno ao bairro da Urca, por meio de transporte coletivo (ônibus ou vans), de aproximadamente vinte e cinco estudantes da turma 3.001 e pelo menos três profissionais da Educação(2). Temos como propósito oportunizar a vivência de uma caminhada ao Morro da Urca, iniciada com uma sessão de alongamento e aquecimento na Praia Vermelha. O acesso à trilha se dá pela pista Cláudio Coutinho e a chegada aos 220 metros de altitude do Morro dura cerca de 30 a 40 minutos. Acreditamos que a atividade externa propiciará o desenvolvimento de conhecimentos interdisciplinares, haja vista que:

 Estaremos em uma importante região da Mata Atlântica, conservada na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde podem ser integradas questões de Biologia, Geografia, Geologia, Botânica, História etc.;

 O deslocamento do bondinho entre a Praia Vermelha e o Morro da Urca e entre o Morro da Urca e o Morro do Pão de Açúcar materializa conhecimentos de Física e Matemática, como roldanas, deslocamento, movimento etc.

 A região atrai diversos turistas de variadas regiões do planeta, onde podem ser utilizadas línguas estrangeiras, como espanhol e inglês;

 As fotografias a partir da vista panorâmica podem gerar discussões artísticas;

 O alongamento, a caminhada, a preservação da natureza, o contato do corpo com a natureza, a importância de estar bem alimentado e de ingerir líquidos, a utilização de filtro solar, dentre outras questões, farão parte de nossa manhã.

Nossa intenção é realizar a atividade externa numa quinta-feira (26 de novembro; 3 ou 10 de dezembro).

Nossa proposta de cronograma é dividida em:

 Ponto de encontro: 6:50, na porta do CEPURB
 Saída do ônibus: no máximo às 7:30
 Desembarque na Praia Vermelha: por volta de 8:20
 Orientações gerais, alongamento e aquecimento: 8:30 às 8:50
 Caminhada pela Pista Cláudio Coutinho: 8:50 às 9h
 Subida até o Morro da Urca: 9h às 9:40
 Lanche coletivo(3) e observação panorâmica da cidade do Rio de Janeiro: 9:40 às 10:30
 Descida e caminhada até o local de estacionamento do ônibus: 10:30 às 11:20
 Previsão de retorno para o CEPURB: 12:10

Por fim, seria interessante que fôssemos até o Morro do Pão de Açúcar, atividade gratuita para instituições públicas de ensino. Porém, a reserva precisa ser realizada no início do ano e para 2009 não há mais vagas(4). É nosso anseio organizar para garantir com maior qualidade essa atividade em 2010. Solicitamos, encarecidamente, à Direção, que viabilize as condições para que possamos materializar esse projeto inicial.

Atenciosamente,

Professor Gabriel Marques.


(1) Os recursos necessários serão destinados ao aluguel do transporte coletivo e pagamento de dois bilhetes para subida e descida ao Morro da Urca, visto que uma das alunas da turma se encontra impossibilitada de realizar a caminhada e será necessário o acompanhamento da mesma por um profissional do Colégio.


(2) Já foi mencionada com alguns professores do Colégio a possibilidade de realizarmos essa atividade ainda no ano de 2009.

(3) O lanche será levado pelos próprios estudantes para realizarmos um piquenique coletivo e garantirmos as condições para não sujar o ambiente.


(4) Estive pessoalmente na administração responsável pelo Bondinho para estudar as possibilidades de nossa atividade.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Cartinha de final de ano para alunos

Carta de final de ano distribuída para meus alunos do C. E. Professor Ubiratan Reis Barbosa:

“Cresçam como bons revolucionários. Estudem bastante para dominar as técnicas que permitem dominar a natureza. Sobretudo, sejam sempre capazes de sentir profundamente quaisquer injustiças praticadas contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Essa é a qualidade mais linda de um revolucionário.”


Essas palavras fazem parte da carta de Ernesto Che Guevara a seus filhos. Nesse segundo semestre de 2009, tive a oportunidade de estar com vocês no CEPURB e gostaria de registrar que aprendi e cresci bastante, com as aulas, conversas mas também com os conflitos! Agradeço pelo retorno nas avaliações, que no seu conjunto aprovaram o trabalho desenvolvido nas aulas de Educação Física, onde certamente pudemos refletir, criticar e questionar.

Vivemos em uma sociedade cruel, desigual e opressora, que apresenta como conseqüências a fome, a miséria e o desemprego. Mas não podemos aceitar que esse quadro é natural. Podemos e devemos nos organizar coletivamente para transformar efetivamente. Por isso, não aceitem ordens a vida inteira. Analisem, discutam, critiquem e questionem. Cresçam para combatermos as injustiças!


Que venha 2010! Boas férias!

Prof. Gabriel

Monografia defendida e aprovada

Na última sexta-feira, 11 de dezembro de 2009, ocorreu a defesa de minha monografia de conclusão do curso de especialização em Educação Física Escolar (CESPEB-UFRJ), com o título História e Historiografia da Educação do Corpo e do Ensino de Educação Física, na Faculdade de Educação da UFRJ. Foi um excelente preparativo para a defesa da dissertação de Mestrado, que almejo que ocorra no próximo ano. A monografia foi aprovada pela banca, com nota 10. Agora é só entregar a versão final e referendar o título de Especialista em Educação Física Escolar pela UFRJ. Agradeço às mensagens de apoio e aos que puderam participar presencialmente. Em breve disponibilizarei por aqui o link para download da versão completa do trabalho.














sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Defesa de Monografia na próxima sexta

CONVITE PARA DEFESA DE MINHA MONOGRAFIA

Universidade Federal do Rio de Janeiro
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Curso de Especialização Saberes e Práticas da Educação Básica
Educação Física Escolar

Título
História e Historiografia da Educação do Corpo e do Ensino de Educação Física

Autor
Professor Gabriel Rodrigues Daumas Marques

Orientador
Prof. Dr. Marcos Antônio Carneiro da Silva

Banca
Prof. Dr. Marcos Antônio Carneiro da Silva (FE-UFRJ)
Prof.ª Dr.ª Irma Rizzini (FE-UFRJ)
Prof. Dr. José Jairo Vieira (FE-UFRJ)

Data, Horário e Local
Sexta-feira, 11/12/2009, às 17h, na Sala de Vídeo
(2º andar da Faculdade de Educação da UFRJ, campus Praia Vermelha)

Resumo
O trabalho discorre sobre a produção teórica acerca da história da Educação Física, cujo ingresso e consolidação nos programas escolares é marcado por influências diversas, como o militarismo, o higienismo e/ou o desportivismo. A partir da busca das expressões Educação do Corpo, Educação Physica, Gymnastica, História da Educação Física Escolar e História da Educação Física, foram encontradas, por meio do Banco de Teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, 25 teses e 90 dissertações produzidas em Programas de Pós-Graduação de diferentes áreas e localidades do país entre os anos de 1994 e 2008. Referenciado teoricamente pelas contribuições do campo da História da Educação, nosso objetivo é investigar, por meio dos resumos, o universo dessa produção histórica e historiográfica, analisando mais detalhadamente os trabalhos pautados na Educação do Corpo e/ou no ensino de Educação Physica ou Gymnastica em instituições educacionais e/ou legislações de ensino, durante o período republicano no Brasil. Após essa significativa revisão de literatura, somada à articulação da obra de importantes autores do campo, percebemos que há muito que avançar na pesquisa sobre a história disciplinar da Educação Física.

Dedicatória

A meus avós Moacyr, Teresa e Dulce
A meus pais Mario e Talita
Á companheira Vanessa, a minha irmã Priscilla e todos os demais familiares
Que, ao longo desses 24 anos, contribuíram para minha formação
E estiveram presentes nas conquistas pessoais, acadêmicas, profissionais e políticas


Aos companheiros e companheiras de militância,
Principalmente do Coletivo Marxista e do Movimento Quem Vem Com Tudo Não Cansa,
Que combativamente direcionam suas forças e suas vidas
Para possibilitar a efetiva transformação da sociedade em que vivemos


Guiado por grandes sentimentos de amor, dedico.


Agradecimentos

A conclusão desse curso de especialização, ao final de 2009, certamente significa uma importante vitória e superação acadêmica, política e profissional.

Para ingressar no Curso de Especialização Saberes e Práticas da Educação Básica, o requisito era atuar na rede pública de ensino, uma coerente opção política da coordenação. Durante o processo seletivo, em 2008, atuava como professor contratado ao Setor Curricular de Educação Física do Colégio de Aplicação da UFRJ, instituição organizadora do curso conjuntamente com a Faculdade de Educação da UFRJ. A aula inaugural do CESPEB, em 3 de setembro de 2008, paradoxalmente acontece num dos dias em que mais sofri nesses 24 anos de vida. Entre 12 e 13h daquele dia, ocorrera a reunião do Setor de Educação Física do CAp, na qual fui cobrado e questionado por cinco professores – efetivos do colégio – pelo fato de minha assinatura eletrônica conter referência a meu cargo como Professor Ed. Física do CAp-UFRJ e ter sido veiculada por meio de listas eletrônicas após profundas críticas e posicionamentos contra o Plano Diretor da UFRJ, projeto que materializava o REUNI e o sucatemanto da Educação Superior promovido pelo Governo Lula/PT e implementado pela Reitoria de Aloísio Teixeira. A situação de constrangimento e pressão política sofrida impulsionou horas de choro e caminhada, solitariamente, pelas ruas da Lagoa e do Jardim Botânico, antes de me dirigir para a aula inaugural, no campus da Praia Vermelha.

No dia 4 de novembro, a prática arbitrária de coerção e retaliação foi confirmada. Apesar do desenvolvimento de uma excelente relação profissional com professores de outras áreas, funcionários, alunos, pais e responsáveis, licenciandos e professores da Prática de Ensino; da apresentação e implementação de um trabalho crítico e criativo como eixo norteador do Planejamento Pedagógico; da assiduidade e pontualidade e da participação ativa no cotidiano do Colégio – reuniões, conselhos de classe, Olimpíadas CApianas, Semana de Arte, Ciência e Cultura etc., depois de mais de 1 mês da decisão ter sido tomada, fui informado pelo Chefe do Setor que meu contrato não seria renovado para 2009, em virtude, segundo ele, de não me encaixar no perfil docente que o Setor desejava, decisão unânime dentre os professores do mesmo. Nenhum motivo ou argumento político, administrativo, pedagógico foi apresentado. As batalhas travadas política e institucionalmente nas semanas seguintes me desgastaram e desanimaram em diversas oportunidades, chegando a mencionar a possibilidade de me desligar do CESPEB, após ser classificado como péssimo profissional, nazista e moleque pela Direção do Colégio. No ano em que o CAp-UFRJ comemorava seus 60 anos de existência, tais atitudes destoam de sua referência para a Educação Pública e tentam desqualificar um professor recém-formado e com bastante disposição, energia, esperança e vigor.

O quadro acima demonstrou que, apesar de atuar na militância política desde 2000, o quanto é duro e difícil lidar com uma situação de perseguição política. Entretanto, após o resumido resgate dessa história, urge que agradeça o total, irrestrito, combativo e confortante apoio protagonizado por meus familiares e meus e minhas camaradas de militância, que posso considerar como duas grandes famílias. O presente trabalho é dedicado a eles e a elas justamente porque foi a partir de seu apoio que juntei forças para superar as noites mal dormidas e as lágrimas que escorriam ao recordar os embates diários. Ficam registrados meus agradecimentos a essas famílias, que se preocupam, discutem, orientam, mas principalmente se situam sempre ao meu lado, fornecendo os alicerces materiais, emocionais e políticos, que tanto contribuíram para minha formação humana.

Agradeço também:

Aos meus ex-alunos do Colégio de Aplicação da UFRJ, das turmas 13B, 14A, 14B, 15A e 15B, com quem convivi e aprendi demasiadamente durante o meu primeiro ano (2008) lecionando como professor de Educação Física.

Aos Licenciandos em Educação Física da UFRJ, que realizaram suas Práticas de Ensino Supervisionado nas tardes ensolaradas de terças e quintas no CAp-UFRJ, inovando e aprimorando nossas aulas.

Aos companheiros e companheiras de diversas gestões do Centro Acadêmico de Educação Física e Dança da UFRJ, que, desde 2003, fazem parte de meu ciclo de amizades, desenvolvendo relações sólidas de confiança, companheirismo e combatividade em defesa da Educação Pública e da transformação da sociedade, especialmente Cláudio, Brunão, Bruno G., Bruno Rodolfo, Bruninho, Murilo, Cinthia, Ian, Marcello, Luiz Carlos, Daniel, Vivian, Thiago, Gustavo e Elielsom. A Vera, Leila e Carlos, pela imensa contribuição e consolidação de meus conhecimentos marxistas. A Leonardo, Adolpho, Ludmila, Vinícius, Paulo Tiago, valorosos(as) companheiros(as).

Aos(às) signatários(as) da moção de repúdio à perseguição política no CAp-UFRJ, defendendo a renovação de meu contrato. A Ricardo Kubrusly, José Simões, Cinda, Ronaldo, Janete, José Henrique, Cleusa, Regina, Lucia, Leandro, Kátia, Eduardo, Dianne, docentes da UFRJ, pelo apoio político. A Themis, Adriana, Roberto, Luis Sergio, Jonas, Hajime, André, Waldyr, combativos(as) professores(as) de Educação Física, pelo apoio político.

Ao orientador da monografia e coordenador do curso de Educação Física Escolar Marcos Antônio Carneiro Silva e à coordenadora geral Maria Luíza Rocha, docentes sempre presentes e em quem podemos perceber o envolvimento para garantir a qualidade do curso bem como a sua continuidade pública e gratuita. Aos demais professores do curso, pelas aulas e discussões, em especial às Professoras Regina Celi e Lilia Pougy.

Aos demais componentes da Banca Examinadora, professores José Jairo Vieira e Irma Rizzini.

Aos colegas de turma, pelas animadas e envolventes aulas das noites de segundas e quartas e manhãs e tardes de sábados.

domingo, 29 de novembro de 2009

Socializem as mangas!

Socializem as Mangas!*

“Devolva, isso não é seu!”


“Se você mexer nas coisas dos outros, vai ficar de castigo!”

Frases como essas compõem o cotidiano de diversas crianças, mundo afora. A ordem supostamente natural preserva, conserva e perpetua as relações sociais entre os seres humanos. Pais responsáveis, portanto, devem ensinar seus filhos o essencial, primordial e principal respeito: a propriedade privada!

Diego Gomes Martins (9 anos) e Daniel Diego (10 anos), crianças do Parque do Sabiá, em Piracicaba-SP, certamente escutaram frases semelhantes. Todavia, nossas infâncias parecem se identificar com rebeldias e experimentações. Lampejos de questionamentos por meio de nãos ou fazeres escondidos dos adultos. Ah, como os adultos, maduros, experientes, vividos, precisam desses lampejos... Talvez a sorte dessas crianças tivesse outro destino.

Nessa Primavera, flores e frutas nos brindam com coloridos, aromas e sabores. No quintal do vizinho de Diego e Daniel, há uma mangueira. Mangas docinhas que deveriam ser saboreadas por todos. Mangas que em outros períodos de nosso passado colonial, escravocrata, formariam uma combinação letal para quem comesse e tomasse leite, ludibriando os escravos para que se contentassem com as frutas.

Mas no quintal do vizinho também há Enclosures mangos. Cercas de arame foram colocadas para proteger as mangueiras. Protegê-las não de formigas, mosquitos ou morcegos; mas de parasitas com tele-encéfalo altamente desenvolvido e polegares opositores: os seres humanos! Mais particularmente aqueles que ainda não assimilaram que, por existir uma cerca ao redor, aquela mangueira não lhes pertence. Como se não bastasse tal cerceamento para impedir brincadeiras e travessuras sem que fosse um Dia das Bruxas, a cerca fora clandestinamente ligada ao fio do poste, tornando-se eletrocutável.

Diego e Daniel, que desrespeitaram os ditames da propriedade privada, foram punidos. Com apenas 9 anos, Diego deu adeus ao mundo que mal pôde entender, sem levar sequer uma manga. Seu amigo Daniel foi internado em Unidade de Tratamento Intensivo. Felizmente já está liberado, mas certamente lamenta a ausência do companheiro de traquinices e também ficou sem mangas.

Nossos corações choram a perda de crianças como Diego e tantas outras tão vítimas da barbárie que nos assola com balas perdidas, prostituição, trabalho infantil ou arrastões pelo asfalto. Até onde vai o limite da propriedade? Até quando acompanharemos a destruição, a exploração e a opressão de seres humanos por outros mesmos seres humanos? Não basta chorarmos! Lutemos para que as mangas sejam socializadas!


* Gabriel Rodrigues Daumas Marques

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